Teologia e Feminino: uma narrativa no mundo pós-moderno

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Por: Jéferson Ferreira Rodrigues | 13 Julho 2016

A pós-modernidade é um período intermediário fontal entre aquilo que um dia foi “certeza” e aquilo que não se compreende plenamente. As afirmações que moldaram o mundo de ontem já não correspondem às exigências e urgências desses tempos. Nutre-se um espaço primordial de cultivo da dúvida e da incerteza, nos âmbitos mais diversos: humano, econômico, acadêmico, entre outros.

A secularização das certezas e a globalização permitiu uma interconectividade. O mundo se tornou mais próximo, mesmo que portando um paradoxo latente: ainda conserva-se nas suas distâncias. Existe uma distância não dramática, aquela que é o recurso necessário e saudável para qualquer relação, ou seja, no existir com o outro precisa-se tomar distância e dar tempo. Caso contrário, viver-se-á uma violação concedida da liberdade e da privacidade.

Há uma moldura para ser composta. É possível contemplar os traços, por vezes apagados, outras vezes intensos e marcantes. É um tempo sem definições claras, onde a “regra” bem-vinda é deixar acontecer com responsabilidade e liberdade. Não se está livre de anomalias, tais como: relativismo, individualismo, fundamentalismo, etc. Diante de uma condição pós-moderna: o inesperado sempre é possível, e frequentemente “acontece” no seu descompasso.

Não subsistem as “grandes” narrativas. O ser humano é “convidado” a reinterpretar-se desde muitos lugares de experiência. Como vimos, os desafios são muitos, que inclusive são encarados como sem precedentes na história humana, sobretudo no nível da intensidade, mas precisamos aprender a ser gente com os tons e ritmos de cada contexto. O horizonte contextual é um lugar apropriado para viver e pensar, elegendo-se prioridades na busca de um sentido mais profundo e pleno.

Dentre eles, podemos perceber as mulheres como lugar para pensar a existência e Deus, sobretudo diante do seu singular protagonismo, no século passado. Elas não se permitiram serem apenas as “belas, recatadas e do lar”, mas protagonistas de seus destinos e direitos. Suas lutas não foram em vão. Nelas ouve-se o direito dos vulneráveis e das diferenças. Com elas, protesta-se e realiza-se outra história necessária, e juntas(os) torna-se possível, parafraseando o rhema do Fórum Social Mundial em Montréal (2016).

Os aspectos do feminino ficaram trancafiados num cultura machista e patriarcal, sem conceder-lhes a devida dignidade como um “subproduto” de tal realidade. Com suas lutas, as mulheres exigem o direito de expressão e de existir sendo reconhecidas e valorizadas, embora tenha muito a melhorar, sobretudo no âmbito das oportunidades e da justiça plena de seu valor. É verdade que uma cultura machista não é privilégio ocidental, porque no oriente, de modo especial, Oriente Médio perceber-se tal fenômeno: mulheres diminuídas e silenciadas em sua potencialidade.

Entretanto, no Ocidente, a ênfase na técnica e na ciência empoderou o ser humano de tal forma, que sua estrutura mental e de ação tornou-se rígida, negando e excluindo as mulheres e as diferenças. O grito precisa ser liberado: a palavra que liberta e compõe um “novo mundo”.  Com isso, os estudos multiplicaram-se em diversas áreas para entendê-las com profundidade e potencializa-las. A teologia como exercício reflexivo desde uma perspectiva da fé não ficou isenta da sua contribuição. Muitas mulheres ousaram pensar Deus desde as suas experiências, mostrando-se resistente a uma imagem divina demasiadamente masculina, que acarretava numa prática de exclusão.

A imagem divina era incompatível. O Deus que se fez presença, na sua Shekinah e na tenda armada em Jesus, torna-se justificativa necessária para o afastamento e para a afirmação da desigualdade entre mulheres e homens. Isso permeou o pensamento teológico e religioso por muito tempo. Mas, a ousadia dessas mulheres fez brotar um pensamento original, um exercício intelectual qualificado e possível na vida concreta. A teologia feminista não é uma teologia de mulher para mulher, mas uma nova compreensão de Deus e sua prática correspondente.

