Francisco explora modo misericordioso na oposição ao aborto e ao casamento gay

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25 Janeiro 2016

John L. Allen Jr., jornalista americano, comenta o discurso do Papa Francisco, na última sexta-feira, no Tribunal da Rota Romana em artigo publicado por Crux, 23-01-2016. Ele também aborda o tema da identidade católica das universidades católicas americanas. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o comentário.

Logo depois que o Papa Francisco foi eleito, especulou-se que ele poderia conduzir uma retirada da Igreja Católica das guerras culturais. Afinal de contas, ele era um papa que dizia não precisar falar muito sobre o aborto, o casamento gay, e assim por diante, porque as pessoas “já sabem perfeitamente bem qual é a postura da Igreja”.

Dois eventos neste mês, no entanto, sugerem que os rumores sobre a retirada católica deste debate podem ter sido um exagero.

Na sexta-feira (22 de jan.), uma multidão, não muito grande porém animada, participou da Marcha pela Vida, em Washington, DC, evento que acontece todos os anos no aniversário da decisão judicial conhecida como caso Roe x Wade, de 1973. Como sempre, os católicos estiveram nas linhas de frente.

Na próxima semana, espera-se que um grande número de italianos apareça em Roma para uma marcha, no dia 30, conhecida como “o Dia da Família”, convocado para protestar contra um projeto de lei apresentado no parlamento do país que busca reconhecer as uniões civis de pessoas do mesmo sexo e conceder e elas o direito de adoção.

Nenhum desses eventos é uma iniciativa do Papa Francisco, mas alguns se sentem apoiados por ele. Na verdade, há poucos indícios de que o advento da era Francisco tenha diminuído a vontade de fiéis católicos em defender valores tradicionais em assuntos como a vida ainda a nascer e a família.

Quanto à Marcha pela Vida, Francisco não fez nenhum comentário direito apoiando-a, mas os líderes americanos do movimento antiabortista dizem estar convencidos de que contam com o seu aval.

“O Santo Padre fez alguns comentários tremendos sobre a santidade da vida humana”, declarou Richard Doerflinger, quem há 36 anos tem sido o arquiteto intelectual da abordagem assumida pelos bispos católicos americanos sobre questões como o aborto e outras questões “pró-vida”.

“Em geral, ele assume uma abordagem mais casual, mas este homem é, obviamente, um líder nas questões pró-vida”, disse.

Com respeito ao Dia da Família, Francisco usou um discurso endereçado aos juízes do principal tribunal vaticano na sexta-feira para insistir que “não pode haver confusão entre a família desejada por Deus e qualquer outro tipo de união”, o que foi interpretado como uma luz verde para a resistência às uniões civis.

No longo prazo, um impacto papal é mensurado não apenas por aquilo que ele diz ou faz, mas também por movimentos que se fortalecem ou se enfraquecem no catolicismo. Há quase três anos no poder, não parece que uma diminuição do compromisso católico naquilo que São João Paulo II chamava de “o Evangelho da Vida” vai ser parte do legado de Francisco.

Talvez a questão não é se o papa vai afastar a Igreja de suas posições tradicionais, mas sim se ele está criando um novo modo de ela atuar nos mesmos temas.

Já se disse que os piores inimigos do movimento antiabortista podem ser os próprios opositores do aborto, pois eles podem parecer pessoas raivosas, acusadoras, estridentes, afastando as demais da mensagem que procuram difundir.

Não creio que isso seja verdadeiro, porque partidários ferrenhos podem ser encontrados em ambos os lados das disputas. Talvez seja que quando as questões envolvem o aborto e os direitos das pessoas gays, aquelas qualidades negativas parecem mais evidentes, pois as paixões afloram mais e os objetivos em jogo são, em geral, de grande importância.

Dois exemplos dão a entender que o papa está tentando apontar para um caminho diferente.

O pontífice designou 2016 como o Ano da Misericórdia, um jubileu especial, e um dos seus gestos mais imaginativos nesse sentido foi conceder aos padres ao redor do mundo a permissão de absolver o pecado do aborto.

De acordo com o Direito Canônico, a participação no aborto – seja pela mulher que abortou, seja o médico que o realizou, o namorado ou marido que apoiou, etc. – é considerado um pecado grave e normalmente pode ser perdoado apenas por um bispo ou padre a quem o bispo deu essa autoridade especial. Durante o ano jubilar, no entanto, Francisco decretou que qualquer padre pode fazê-lo.

O gesto foi saudado como um ato de compaixão pelas mulheres que abortaram. No entanto, a pressuposição subjacente é que o aborto é ainda um pecado muito grave, pelo qual todos os envolvidos desesperadamente precisam de perdão.

