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Por: André | 31 Agosto 2012

Filósofo do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau é também um mestre para o século XXI, um autor de uma surpreendente modernidade, capaz de nos ensinar muito sobre a natureza humana.

A reportagem é de Pascale Senk e está publicada na revista francesa La Vie, edição n. 3489, 12 a 18 de julho de 2012. A tradução é do Cepat.

A autonomia psicológica em primeiro lugar

Quem sou eu entre os outros? O que valho quando não me comparo com os meus congêneres e quando exprimo a minha verdade?  Todas essas questões sobre a identidade pessoal, que o mundo perdeu, mas que sempre deve ser preservada, são abundantes na obra de Rousseau. Ele reivindica a singularidade, de tal maneira que a anuncia a nós no preâmbulo de Confissões: “Eu sou diferente de todos os outros; ouso crer que sou diferente de todos os que existem. Se não valho mais, ao menos, eu sou outro”.

Nada menos que “o inventor da subjetividade moderna”, como o filósofo Charles Pépin, autor de Ceci n’est pas un manuel de philosophie (Flammarion), o qualifica. Numa época em que todos os intelectuais percorrem o planeta para compreender o homem, ele declara que é indo ao fundo de seu jardim e no mais profundo de si mesmo que podemos compreender a natureza humana. Que audácia! Dedicar-se a uma introspecção, escrever sobre esses estados de alma e suas falhas – o que chamamos de um exercício de “autoficção” de nossos dias; foi isso que Rousseau levou ao seu apogeu em Confissões e Os devaneios do caminhante solitário, que seguem sendo as testemunhas maiores sobre a vida interior.

Em seu espírito, aprofundar e proteger sua singularidade tem um objetivo: fugir do poder alienante da vida em sociedade. Rousseau distinguia “o amor de si” – esse sentimento que impulsiona cada um de nós a zelar pela sua própria conservação, e que poderíamos aproximar da “estima de si” preconizada pelos psicoterapeutas contemporâneos – do “amor próprio”, uma forma desvirtuada do narcisismo que repousa sobre a opinião dos outros. Desde o momento em que procuramos o reconhecimento e o prestígio no olhar do outro, somos, segundo Rousseau, escravizados. E só a autonomia é fonte de plenitude. “Tua liberdade, teu poder só vão tão longe quanto tuas forças naturais, e não além; tudo mais não passa de escravidão, ilusão, prestígio (...)”, escreve em Emílio. “O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada. Essa é a minha máxima fundamental”.

Esta supremacia da independência, que ele prega, frisa às vezes nele uma forma de paranoia, até mesmo de misantropia. “Rousseau pensava que o olhar do outro nos amputava da nossa verdade. Ora, sabemos hoje que isso é totalmente falso”, destaca Charles Pépin. “Pelo contrário, nós nos fazemos na relação com os outros”.

Podemos nos servir de seus escritos para reparar alguns excessos da nossa época de hipercomunicabilidade (as redes sociais, em geral, e o Facebook, em particular). Diante da intromissão do olhar do outro, Rousseau opunha grandes zonas de solidão, de tempos passados a sonhar debaixo das árvores... Momentos que se comprovavam mais do que necessários.

Moderno, o amigo Jean-Jacques também o é por força dos paradoxos. “De um lado, ele teorizou magnificamente o ser em conjunto em Do Contrato Social, especialmente – e, do outro, ele assentou, com tanto idealismo, as bases do ser solitário”, explica Charles Pépin. De um lado, ele era um filósofo político, do outro, um verdadeiro escritor. Uma parte dele elaborou a primeira grande teoria da educação (Emílio), ao passo que abandonou seus cinco filhos numa instituição. Uma arte da contradição levada ao extremo que nos mostra, como o fez a psicanálise, que o sujeito humano é um conjunto heteróclito.

Avançar e pensar por força dos sentimentos

Ao longo de toda a sua obra, ele exulta, empalidece, fica com raiva, chora... Enquanto o racionalismo triunfa ao seu redor e Descartes se deleita no exercício da especulação intelectual, Rousseau reivindica a força das emoções e faz delas o seu motor principal. Atenção, contudo, para não limitá-las a simples experiências físicas. Em Rousseau, é difícil estabelecer a fronteira entre sentimentos e emoções. “As sensações que o invadem não são emoções chocantes”, observa o filósofo Michel Lacroix, fino analista do desenvolvimento pessoal e autor de Se réaliser (Robert Laffont). “Contemplativas, elas se instalam com o passar do tempo e modelam sua razão”. Em primeiro lugar, essas alegrias, essas lágrimas, essas acelerações do coração são uma fonte de felicidade e de autogozo. Por acaso, não escreveu, como um slogan em Profissão de fé do vigário saboiano: “Existir é sentir!”. E também, em A nova Heloísa: “Oh sentimentos, sentimentos, doce vida da alma!”.