A mulher e seu mundo complexo, geralmente identificada como “frágil”, mas que mostra seu vigor na bravura cotidiana do “sim/pão” buscado com trabalho e suor para a realização de muitos. Nossas comunidades eclesiais estão repletas de mulheres. Não porque a religião/igreja seja para, ou ainda, "coisa de" mulheres. É porque elas aprenderam e ensinam a servir no amor e com plena disposição. O lamentável é que tantas vezes permanecem aprisionadas numa cultura de submissão. É mais fácil manter as pessoas coagidas do que ensiná-las a pensar e a viverem naquilo que são capazes.

A mulher não é ocasião de queda. Ela é companhia adequada. Ela é parceira de uma relação. Aqui não está se falando de genitalidade, mas de sexualidade e afetividade. O cuidado e a ternura de cada mulher, não tem preço, e “amolece” qualquer rispidez masculina prepotente. É verdade que elas são violadas e violentadas em muitas dimensões – física, psíquica, emocional. Fazendo-se necessário uma educação para a diversidade: a percepção da diferença. O outro não é um empecilho pra a realização do ser, mas um parceiro(a) qualificado(a) para a própria qualificação.

Uma fé feminina é uma fé geradora de vida. Elas são convidadas ao anonimato e as migalhas oficiais, mas perpassando pelo purgatório de cada dia, chegou o momento de purificar nossas palavras, mentalidades e ações para criar um mundo novo e sem discrepâncias absurdas. Nossa compreensão de Deus também entra em questão, não é suficiente permanecer com uma imagem masculina e poderosa, mas adentrarmos numa “nova linguagem” aconchegante e vital, própria do espaço aberto desde uma saudável imagem de Deus. É preciso resistir com elas, sendo sua companhia, ouvindo suas perguntas e buscando gestar juntos(as) respostas adequadas.

A mudança significativa proporcionada pela teologia feminista, não reside na superficialidade dos vocábulos, mas na profundidade de uma compreensão ampliada de Deus, que atinge as relações humanas de sociabilidade, geralmente marcadas pelo poder e pela submissão. Na verdade, sempre nos visita o risco de trocar seis por meia-dúzia, sobretudo na tentativa de uma “nova lógica” emerge-se um “novo empoderamento”, que poderá ser tão pernicioso quanto o anterior. Mas, precisa-se fazer o esforço para pensar e viver diferente, a começar pela linguagem “performativa e cotidiana”, para que se torne com o passar do tempo uma nova compreensão e uma nova ação.

Mary E. Hunt, nos Cadernos Teologia Pública, edição 66, busca compreender que o ato de nomear revela não apenas o nomeado, mas aquele(a) que nomeia. Essa tarefa encontra sua fecundidade desde o horizonte das mulheres. Desde um excelente panorama, coloca-se a questão como singular para o “dizer” Deus, que exige uma linguagem apropriada, numa escolha de prioridade com suas implicações práticas de ordem social e eclesial.

 


O texto está organizado nos seguintes tópicos:

Uma palavra sobre o contexto

A linguagem teológica feminista sobre o divino

O nomear como prioridade para quem nomeia

Implicações do nomear feminista para a teologia e a mudança social/eclesial

Falar sobre Deus em uma festa pós-moderna

Para acessar o texto: clique aqui

Mary E. Hunt, teóloga feminista, cofundadora e codiretora da Women’s Alliance for Theology, Ethics and Ritual – WATER, em Silver Spring, Maryland, EUA. Doutora em Teologia pelo Graduate Theological Union em Berkeley. Mestrado em Divindade pela Jesuit School of Theology em Berkeley. Mestrado em Teologia pela Harvard Divinity School. Foi professora de Women’s Studies na Georgetow University. Os principais interesses de pesquisa: Teologia Feminista, Teologia e Libertação, Direitos Humanos, Educação e Pastoral Clínica.

Algumas obras:

A guide for women in religion: making your way from A to Z  (New York: Palgrave Macmillan, 2014)

New feminist Christianity: many voices, many views (Woodstock: SkyLight Paths Pub., 2010)

Good Sex: Feminist Perspectives from the World’s Religions (Rutgers University Press, 2001)

Fierce tenderness: a feminist theology of friendship (New York: Crossroad, 1991)

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