O segundo exemplo veio em agosto de 2014, quando Francisco proferiu o seu discurso mais incisivo contra o aborto.

Durante uma viagem à Coreia do Sul, o pontífice fez uma visita de última hora a um “cemitério” simbólico para as vítimas do aborto em um posto de saúde católico próximo, formado por uma encosta verde marcada com pequenas cruzes brancas e identificado com uma estátua da Sagrada Família: Jesus, Maria e José.

Francisco não disse absolutamente nada durante o período em que aí ficou. Ele não precisava, porque o visual do cemitério, juntamente com o seu rosto assombrado e angustiado, serviu para dizer tudo, sem ser necessário repreender alguém.

Em uma entrevista recente ao sítio Crux, Doerflinger, assessor da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, afirmou ser importante que o “amor e o respeito” pelo outro lado no debate sobre o aborto “se tornem mais visíveis, permeando tudo o que fazemos”.

“Somos pró-vida porque estamos tentando refletir o amor que Deus tem por todos”, declarou. “Eis uma atitude inteiramente diferente daquela que frequentemente se vê no domínio político”.

Quiçá seja aqui onde Francisco seja um inovador: não em repensar se o catolicismo deveria ainda se opor ao aborto ou ao casamento gay, mas em explorar uma forma mais compassiva, e, portanto, pelo menos potencialmente mais convincente, de fazer valer estas posições.

Um artigo recente amplamente lido, publicado no sítio Catholic World Report e escrito por Christopher Kaczor, professor de filosofia na Loyola Marymount University, em Los Angeles, levantou importantes dúvidas sobre se esta universidade pode, ou poderá, continuar sendo “católica” além do nome.

No texto, ele Kaczor observa que apenas 24% dos docentes são católicos e que eles tendem a ser os membros mais antigos. O ethos não católico crescente no campus, sustenta ele, mostra-se em uma variedade de formas, dizendo que, se as coisas continuarem assim, “o processo de secularização irá se completar dentro de uma geração”.

Para constar: o artigo não era nem alarmista nem sensacionalista. Pelo contrário, ia direto ao ponto, sendo uma leitura apurada da situação.

Enquanto isso acontece, a Associação das Faculdades e Universidades Católicas (Association of Catholic Colleges and Universities – ACCU) está se preparando para o seu congresso anual, a se realizar entre os dias 30 de janeiro e 1º de fevereiro em Washington, DC.

Eu contatei Michael Galligan-Stierle, presidente da ACCU, para falar sobre as iniciativas que visam manter uma identidade católica no campus – não especificamente na Loyola Marymount University, mas no país como um todo. Falamos por telefone na sexta-feira (22 de jan.).

No geral, Galligan-Stierle crê que as faculdades e universidades nos EUA tiveram grandes avanços nos 25 anos desde que São João Paulo II emitiu o Ex Corde Ecclesiae, documento que convidava as instituições católicas de ensino para um compromisso renovado e a permanecerem no “coração da Igreja”.

“Hoje, existem muito mais departamentos missionários em nossas instituições, há um compromisso muito maior com o trabalho ministerial no campus, existe uma ênfase mais profunda na formação docente segundo a tradição intelectual católica”, disse ele.

“Estamos muito mais focados na missão em termos de financiamento, formação e desenvolvimento em todas as camadas”.

“Vinte anos atrás, talvez havia quatro ou cinco departamentos dedicados à missão nos campi”, informou Galligan-Stierle. “Hoje são 60”.

Em novembro passado, segundo ele, o Vaticano organizou um congresso para marcar não só o 25º aniversário do documento Ex Corde como também o 50º aniversário de Gravissimum Educationis, documento produzido pelo Concílio Vaticano II sobre educação católica.

Galligan-Stierle falou que os participantes americanos nesses eventos descobriram que “éramos meio que vistos, em muitos círculos por aí, como uma força importante no mundo em termos de fortalecimento da identidade católica, encarnando-a de um modo sem igual em outros lugares”.

Entre outras coisas, Galligan-Stierle disse que os diálogos sobre a Ex Corde nos EUA tiveram um efeito “absolutamente positivo” em termos de abrir, ou fortalecer, linhas de comunicação entre as universidades e os bispos.

Observou também que, no congresso da ACCU no fim deste mês, Dom George Lucas, de Omaha, Nebraska, coordenador da Comissão para a Educação Católica, estará presidindo a missa de abertura e uma cerimônia de premiação, enquanto que Dom George Murry, de Youngstown, Ohio, secretário da Conferência dos Bispos e futuro coordenador da citada comissão, estará falando num encontro restrito aos reitores. 