Em seguida, Michel Lacroix destaca como o filósofo extrai do poder desses sentimentos sua força de indignação... e, portanto, suas ideias. “A sentimentalidade de Rousseau é uma força motriz de seu engajamento político”, afirma. “Sua febre republicana, irreverente, pré-socialista, sua necessidade de justiça, são alimentadas por sua hipersensibilidade”. Mais um paradoxo de Jean-Jacques Rousseau: se os movimentos de sua vida emocional alimentam um certo individualismo, até mesmo um fechamento sobre si, eles permitem também uma abertura para um despertar político. Uma reconciliação sobre a qual as nossas democracias atuais poderiam se inspirar.

Rousseau deteve-se muito sobre a sua vida amorosa, chegou mesmo a revelar suas fantasias sexuais – sabemos que uma punição administrada pela mulher que cuidava dele quando tinha apenas 8 anos determinou nele um gosto pronunciado pela surra como jogo erótico –, reconheceu ter amado de muitas maneiras, de maneiras muito diferentes, segundo as mulheres envolvidas.

Em seu belo ensaio Sentiment d’existence, la quête inachevée de Jean-Jacques Rousseau (Edições Markus Haller), David Gauthier, professor de filosofia da Universidade de Pittsburgh, faz um apanhado dessas experiências e mostra que Rousseau era, de maneira dissociada, capaz quer de um “amor sensual, ou de temperamento”, quer de um outro, “platônico, ou de opinião”. Especialmente, ele que vivia com a desconfiança da escravidão psicológica encravada no corpo, chama de “mamãe” seu grande amor a sra. de Warens, uma mulher bem mais velha que ele, com a qual “eles miram toda a sua existência em comum”. A propósito desse laço absoluto, ele escreve: “Eu só me sentia bem perto dela (...). Eu só me afastava dela para pensar”. Contudo, irá se casar com Thèrése Levasseur, uma mulher que ele não amava e com a qual teve cinco filhos. Isso permite à filósofa Olivia Gazalé (que acaba de publicar Je t’aime à la philo, Robert Laffont) dizer que Rousseau era o “especialista do amor impossível”. Assim, irá amar Sophie d’Houdetot, uma mulher muito ocupada, pois era casada com um capitão da polícia e amante de um oficial. “Rousseau se apaixonou por mulheres com as quais a felicidade harmoniosa era impossível”, escreve Olivia Gazalé. “Ele se meteu numa problemática desoladora: casar com uma mulher que não amava, ou amar uma mulher não esposável”. Nisso, conclui a filósofa, “ele é o precursor do romantismo, mas também do desencantamento moderno através do existencialismo sartriano”.

Encontrar a felicidade na natureza

Em sua busca da natureza e da introspecção, os passeios pela Saboia ou no Jura irão até muito tarde em sua vida. Antes de Friedrich Nietzsche ou de Henry D.Thoreau, Jean-Jacques Rousseau é o primeiro “filósofo andarilho”. Uma vez mais, seu espírito de independência extrai daí seu proveito: “Partimos em seu momento, chegamos à sua vontade, fazemos tanto e tão pouco exercício quanto queremos”, escreve ele em Emílio. “Assim que diviso um rio, eu o margeio; uma árvore frondosa, e já vou para me sentar à sua sombra (...). Do lugar que gosto, fico. No momento em que me aborreço, vou embora”. Essa é a sua felicidade: contemplar a natureza, herborizar para melhor conhecer e poder aí celebrar seu Criador.

Rousseau é um pouco o precursor da deep ecology (“ecologia profunda”, que considera a humanidade como parte integrante do ecossistema) e do movimento do decrescimento: “Enquanto o seu século celebra as indústrias do luxo e seus colegas Voltaire ou D’Alembert se entusiasmam com as máquinas e o progresso tecnológico”, explica Michel Lacroix, “não para de recordar que a felicidade não se encontra nas posses, mas nos passeios a pé e no folheamento do grande livro da natureza”.

Seus hobbies nunca são dispendiosos: compor ou estudar música, sonhar no fundo de um barco em um lago, levar uma vida campestre... Rousseau viveu numa certa pobreza, sem nunca se queixar disso; pelo contrário, ele não cessa de se alegrar com a simplicidade. “Eu não conheço alimento melhor que uma comida rústica”, escreve em Confissões. “Com produtos lácteos, ovos, ervas, queijo, pão preto e vinho eu me deleito”. Uma mensagem de frugalidade, vital para a nossa época.

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