Intelectual combatente. Os anos de formação de Celso Furtado

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21 Novembro 2014

No próximo dia 20, completam-se dez anos da morte do economista brasileiro Celso Furtado. Livros que reúnem alguns de seus escritos inéditos, além de textos fundamentais de sua obra, cartas, reportagens e memórias corroboram sua imagem de intelectual que soube ver além de sua disciplina para interpretar o país.

A reportagem é de Eleonora de Lucena, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-11-2014.

O subdesenvolvimento é o reverso do desenvolvimento. São dois processos de um todo. Na periferia do mundo capitalista, a industrialização privilegiou minorias que se habituaram às formas de vida dos países ricos. Tudo feito sob a supervisão e o controle financeiro de multinacionais.

O resultado foi mais concentração de renda. Não se sai do subdesenvolvimento com o impulso das simples forças do mercado. É preciso ação estatal, planejamento, debate político, ação. Enfrentar oligarquias, atacar interesses econômicos e minar o processo de colonização cultural que engolfa as elites --é disso que se trata na luta para superar o modelo perverso do Brasil.

Ideias assim defendia Celso Furtado, um dos maiores intelectuais da história brasileira. Economista original, ele buscou também na história, na filosofia e na sociologia as bases de sua interpretação do país. Independente, foi professor em renomadas universidades pelo mundo e exerceu funções públicas (foi ministro de Estado por duas vezes, do Planejamento, entre 1962 e 63, e da Cultura, de 1986 a 88), trabalhando para eliminar privilégios e desigualdades.

No dia 20 de novembro se completam dez anos que Furtado morreu, no Rio de Janeiro. Deixou mais de 30 livros, traduzidos em todos os continentes e para idiomas como o farsi, o japonês e o polonês. Sua vasta obra tem ganhado novas edições, e textos inéditos saem agora, revelando suas descobertas da juventude e os seus primeiros passos na vida profissional.

É o que traz "Anos de Formação 1938-1948" [Contraponto/Centro Celso Furtado, 404 págs., R$ 60]. O livro reúne cartas, textos escolares, reportagens, notas sobre sua participação na Segunda Guerra Mundial, impressões de viagens, palestras.

Os escritos mostram o frescor, a curiosidade e a determinação do jovem nascido em Pombal, interior da Paraíba, em 26 de julho de 1920. Filho de advogado e professora, teve na variada biblioteca da família as primeiras leituras. No colégio, no Recife, discutia a Guerra Civil Espanhola com os colegas e recebia elogios pelos seus trabalhos.

"Um engenheiro do sul que estava de visita no ginásio e ouviu o meu trabalho [sobre economia] veio falar comigo e disse-me: Nunca pensei em encontrar tanta cultura em um ginásio do norte'. Fiquei atordoado. Todo mundo queria falar comigo. Todos pensam que eu sou filósofo e eu tenho medo de dizer uma besteira", escreveu o rapaz, 18, à mãe, Maria Alice, em 20 de outubro de 1938.

No início de 1940, Furtado chegou ao Rio para tentar uma vaga em direito. Os parentes cariocas eram pessimistas. Diziam que na faculdade vigorava o pistolão e que por lá nunca tinha passado "ninguém do norte". "Não estou porém abalado. Gosto de coisas difíceis", afirmou à mãe.

Aprovado --e já detestando a pasmaceira das aulas e a fragilidade dos professores--, ele constatou que o dinheiro era curto. Resolveu trabalhar de dia e estudar à noite. Enveredou pelo jornalismo, como conta Rosa Freire d'Aguiar, viúva do economista e organizadora desse sexto volume da coleção Arquivos Celso Furtado.

O livro reproduz textos dessa fase. Em um, bem curto, Furtado trata da história de Manuel Olímpio Meira, o Jacaré, que, em 1941, com uma jangada, saiu da praia de Iracema, no Ceará (à época, praia do Peixe), para pedir direitos trabalhistas a Getúlio Vargas. Costeando mais de 2.000 quilômetros de praia, o jangadeiro e três amigos foram ao Rio de Janeiro.

O cineasta Orson Welles leu a notícia da saga no jornal e resolveu filmar uma reconstituição. Mas, no meio da filmagem, Jacaré se afogou com uma onda na praia da Barra da Tijuca.

Escrevendo para a "Revista da Semana" de 30 de maio de 1942, Furtado diz que o jangadeiro "certamente já não era o mesmo; desde que tivera o manjar frugal substituído por uma mesa requintada de hotel, e se submetera aos choques nervosos das viagens aéreas, é possível que sofresse da insegurança que se apodera de um homem que sente a proximidade de um abismo".

Guerra

A Segunda Guerra Mundial levou Furtado à Itália. "A guerra é essencialmente duas coisas: trabalho e destruição", definiu ele numa carta ao pai, de 24 de abril de 1945. Falando dos bombardeios frequentes, desabafou:

"Às vezes vou dormir ao som do canhonaço da artilharia e isso tem para mim --suponho que para todos-- o mesmo poder emocional que o barulho do mar do Leblon."

