Na Venezuela, Capriles finge ser de esquerda

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Por: Jonas | 11 Setembro 2012

Na Venezuela de hoje, não está na moda ser de direita. As ruas de Caracas estão cheias de cartazes (foto) com o rosto do empresário e dirigente político Henrique Capriles, candidato opositor à presidência da República. Na imagem em que aparece com um boné de beisebol, com o desenho da bandeira de seu país, o aspirante sorri abertamente, como se estivesse anunciando um creme dental. Na parte superior da propaganda é anunciado: “De baixo e à esquerda”.

A reportagem é de Luis Hernández Navarro, publicada pelo jornal Página/12, 10-09-2012. A tradução é do Cepat.

O cartaz não é produto de uma excentricidade tropical, mas parte de uma estratégia do bloco opositor. Apesar de ser um empresário de direita, Capriles se apresenta em público, repetidamente, como um homem progressista, como um político que, segundo o pesquisador Germán Campos, busca recuperar o discurso de Chávez, mas travestido.

Curiosa ironia: pela primeira vez, em muito tempo, a burguesia venezuelana tem um candidato de sua classe, de linhagem tradicional. Sua ascendência é notada a quilômetros de distância. Capriles é advogado e cofundador do partido político conservador Primeiro Justiça. Para montar sua organização recebeu, antes da chegada de Hugo Chávez à presidência, financiamento da companhia petroleira estatal. Sua solicitação contou com o apoio dos principais meios de comunicação privados.

O candidato da Mesa de Unificação Nacional nasceu no seio de duas famílias proprietárias de meios de comunicação. Seus adversários lhe acusam de pertencer ao grupo de ultradireita “Tradição, Família e Propriedade”. Foi um ativo participante no golpe de Estado contra Hugo Chávez, em 2002, e encabeçou as agressões contra a Embaixada de Cuba, em Caracas. Por isso, em 2004, a Promotoria Nacional lhe acusou de violar princípios internacionais. Contudo, agora se anuncia como o candidato de baixo e à esquerda.

Este transformismo político, em que a direita se apresenta como uma força progressista, não é gratuito. Como mostram diversos estudos de opinião, realizados por empresas como “Consultores 30.11” e “Hinterlaces”, na Venezuela foi gestada uma nova cultura política em que o ideal socialista possui um alto índice de aceitação. É difícil remar contra ele. A metade da população concorda em construir um país socialista, contra 29% que se opõe.

Os cidadãos associam esse socialismo a valores como inclusão, solidariedade, cooperação, igualdade de oportunidades, organização, participação e, recentemente, eficiência. Duas em cada três pessoas privilegiam os conteúdos sociais e políticos da democracia, acima das questões procedimentais. O socialismo se relaciona com democracia e igualdade de oportunidades.

Esta adesão massiva à causa socialista é um fato relativamente novo. Durante as décadas dos anos 1960 e 1970 – disse Germán Campos – foi um conceito impedido, satanizado entre a maioria da população venezuelana. Porém, isso mudou radicalmente na campanha eleitoral de 2005, quando o presidente Chávez passou do bolivarianismo, nacionalismo e anti-imperialismo a se assumir como socialista.

Segundo Campos, que se apresenta sem ambiguidade como homem de esquerda de toda a vida, este fenômeno pode se explicar como produto da desestruturação da velha cultura política e o surgimento de uma nova, caracterizada pela emergência de uma sociedade repolitizada. O marco desta situação – destaca – está em cinco momentos-chave que explicam por que os venezuelanos mudaram.

O primeiro foi a desvalorização da moeda, no dia 18 de fevereiro de 1983, que rompeu a imagem de que a Venezuela era um país rico, com uma situação econômica estável. O segundo foi o “Caracazo”, do dia 27 de fevereiro de 1989, uma explosão social na qual os pobres da capital saíram às ruas para protestar, sem organização e direção política, contra as políticas de ajuste, e que esvaeceu a ilusão da igualdade social.

O terceiro consistiu na rebelião militar de 1992, encabeçada por Chávez, que modificou a percepção da população sobre os militares como uma força pretoriana, em grande parte, nascida de seu papel como agentes da repressão durante o levante popular de 1989. Um fato que exemplifica esta nova situação – pontua Campos – é que o disfarce mais visto entre as crianças, durante o Carnaval após o levante, foi o de Chávez com boina roxa.

A quarta peça deste quebra-cabeça, foi o triunfo de Caldera nas eleições de dezembro de 1993, fora do binômio tradicional da Ação Popular e do Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei). Junto a isto, soma-se a emergência eleitoral de uma força eleitoral de esquerda (Causa R) que presumivelmente obteve a maioria dos votos, que não foram reconhecidos e que, finalmente, foram negociados por seu candidato Andrés Velázquez (hoje na oposição). A vitória de Caldera rompeu o equilíbrio bipartidarista tradicional e tornou impossível a recomposição do velho sistema político venezuelano.

Finalmente, o mapa desta transformação na cultura política termina de se desenhar em 1999, já com Hugo Chávez na presidência, com a massiva participação popular na Constituinte, em que os cidadãos formularam propostas e se envolveram ativamente na definição de seu próprio destino.

De acordo com Oscar Schmell, da “Hinterlaces”, aconteceu um enorme envolvimento da sociedade venezuelana na agenda pública. Na Venezuela – destaca – vive-se um processo de inclusão social e as pessoas apoiam o modelo instaurado.

O enorme peso desta nova cultura política e a força das conquistas sociais do governo bolivariano tornam as coisas muito difíceis para Capriles. Ele não pode se opor a isso publicamente, correndo o risco de perder qualquer possibilidade de triunfo. Não pode falar com clareza de sua proposta política e econômica, pois seria rejeitado. Por isso, tem-se visto obrigado, ao longo de toda sua campanha, a declarar, como fez no dia 6 de setembro, durante uma andança em Lara, que as missões, os programas sociais (...), o governo tem que realizar, “porque essa é sua obrigação”.

Ao contrário, o chavismo tem conseguido fazer com que o presidente represente uma visão de país com um alto consenso, e que seja visto por cerca de dois terços da população como o futuro. Além disso, de acordo com Schmell, seu discurso emocional, como integrante de seu discurso político, foi muito forte importante para chegar aos sentimentos mais profundos dos mais desamparados. Isto, sobretudo, nos setores populares, em que a vida diária tem muitas limitações. O discurso amoroso do presidente, sua liderança carismático-religiosa, construiu algo muito potente e influente. Por isso, pode confessar diante da multidão e sem nenhum vacilo, como fez no sábado, que “em algum momento cheguei a pensar que sim, que teria que sair da disputa política, mas graças a Deus estou aqui, recuperado”.

Ser socialista na Venezuela é o atual, inclusive para aqueles que são de direita. Eis aí parte da tragédia de Henrique Capriles Radonski e seus aliados. Daí, a fortaleza de Chávez.

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