Com discurso popular, papa ganha apoio para reformas

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Por: Cesar Sanson | 02 Agosto 2013

Popularidade reforça o poder do papa Francisco para negociar mudanças que devem desafiar interesses fortes dentro do Vaticano.

A reportagem é de Assis Moreira e publicada pelo jornal Valor, 02-08-2013.

O papa Francisco voltou da Jornada Mundial da Juventude, no Rio, com um nível de popularidade universal que reforça o pontificado para fazer reformas profundas na estrutura e na prática da Igreja Católica, acreditam alguns vaticanistas. O papa reunirá em outubro pela primeira vez um conselho internacional de oito cardeais que ele mesmo nomeou, representando todas as regiões do mundo, para começar a examinar mudanças que enfrentarão resistências fortes, dizem os especialistas.

Mas o grande apoio demonstrado pelas massas católicas e laicas ao novo pontificado sinaliza que "Francisco conseguiu um pacto com a opinião pública que o ajudará, dentro e fora da Igreja, a avançar com mais segurança no caminho das reformas", diz a vaticanista Franca Gian Soldati.

Para Andrea Tornielli, autor do livro Francisco, um Papa do Novo Mundo, o caminho para a "revolução da ternura" no âmbito de uma das maiores religiões do mundo, com 1,2 bilhão de fiéis, será complicado e não virá rapidamente, mas os fatos de que "o papa seja tão popular e de que seu estilo ajude" representam uma oportunidade.

Esses vaticanistas rejeitam o termo de "inimigos" em relação a opositores de reformas. Alguns analistas chegaram a sugerir que os seguidos pedidos do papa para os fiéis orarem por ele tinham a ver com a situação que enfrentará nas mudanças no Vaticano. Mas Tornielli, que o conhece bem, diz que na verdade Francisco sempre repetiu esses pedidos, "desde bispo, cardeal e agora papa".

Para Soldati, a estratégia de Francisco para atrair apoio "é inteligente. Ele procura argumentos sempre para unir e não para ser fonte de divisão". Em artigo na revista italiana L'Espresso, o vaticanista Sandro Magister nota que o papa tem uma oratória simples, compreensível e comunicativa, que dá a impressão de improviso, quando na realidade seria cuidadosamente estudada tanto formulação como nos fundamentos da fé cristã que ele continua a reiterar.

Magister vê uma "coincidência evidente" entre as palavras e os gestos do papa e sugestões que ele poderia receber de marqueteiros. Observa que tudo o que Francisco faz e diz dificilmente pode ser contestado pela opinião publica católica e laica, tanto quando diz que quer uma Igreja pobre e para os pobres, como quando aborda temas mais sensíveis. Como é "quase sempre de maneira genérica", nenhum dos "poderes verdadeiros ou supostos se sente realmente atacado e incitado a reagir".

Tornielli, autor de uma longa biografia do novo papa, rejeita observações de que o pontífice argentino tenha uma estratégia de comunicação e marketing montada. "Não tem absolutamente nada disso, ele é simples do mesmo jeito, não mudou, não tem estratégia midiática nenhuma", afirma.

Para vaticanistas, o que dá eco extraordinário ao que diz o papa Francisco é sua credibilidade pessoal. Tornielli exemplifica com a declaração do papa sobre os gays, no avião de volta a Roma. Alguns a interpretaram como uma espécie de bandeira do orgulho gay. Outros trataram de lembrar que Francisco apenas insistiu na doutrina tradicional da Igreja, que sempre distinguiu entre o pecado e o pecador, condenando o primeiro e abraçando o segundo.

No entanto, se as palavras do papa Francisco tiveram enorme repercussão e parecem novidade é porque o aspecto da misericórdia ficou em segundo plano no passado, avalia Tornielli.

Para vaticanistas, é nesse cenário que se deve examinar a caminhada do novo papa para atrair de volta os fiéis à Igreja, considerada seu maior desafio. E aí entra a missão da Igreja, que o papa reiterou no Rio, com o primado do simples, pelos pobres, pela generosidade.

O método do papa Francisco será bem jesuíta: ouvirá muito e depois decidirá sozinho, acreditam especialistas. Os focos de resistência devem aflorar logo, diante de projetos esperados para redimensionar a poderosa Secretaria de Estado e evitar duplas funções, como o Pontifício Conselho para Nova Evangelização e a Congregação para a Evangelização dos Povos.

"O próprio papa não tem ainda um projeto na cabeça, mas sua metodologia é de reformas por etapas", diz Soldati. "Mas vai aumentar a colegialidade, a relação entre centro e periferia, entre Roma e as conferências episcopais". O acesso direto ao papa, praticamente impossível com Bento XVI, porque a Secretaria de Estado filtrava tudo, será facilitado.

O papa quer acelerar a reforma do Banco do Vaticano, como é conhecido o Instituto para as Obras de Religião (IOR). Nesta semana, o Vaticano assinou com a Autoridade Financeira da Itália um acordo que facilitará a troca de informações, no contexto de que a entidade financeira da Santa Sé continua sendo alvo de suspeitas.

Criado em 1942 para administrar a fortuna de todas as comunidades católicas do mundo, o Banco do Vaticano tinha € 6,3 bilhões sob gestão e 20.772 clientes em 2011, segundo relatório do Moneyval, órgão do Conselho da Europa. Por causa do banco, o Vaticano foi classificado quase como "Etat voyou" (Estado desonesto) por não ter nenhuma transparência sobre as despesas e as receitas. Os caixas eletrônicos do Vaticano chegaram a ser desativados a pedido do banco central da Itália. Alguns acham que entre os negócios do banco poderia haver dinheiro sujo, por exemplo, vindo da narcotráfico. Por outro lado, ninguém sabe para onde vai esse dinheiro. O Vaticano até agora faz segredo sobre o destino dos fundos.

Agora, Francisco quer ir além e dar transparência também a outras atividades econômicas da Santa Sé. Um documento do Vaticano fala em "evitar mau uso dos recursos econômicos, melhorar a transparência no processo de compras de bens e serviços, melhorar a administração de bens e setor de imóveis, trabalhar com mais prudência na esfera financeira".

Enquanto o papa foca numa Igreja pobre, a realidade é que o Vaticano tem investimentos importantes, inclusive em paraísos fiscais. Mas sua dimensão é quase impossível de ser avaliada diante do forte sigilo da Santa Sé, conforme disse recentemente John Pollard, professor de história da religião na Universidade de Cambridge e autor de Money and the Rise of the Modern Papacy (dinheiro e a ascensão do papado moderno).

A Igreja Católica Romana tem sido controlada centralmente de Roma em virtualmente todas as questões, de fé, moral, nomeações episcopais etc., mas não em questões de finanças. As dioceses, e mesmo as paróquias de forma individual, em alguns países, controlam suas finanças. Como sede da Igreja Católica, o Vaticano tem finanças bastante separadas, com rendimento vindo dos Óbolos de São Pedro, juros e dividendos sobre investimentos, lucros do Banco do Vaticano, que é na verdade um banco de investimento, e também lucro de operações da Cidade do Vaticano, como selos e moedas, suvenires e entradas nos museus.

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