O Trabalho em Mutação e o Assédio Sexual

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Por: Darli Sampaio | 25 Outubro 2013

No último sábado, foi exbido Terra Fria, o terceiro filme do ciclo de debate: O trabalho em Mutação, uma parceria entre o Cepat/CJ-Cias, a Pastoral da Universidade e o curso de Ciências Econômicas da PUC. O evento contou com a assessoria da professora drª Marlene Tamanini da Universidade Federal do Paraná – UFPR e com a presença de 41 participantes.

A reportagem é de Darli Sampaio, pesquisadora do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - Cepat.

O longa metragem de 126 minutos é um drama, dirigido por Niki Caro, baseado em uma história real.  Logo no início, a protagonista, Josey Aimes abandona o marido violento que a espancava constantemente e volta com os dois filhos para a casa dos pais, para trabalhar na mineradora de ferro no interior do Estado de Minnesota, nos Estados Unidos.

Segundo Marlene Tamanini o filme todo transmite uma construção e uma relação binária e sexista. Mas coloca questões importantes de reflexão: como garantir a moralidade e a ética no espaço doméstico, dentro de uma perspectiva binária, que é uma estrutura de violência? E onde está a justiça de conduta?

Segundo a professora, o patriarcado tem estruturas fundamentais, e o sexismo é uma delas. Baseia em uma ideia importante e tradicional sobre a riqueza e a necessidade do trabalho doméstico, desempenhado pelas mulheres.  A cena do mineiro, colocando a roupa suja no cesto de roupa, mostra claramente isso. 

O trabalho doméstico permanece um “nó” para ser resolvido, nas relações humanas. A economia não contabiliza o trabalho do cuidado que é imaterial, nos cálculos do Produto Interno Bruto - PIB de uma nação. Sem falar da questão dos direitos humanos, ou seja, da produção de um sujeito, construído na desigualdade, com menor valor. O papel tradicional de esposas e mães é muito acentuado na sociedade e isso ajuda na produção de  um sexismo hostil, que está presente  nas reações familiares, de amigos, de trabalho, enfim, perpassa toda sociedade. E, produz formas de paternalismos e não uma discussão de direitos humanos.

No filme, há uma visão naturalizante de que o sexo é um exercício de poder. Existe para dominar e ser dominado, tanto que em várias cenas, percebe-se o toque no corpo para intimidar sexualmente as mulheres. E, os elementos, simbolicamente utilizados para agredir as mulheres, também, estavam ligados ao corpo: a urina, o coco, o esperma... O corpo feminino foi vinculado à natureza, pois é nele que acontece a gestação (útero) e isso, selou e determinou o destino da mulher. Na história humana, a natureza foi submetida, controlada, sufocada, explorada. E o masculino foi ligado à cultura, portanto com a dimensão da transcendência.

O trabalho em espaços considerados masculinos

O espaço de trabalho e a organização em uma mina, é um indicativo das muitas variáveis para não facilitar ou contemplar o trabalho da mulher. É perigoso ter uma mulher nesse espaço que não lhe pertence. Além disso, há na mulher uma dimensão entendida como incontrolável, o instinto. Tanto que no filme nota-se a idéia de que se der sexo para a mulher, ela não vai causar problema.  O fato é que especialmente entre os trabalhadores da mineradora, há visões preconceituosas de que onde tem mulher, tem problema e perigo por conta de sua natureza. Resumo: mulher é um perigo! E esse perigo deve ser constantemente controlado.

O verdadeiro perigo, para a professora é exatamente, quando não temos a capacidade de nos relacionar com o diferente, e por conta disso, ou o violentamos ou o invisibilizamos. O perigoso é fazer parecer que o seu trabalho não tem valor. É uma situação de assédio, que pode ser moral, sexual ou psicológico. E, o assédio acontece em todo o lugar. No trabalho, nas famílias, nas instituições, na sociedade, enfim.

O modelo de masculinidade questionado

Marlene acentua, que quando se fala de gênero, não se fala só de mulher, mas fala da relação, portanto, também, em masculinidades.  Qual é o modelo de homem que o filme apresenta? Apresenta uma masculinidade homogênea. Macho, agressivo, que não admite nenhuma fraqueza, doença, sensibilidade. Estudos mostram o perfil do homem agressor, normalmente com baixa escolaridade, habituados ao consumo de bebidas, entre outros elementos.

