Encontro de Assis abre os braços a todos os povos e religiões. Mas e a ""ditadura do relativismo"?

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28 Setembro 2011

A chave de tudo está na afirmação paulina de "Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade", incessantemente repetida pelo Vaticano II, seja com relação à Igreja, seja com relação aos fiéis de outras fés, seja no que diz respeito a todos aqueles que, "à imagem de Deus", são obrigados, em nome da liberdade, a "obedecer apenas à sua própria consciência".

A análise é do jornalista e deputado italiano Raniero La Valle, em artigo publicado no sítio Domani, 26-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A subida das religiões ao monte santo de Assis para o encontro ecumênico e inter-religioso convocado pelo papa no 25º aniversário daquele primeiro congresso dos líderes religiosos mundiais que foi promovido em 1986 por João Paulo II, para a alegria de muitos e a aflição escandalizada de outros, sobretudo homens da Cúria e colaboradores próximos a ele. Todas as religiões juntas: não seria talvez irenismo? O problema que explodiu naquele momento se repropõe mais uma vez hoje.

A aposta está totalmente no fato de que o ato de reunir em nome da fé, e não da política ou da cultura, representantes de religiões e Igrejas diferentes, não é posto sob a conta daquele relativismo, ou melhor, daquela "ditadura do relativismo", que é o mal vigorosamente combatido por Bento XVI desde o início e até mesmo desde antes do seu pontificado. Para afastar do evento essa suspeita, o próprio Bento XVI, falando uma vez do "espírito de Assis", especificava o seu conteúdo em um esforço comum pela paz e pela reconciliação entre os povos, "no respeito das diferenças das várias religiões".

É muito justo que as diferenças – isto é, o pluralismo – sejam respeitadas, e as próprias religiões querem isso. O problema é, porém, que a diferença com relação às outras fés e religiões não seja identificada pela Igreja Católica no fato de que ela seria a única religião para a salvação, enquanto as outras, embora respeitáveis, não seriam idôneas para esse fim. De fato, se essa fosse a diferença concebida pela Igreja Romana com relação aos seus interlocutores nos encontros ecumênicos e inter-religiosos, esses encontros se reduziriam a puro folclore (a liturgia também pode se reduzir a folclore), e vã seria a própria "peregrinação" do papa a Assis.

O fato de esse ser exatamente o problema é demonstrado pelo fato de que a relação com as outras religiões é uma das principais razões de ruptura com a Igreja dos integristas cismáticos que rejeitam o Vaticano II. Contra a reunião de Assis, o seu superior francês proferiu palavras de fogo, e parece que, no encontro do dia 14 de setembro entre o cardeal Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Dom Bernard Fellay, chefe dos lefebvrianos, este declarou que o verdadeiro obstáculo a ser removido para a reconciliação é a declaração Nostra Aetate do Concílio.

Do seu ponto de vista, ele tem razão: se há realmente um ponto decisivo em que o Concílio inovou com relação à doutrina comumente professada na Igreja Católica até então, é precisamente no reconhecimento dos valores crísticos e salvíficos que estão presentes em todas as tradições religiosas e em todos os homens, como, aliás, diz a Nostra Aetate quando afirma que a Igreja "nada rejeita do que é verdadeiro e santo nessas religiões", as quais, mesmo diferenciando-se do credo católico, "não raramente refletem um raio da verdade que ilumina todos os homens".

Essas palavras, além disso, eram só o início de uma reflexão que seria desenvolvida no próprio Concílio e depois na doutrina e na práxis da Igreja até o "espírito de Assis" e além. A novidade estava no fato de que a Igreja Católica não se apresentava mais como a única depositária da verdade e a única dispensadora de salvação, segundo a velha afirmação de que "extra Ecclesiam nulla salus" (fora da Igreja não há salvação), que infelizmente, na apologética, havia sido unida à figura não edificante de Raab, que, segundo o relato bíblico, havia rompido a solidariedade com o seu povo e havia sido a única a se salvar no extermínio de Jericó.

O Concílio depôs solenemente essa pretensão exclusivista e dominadora, assim como Paulo VI depôs então a sua tiara papal, em favor dos pobres, nas mãos de Maximos IV Saigh, o líder da pequeníssima Igreja Melquita. O Concílio, de fato, diz enfaticamente que, "com a encarnação, o Filho de Deus se uniu de certo modo a cada homem", o que rompe todos os limites de tempo, de templos e de civilização, e é exatamente o que os integralistas anticonciliares não conseguem aceitar.

A chave de tudo está na afirmação paulina de "Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade", incessantemente repetida pelo Vaticano II, seja com relação à Igreja, seja com relação aos fiéis de outras fés, seja no que diz respeito a todos aqueles que, "à imagem de Deus", são obrigados, em nome da liberdade, a "obedecer apenas à sua própria consciência".

As consequências são muito mais profundas do que bons modos entre as religiões. Como já dizia Teilhard de Chardin, é preciso "subtrair a vinda do Filho de Deus, a Encarnação, do quadro de uma concepção estática do mundo e da vida, em que até agora ela foi colocada". Segundo Carlo Molari (na revista Rocca), a Encarnação não é um evento instantâneo que se esgota na realidade humana de Jesus, "mas incide de modo profundo na história e ainda está operante no devir humano". Segundo Raimon Panikkar, "não se pode reduzir Deus a um papel exclusivamente histórico, nem a Encarnação a um fenômeno temporal". Segundo as últimas palavras do Papa João, retomadas pelo Pe. Loris Capovilla, justamente em vista deste próximo encontro, "aqueles braços estendidos do Crucificado dizem que ele morreu por todos, para todos".

Esse é o espírito, mas também o caminho que parte de Assis.

 

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