O pontífice do sonho conciliar. Artigo de Raniero La Valle

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22 Março 2013

Um tempo acaba, e outro começa. E vemos que o arco de tempo que já se fecha, apoia-se sobre os pilares do privilégio dos pobres: a Igreja dos pobres invocada por João XXIII, a Igreja pobre e para os pobres sonhada pelo Papa Francisco.

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 20-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ele não fez o "discurso da coroação", como se dizia uma vez do papa que, subindo ao trono, enunciava programa do seu pontificado; e não o fez simplesmente porque não há coroa e não há trono, dos quais já caíram até os últimos enfeites. Não que o sucessor de Pedro – disse Francisco disse na homilia – não receba também um poder; mas é o poder de apascentar, isto é, sobretudo de alimentar e cuidar do rebanho de Deus, até dar a sua vida por ele; e esse poder só pode ser exercido como serviço.

Dessa forma, o Papa Francisco não quis fazer do seu discurso na Praça São Pedro, diante de uma comunidade diocesana cada vez mais pronto para a escuta, diante de fiéis que chegaram de todo o mundo, diante do Patriarca de Constantinopla, dos bispos e dos expoentes de muitas Igrejas e dos poderosos da terra, a peça forte desses primeiros dias do seu pontificado. Ele simplesmente fez a homilia da missa. Explicou o Evangelho, recolhendo idealmente a ordem do seu antecessor, João XXIII, que, no Diário de uma alma, deixou por escrito: "Não é o Evangelho que muda, somos nós que começamos a compreendê-lo melhor. Acima de todas as opiniões e os partidos, que agitam e afligem a sociedade e a humanidade inteira, é o Evangelho que se eleva. O papa o lê e com os bispos o comenta".

Entre as coisas que começamos a compreender melhor há duas coisas muito profundas que Francisco quis nos dizer. A primeira é que devemos cuidar da terra, com todas as suas criaturas. E isso São Francisco também o havia entendido. Mas essa custódia precede o fato de ser crente de qualquer religião; é uma tarefa da humanidade como tal, o que, na cultura de um papa, significa que Deus colocou a obra das suas mãos nas mãos dos homens e das mulheres como tais, e não só daqueles que acreditam nele. O mundo precede a Igreja.

E a segunda coisa é que é precisa não ter medo do amor e da ternura que o expressa. Como é possível que, em primeiro lugar, o novo papa tenha feito essa exortação que parece tão bizarra? Nós temos medo da maldade, do ódio, das divisões, das ameaças, da inimizade da qual tentamos nos defender de todos os modos, mas quem jamais pensou que se poderia ter medo da bondade, do amor?

Ao contrário, é justamente assim. Muitíssimos têm medo dele. Porque o amor é um trabalho, um risco, o amor deve ser ousado. Ele não é um dom inócuo. Ela te questiona, te empenha, te captura, te muda. E são muitos os que não querem ser mudados. Mudar é um esforço. Mudar hábitos talvez seja mais fácil. Mudar de vida ainda é possível. Mas mudar a mente – que, além disso, é uma conversão – é a coisa mais difícil. Assim, essas palavras do Papa Francisco nos tranquilizam, porque significa que ele conhece a alma humana.

Desse modo, está se completando o projeto daquele que poderá ser este pontificado. O sonho de uma Igreja pobre e para os pobres o reconecta ao sonho de uma "Igreja de todos e especialmente Igreja dos pobres", que o Papa João XXIII proclamou na sua mensagem de rádio um mês antes do Concílio. Trata-se de um sonho, não de um projeto que o papa pode executar, porque não basta um papa para fazer a Igreja.

A verdadeira pobreza, não no sentido pauperista ou dos rigorismos petulantes dos zelosos, mas no sentido do despojamento da "mundanidade espiritual", não pode ser dada por um papa sozinho à Igreja; é toda a Igreja, cada um por sua parte, que a deve abraçar.

Certamente, o papado deve fazer a sua parte, porque na reforma da Igreja também é necessária uma autorreforma do papado, que em todo o segundo milênio havia tentado se construir como o supremo poder terreno, da reivindicação de Gregório VII do poder de depor imperadores e bispos, à luta antimodernista de Pio X; e é por causa disso que a Igreja perdeu o seu encontro com a modernidade e se encontrou em uma situação crítica de autismo e de incomunicabilidade com as pessoas do nosso tempo.

Por isso fez-se o Concílio do século XX; desde então passaram-se 50 anos nos quais aquele Concílio sofreu uma espécie de quarentena e conheceu os conflitos, as murmurações, as infidelidades, as frustrações de uma travessia no deserto.

Mas esse tempo que nos separa do Concílio não foi vivido do mesmo modo nas cansadas Igrejas europeias e na Igreja da América Latina, que é a Igreja de Dom Romero, da teologia da libertação, do padre Ellacuría e dos outros 47 jesuítas que caíram sob a violência por causa do seu testemunho à fé, a Igreja dos pobres camponeses que se "conscientizavam" lendo o evangelho debaixo das árvores, sem nem mesmo um padre, a Igreja que às vezes foi fraca na fé e na resistência aos tiranos, mas que produziu aquela extraordinária oração de arrependimento e de denúncia da "violência contra as liberdades, na tortura e nas delações", que o bispo Bergoglio pronunciou no dia 10 de setembro de 2000 a todos os bispos argentinos.

Mas agora um tempo acaba, e outro começa. E eis que vemos que o arco de tempo que já se fecha, apoia-se sobre dois pilares idênticos, que se remetem e se confirmam mutuamente, e são os pilares do privilégio dos pobres: a Igreja dos pobres invocada por João XXIII, a Igreja pobre e para os pobres sonhada pelo Papa Francisco.

Trata-se do sonho de um novo destino para os pobres de toda a terra que não só um papa, não só uma Igreja, não só os grandes presentes naquela missa, mas sim todos os guardiões, não atemorizados pelo amor, são chamadas a realizar.

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