O modelo de masculinidade hegemônica destaca um conjunto de práticas exercidas tanto por homens como por mulheres que se colocam a serviço da constante legitimação do patriarcalismo. Em outras palavras, trata-se de um modelo que garante, tanto em nível local, como global, a contínua subordinação das mulheres pelos homens.

As mulheres foram assumidas na mina a partir da diferença dos corpos. É o corpo que vai ser treinado para a fábrica. Algumas dessas mulheres são mostradas como velhas ou gordas. E, embora todas elas sejam agredidas, recai sobre as mais novas e bonitas, as formas mais cruéis de agressão. São julgadas com maior severidade, por estarem num espaço masculino, ao invés de estarem sendo “cuidadas” por algum homem, que poderiam conquistar. É a independência que incomoda.

Há também, um confronto de moralidade no filme. E, é comum que utilizem as estruturas morais, como por exemplo, a ocultação da paternidade, a utilização do caso da gravidez no tribunal, a questão do estupro. A honra do pai é evidenciada. Aquele que é um “trabalhador honrado”, cumpridor do seu papel, em contraste, com a filha que causadora de problemas no ambiente da respeitabilidade paterna.

No filme, o valor da sexualidade não comprida, encaixada na estrutura da heteronormatividade, determinante na sociedade e, que perpassa todas as estruturas. Agressões mexem diretamente conosco. Elas passam pelo nosso físico. Mostram uma relação entre uma ação e uma estrutura social, que é violenta.

Heteronormatividade

O binário mudou muito? A Pergunta a professora, que imediatamente responde: Mudou em muitos aspectos, mas em outros não. Há muito para avançar. E ter a coragem de ser o que se é nas relações cotidianas. Especialmente quando há necessidade de marcar uma inserção.  Dentro de um sistema de opressão e violência, é preciso curar as nossas feridas, olhar sem se sentir desiguais. É preciso criar formas para garantir ações que possam proteger a vítima.  A heteronormatividade é um modelo. E é muito difícil sair de um modelo violento, que culpabiliza a vítima, no caso da cena do pai, perguntando se a filha não tinha agido mal, portanto merecido as agressões que sofreu.

Dentro dos modelos que nos formam, esquecemos-nos da subjetivação. Ser lésbica dentro de um sistema heteronormativo é estar fora do sistema. Formas de se relacionar, de subjetivar é micro poder. A estrutura da linguagem depreciativa esta dentro de uma norma. E, enquanto mulheres somos culpadas e culpáveis. Um nó dos diabos! E, tirar a culpa, dentro de um sistema de culpa, não é fácil.

Quanto tempo se leva para denunciar a violência doméstica? As mulheres no filme demoraram muito para decidir ajudar. Questionamento sobre os espaços de poder sofre alguma represaria. Dentro de estrutura de poder e de micropoder, o assédio se produz e reproduz de maneira sutil. O modelo heteronormativo, tem muitos tentáculos e, portanto, é necessário costurar o poder por dentro. Gênero é também uma transformação pessoal. As teorias de gênero mexem nas relações pessoais. Precisamos visibilizar por onde passam esses tentáculos, nas nossas relações afetivas e amorosas.

Para isso é preciso envolver muitas coisas, como por exemplo, as ações na área das políticas públicas. Retomar elementos que acontecem conosco, de forma que eles podem ser problematizados, e viabilizados e que caminhe em torno de uma articulação política.  
A professora Marlene convocou especialmente os alunos e alunas dos diversos cursos presentes no evento, para que possam questionar as instituições. Se o nosso discurso, não mudar, não mudamos nada. Nossas disciplinas são universalistas, elas não entram nos temas da vida. As teorias ajudam a mudar as pessoas, e as instituições, precisam de um engajamento critico coletivo. Há muitos caminhos para fazer o embate. E, sem a mudança discursiva, não mudaremos a violência, sem desnaturalizar conteúdos, não mudaremos as práticas.

Não podemos dar conta, sozinhos. Cada um tem que identificar o que é possível fazer e, conjuntamente. O discurso, sempre é um discurso engajado. É necessário consertar, corrigir, medicalizar as práticas de uma cultura violenta. Somos herdeiros de uma ciência moderna que nasceu enquanto instituição, marcadamente patriarcal.  E foi exatamente o que jogamos para baixo do tapete, foi o que produziu os problemas que temos.  O desafio é de criar condições de o bom agir, dentro de uma estrutura violenta que precisa ser denunciada e transformada.

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