Fórum Social Mundial e Fórum Mundial de Teologia e Libertação - 2016: um relato de Roberto E. Zwetsch

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19 Agosto 2016

"O que posso afirmar com segurança é que não se volta o mesmo ao país depois de conhecer tantas pessoas de países diferentes, de ouvir tantos desafios que se apresentam à teologia e às comunidades de fé, e de deixar-se envolver pelo clamor dos povos e da própria terra que geme sob as estruturas de morte que o sistema internacional impõe hoje aos povos", diz Roberto E. Zwetsch, doutor em Teologia e professor na Faculdades EST.

Eis o texto.

O FSM aconteceu em Montreal, Canadá, de 09 a 14 de agosto e pela primeira vez no hemisfério norte. Participei da Marcha da Abertura com o grande grupo do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Longa e bonita caminhada pelo centro de Montreal, com muita gente jovem, mas menos gente, se nos lembramos dos Fóruns de POA, da Índia (Mumbai) e da África (Dakar e Túnis duas vezes).

Chamou-me a atenção a ausência da Via Campesina e do MST, embora o pessoal da CUT estivesse presente com suas bandeiras e palavras de ordem. Um grande grupo com a bandeira palestina representou aquele país às voltas com a invasão colonialista de Israel. No total fala-se de 20 mil inscritos.

Participei de algumas oficinas, mas a melhor foi – a meu ver - sobre Educação Popular com Sheila Ceccon do Instituto Paulo Freire (S. Paulo), e mais colegas da Itália (Universidade de Pádova), Montreal (a representante era uma moça do Camerum), Winipeg (um jovem indígena estudante universitário), e um sindicalista espanhol que vive no Brasil. Foi bem interessante a metodologia escolhida.

O pessoal da mesa falou pouco relatando como realiza a educação popular em seus contextos. Depois organizaram grupos para os participantes conversarem a partir de três perguntas. Cada grupo se formou por facilidade linguística. Depois se compartilhou o que falamos. O resultado será publicado num blog do Fórum Mundial da Educação (almanaquefme.org).

O FSM sempre oferece um número impressionante de oficinas, mesas redondas, conferências. Aqui não foi diferente. As atividades foram descentralizadas: na Universidade de Montreal, na Universidade McGill, centros culturais, espaços públicos. À noite muitas atividades culturais com música e teatro.

Alguns temas sobressaíram: a questão do câmbio climático esteve presente em muitas atividades. A luta contra o neoliberalismo e suas consequências nefastas para os povos com os ajustes econômicos injustos que penalizam mais a classe trabalhadora e os pobres em geral. A prática predatória do capitalismo atual acentuando o extrativismo de matérias primas, apropriando-se do uso da água e dos minerais em todo o planeta, e até de recursos naturais dos mares, como denunciou uma ativista de Honduras.

Um projeto japonês de criação de tilápias vai desalojar 15 mil pescadores do litoral hondurenho. Estamos numa nova fase do imperialismo mundial que não se prende a países, mas a corporações que colonizam povos e mentes. Novas estratégias dos movimentos sociais estão surgindo para enfrentar o momento histórico que apresenta muitos retrocessos em todo o mundo, como na Europa xenófoba, na América Latina com a volta de governos antipopulares e associados aos interesses multinacionais, além de submeter-se novamente à órbita dos EUA.

Há uma demanda por maior articulação dos movimentos sociais altermundistas. O grande desafio que se colocou ao Comitê Internacional do FSM é sua continuidade. Segundo Chico Whitaker, um dos brasileiros que dele participa, o FSM vai continuar, mas uma das prioridades parece ser a realização de um sem número de Fóruns Temáticos por regiões do mundo que abram espaço para questões específicas e consigam assim acolher a diversidade de lutas e demandas mundo afora.

O FMTL chegou à 7ª edição, tendo começado em Porto Alegre em 2005. Desta vez nos reunimos em Montreal, de 08 a 14 de agosto, no Colégio Jean de Brébeuf, sob o tema “Resistir, esperar, inventar: outro mundo é possível”.

Os temas foram diversos, mas despontou o tema da descolonização da religião e da teologia, a abertura para os povos indígenas e outras culturas, a luta das mulheres contra a teologia kyriarcal ou dos senhores como sustentada pela teologia feminista, a força da teologia da libertação desde que acompanhada pelas vozes silenciadas das comunidades pobres, das minorias e pobres em geral, e aberta às novas perguntas do momento histórico que vivemos.

A teóloga indiana feminista Kochurani Abraham falou da Teologia Dalit e da necessidade de se despertar a solidariedade e a luta de libertação a partir das pessoas mais marginalizadas para superar a sociedade excludente que mata e subjuga mulheres e homens.

Também no FMTL houve cerca de trinta oficinas, de que participaram mais de cem facilitadores, e uma assistência em torno de 400 pessoas, além das várias conferências plenárias.

No sábado, 14/8, voltou o tema da descolonização dos encontros teológicos e um panorama atual da teologia da libertação não só na América Latina como também na África e Canadá. A teóloga do Quênia Mary Getui, adventista que leciona em universidade católica em Nairóbi, reafirmou a atualidade da TdL a partir das práticas populares. No caso queniano, ela tem fortalecido a luta pela vida de pessoas com AIDS, por isto mesmo é plural e abarca outras teologias que ajudam a enfrentar o sofrimento humano e questionam o papel das religiões e das igrejas cristãs, particularmente.

Como no início do FMTL, também o encerramento foi conduzido por um sábio indígena do Povo Mohawk, em cujo território se encontra hoje a cidade de Montreal. Kevin conduziu o canto e a oração final em que proclama a necessidade de nossa volta a uma relação saudável e respeitosa com a terra e com as pessoas de todas as etnias e povos.

O que posso afirmar com segurança é que não se volta o mesmo ao país depois de conhecer tantas pessoas de países diferentes, de ouvir tantos desafios que se apresentam à teologia e às comunidades de fé, e de deixar-se envolver pelo clamor dos povos e da própria terra que geme sob as estruturas de morte que o sistema internacional impõe hoje aos povos.

Há que abrir-se a estas vozes e aos seus clamores. Se a teologia não souber trabalhar com o sofrimento e as alegrias que surgem em meio às lutas das pessoas e comunidades mais fragilizadas, ela certamente estará falhando no que pode ser o seu maior desafio: a solidariedade e a inspiração na luta pela Vida, doação e tarefa dadas pelo Deus vivo!

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