Para uma amiga, resumiu sua experiência no front: "Longe de me fazer de herói, direi sempre que essa guerra foi para mim, que tão bem tenho apreciado o que vejo, pouco mais do que uma viagem de turismo".

Após o conflito, Furtado se engajou numa brigada para a construção de uma estrada de ferro nas montanhas da Bósnia. Para a "Revista da Semana", em 1947, relatou: "A picareta, a pá e o carro de mão se alternam incansáveis. O elemento de coação no trabalho é a presença das mulheres. Como poupar-se quando essas jovens francesas se entregam com todo ardor ao trabalho? O short exibe-lhes as pernas sujas, marcadas às vezes de contusões pela inexperiência no trabalho".

O livro conjuga essas memórias juvenis com densos trabalhos sobre a economia do pós-Guerra e as batalhas políticas à cerca da reconstrução da Europa. Por essa época, o jovem economista já fazia um diagnóstico profundo do que estava de fato em jogo.

Avaliando a disputa entre trabalhistas e conservadores na Inglaterra, em 1947, ele condenou a posição da revista "The Economist", que, contrariando o silêncio da direita, defendera abertamente "a bandeira do desemprego como solução para a crise interna atual".

"Os conservadores preferem não falar para não se comprometerem. Por outro lado, procuraram tirar o máximo proveito da ignorância geral. A grande classe média inglesa, que não se sente fundamentalmente ligada a nenhum partido, tem apenas que decidir entre governo e oposição. Se está descontente com o governo atual, tratará de votar com a oposição. Os conservadores contam com esse mecanismo para voltar ao mando", anotou.

Com profundidade, num texto do ano anterior, Furtado analisou a formação da sociedade norte-americana, identificando, na sua origem, a mobilidade social como sua essência. Um fato que, muitas décadas depois, Thomas Piketty iria ressaltar com números. Mas, já prevendo outros conhecidos desdobramentos, alertou: "As forças que conduzem à estratificação social são as mesmas que paralisam o processo democrático".

Tensão

Essa preocupação com a tensão política percorre a trajetória do economista e fica bem expressa em "Obra Autobiográfica" [Companhia das Letras, 634 págs., R$ 59,90; e-book R$ 39,50], que engloba os textos "A Fantasia Organizada", "A Fantasia Desfeita" e "Os Ares do Mundo".

O livro narra os embates políticos do século 20, sempre com afiada interpretação. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, John Kennedy, Che Guevara, Juan Perón --todos esses personagens cruzaram com Celso Furtado e o ouviram falar sobre o desenvolvimento brasileiro.

Já nos anos 1950, ele apontava para "a tendência da intelligentsia a assumir uma atitude arrogante diante do povo, inclinando-se a atribuir-lhe certa culpa pelo atraso do país". Do mesmo modo atacava o "pessimismo e o derrotismo dos intelectuais".

Criador da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), ele relatou que enfrentou no Nordeste "latifundiários e industriais da seca". Ministro de Jango, formulou o Plano Trienal, exercício inovador e audacioso de planejamento, que defendia a reforma agrária e mudanças de fundo no sistema bancário.

O golpe militar o encontrou no Recife, ao lado de Miguel Arraes. Atordoado, Furtado contou que sentiu um enorme vazio naquele momento; tudo perdera o sentido. Em casa, ouviu a cantata "Alexander Nevskii", de Prokofiev. "Deixei-me embalar pelo elã de sua cavalgada, quase chorei na travessia do campo dos mortos e respirei aliviado com o canto da vitória. Sem música a vida seria muito mais difícil", desabafou.

Teve seus direitos políticos cassados no Ato Institucional nº 1 e partiu para estudar o Brasil desde o exterior, na Europa e nos EUA.

A economista Maria da Conceição Tavares assim o definiu no documentário "O Longo Amanhecer, Cinebiografia de Celso Furtado", de José Mariani: "Ele era um intelectual radical, que sabia operar uma aliança sem ceder no essencial, sem vender a alma ao diabo".

Na mesma fita, o também economista João Manuel Cardoso de Mello enfatiza a importância sem par da obra-prima de Furtado: "Formação Econômica do Brasil" (1959), livro básico para entender o país.

Suas ideias ganharam uma versão condensada com a edição de "Essencial Celso Furtado"[Penguim/Companhia das Letras, 528 págs., R$ 45; e-book R$ 29,50]. O volume contém textos clássicos do economista e suas últimas impressões sobre o cenário brasileiro: uma forte condenação à política de juros altos dá o tom.

Para ele, somente a vontade política poderia mudar o quadro de desigualdade do país. "Só haverá verdadeiro desenvolvimento onde existir um projeto social subjacente. É só quando prevalecem as forças que lutam pela efetiva melhoria das condições de vida da população que o crescimento se transforma em desenvolvimento", escreveu em junho de 2004.

Um mês depois, na esclarecedora entrevista ao cineasta Mariani, Furtado dá uma aula sobre concentração de renda e dominação política. E questiona: "Quem manda?"A pergunta segue uma guia para pensar a realidade de hoje. 

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