Galligan-Stierle igualmente disse que, depois de atuar na aplicação de Ex Corde no país, um grupo de trabalho composto de seis a oito bispos e seis a oito reitores ainda se reúne duas vezes por ano para alinhavar alguns temas e se conhecerem entre si.

Ele enumerou uma variedade de informações estatísticas que mostram uma situação saudável das instituições em questão.

Num momento em que muitos números relacionados à Igreja Católica decrescem – a frequência semanal à missa, por exemplo, ou as vocações para a vida religiosa –, as matrículas em instituições universitárias católicas estão em alta. “Isso quer dizer que nós devemos estar fazendo alguma coisa certa”.

Além disso, enquanto somente 6% dos católicos americanos estudam em uma universidade católica, 44% deles representam estudantes que irão se tornar padres.

Informou ainda que aqueles 6% são de pessoas duas vezes mais propensas a doar dinheiro às dioceses do que as que não estudam em uma instituição católica. Estes alunos têm também uma maior chance de frequentar a missa semanalmente (26% a 16% de diferença).

Citando um estudo recente da UCLA, Galligan-Stierle disse que apenas 5% dos professores das universidades americanas dizem estar dispostos a integrar em seu trabalho a espiritualidade e a busca pelo transcendente, mas 70% dos docentes das instituições católicas dizem estar interessados em fazê-lo.

“Comparamos estes 70% contra a média nacional de 5%, e diremos que estamos muito bem, obrigado”, completou.

Isso não significa que inexistem desafios.

De um lado, Galligan-Stierle fez notar que, nos últimos cinco anos, 100 das aproximadamente 200 faculdades e universidades católicas do país trocaram os reitores.

Em geral, os candidatos para cargo são diretores ou decanos acadêmicos, e a metade desses cargos foram entregues nos últimos cinco anos também.

Consequentemente, disse ele, há uma necessidade urgente em dar formação para uma nova geração de líderes.

“Precisamos construir um sistema de formação mais eficiente”, disse Galligan-Stierle

“Temos de desenvolver um sistema de treinamento mais robusto, de forma que possamos substituir estes líderes à altura”.

Para isso, continuou ele, a ACCU está lançando um projeto que visa fomentar não só um compromisso institucional com a identidade católica, mas também um “chamado vocacional à fé, ao serviço e à pesquisa”.

Numa outra frente, Galligan-Stierle disse que, devido ao fato de as instituições católicas de ensino terem um número limitado de cursos de pós-graduação, elas muitas vezes se veem obrigadas a contratar pós-graduados de universidades estatais no intuito de encontrar o treinamento avançado certo em uma dada disciplina.

Mesmo se estes novos contratados fossem católicos, explicou, isso não seria garantia de que eles necessariamente trazem uma familiaridade profunda com a “tradição intelectual e o ensino social católicos, nem de como esta tradição se relaciona com a matéria de conhecimento deles”.

Por esse motivo, muitas faculdades católicas estão oferecendo cursos de verão aos docentes, até mesmo dando bolsas de estudo, para que eles participarem da formação sobre como a identidade católica deveria chegar ao nível curricular.

Sobre a questão das porcentagens relativas aos professores católicos, Galligan-Stierle notou que, em algumas partes do mundo onde a população cristã é muito pequena, existem universidades católicas com 5% ou menos de docentes católicos, e no entanto “o Vaticano se sente animado em ter” tais instituições.

Não há mágica aqui, disse ele, porém reconhecendo que as faculdades e universidades deveriam procurar contratar católicos sempre que puderem.

“As pessoas precisam enxergar um modelo vivo de como viver a fé católica no campus”, disse. “A fé tem de estar viva, e para isso precisamos ter pessoas que são batizadas e que vivem a fé católica de um jeito robusto, servindo de modelo aos alunos”.

A questão de fundo é, de acordo com Galligan-Stierle, que as coisas estão tendendo para a direção certa, apesar das dificuldades e fragilidades inegáveis. Para resumir a conversa, ele traçou uma analógica com o baseball.

“Pensemos no jogo All-Star”, disse o entrevistado. “Temos aí o melhor dos melhores em campo, e, no entanto, até mesmo eles acertam só a metade das tacadas, assim como os que ficam atrás da linha atacando as bolas raramente conseguem o objetivo: umas 10 por ano”.

“Às vezes deixamos a bola cair, às vezes caímos ao chão, mas no todo eu diria que estamos tendo uma boa média de acertos”, completou. “Precisamos melhorar, e vamos nos manter focados nisso”.

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