Papa Francisco, Católicos conservadores e o cisma: é mais fácil falar do que fazer

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07 Novembro 2014

Há tempos inúmeros católicos conservadores vêm enxergando o Papa Francisco com suspeitas graças ao seu empenho em desviar o foco da Igreja para longe das guerras culturais e ir em direção a um enfoque mais acolhedor dando, ao mesmo tempo, uma ênfase maior no trabalho aos pobres.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service November, 05-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas o polêmico encontro ocorrido no mês passado sobre a família no Vaticano, com um empurrão do pontífice e seus aliados para traduzir esta visão inclusiva em políticas concretas sobre as pessoas homossexuais e os católicos divorciados e recasados, por exemplo, parece ter marcado um ponto de inflexão, com alguns na direita erguendo o fantasma do cisma – uma separação formal que é vista como a “opção nuclear” pelos dissidentes.

Ross Douthat, colunista católico conservador do The New York Times, cristalizou o perigo num artigo publicado no dia 25 de outubro – intitulado “The Pope and the Precipice” [O Papa e o Precipípio [1] – ao advertir o papa para não “romper a Igreja” no intuito de promover seus objetivos, acrescentando que, se Francisco continuar afastando os católicos conservadores, poderá haver a um “verdadeiro cisma”.

Douthat levantou a possibilidade de um “cisma completo” no começo deste ano também, e suas advertências foram ecoadas por uma série de líderes católicos e analistas. A ansiedade na direita religiosa também atraiu uma especulação crescente na mídia sobre a possibilidade de os conservadores caírem fora.

Então, será que um cisma, com os ecos dos debates medievais e hereges queimando na fogueira, é mesmo uma possibilidade? E será que uma igreja católica independente seria bem-sucedida no mundo moderno?

Na Igreja de hoje, tudo indica ser muito mais fácil falar sobre um rompimento do que, de fato, fazê-lo. A Igreja Católica é uma instituição hierárquica organizada em torno de um papa que consagra bispos, os quais ordenam sacerdotes que, por sua vez, celebram os sacramentos nas comunidades paroquiais.

Há uma enorme infraestrutura a ser criada, e pela qual se precisaria pagar; não é como um líder evangélico zeloso que pode começar uma nova congregação com uma Bíblia, um rio e, talvez, com uma tenda.

Em seguida, há o fator psicológico:

“Há uma enorme prioridade sobre a unidade” no catolicismo romano, diz Julie Byrne, professora de religião na Hofstra University e autora de “The Other Catholics” [Os outros católicos], livro a sair no próximo ano e que olha para os grupos que se separaram de Roma ao longo dos anos.

“Para fazermos algo diferente, precisamos dar um salto psíquico enorme para onde os católicos independentes estão – dizendo que a unidade visível não é importante e que a unidade invisível já está aí”, disse ela.

Kathleen Sprows Cummings, diretora do Centro Cushwa para Estudos do Catolicismo Americano, da Universidade de Notre Dame (no estado de Indiana), observou que para se alcançar uma massa crítica, “é preciso ter pessoas comuns preocupadas e engajadas nos bancos das igrejas”.

Cummings duvidou que os assuntos sendo debatidos em Roma e entre os intelectuais católicos ressoariam entre a maior parte dos paroquianos. “Há muitas pessoas que discordam da Igreja em uma ampla gama de questões”, falou. “Mas deixá-la, na verdade cortar as relações com a instituição, é coisa diferente”.

No entanto, ao longo dos anos tem havido um surpreendente número de tentativas de organizar uma igreja católica independente, com graus variados de sucesso: Byrne contou nada menos do que 250 organismos católicos independentes nos EUA – com, pelo menos, um bispo e vários padres – e entre 500 mil e 1 milhão de seguidores, números de uma estimativa muito geral.

Tentar ter uma contagem precisa é difícil, afirmou, pois a ampla maioria dos cismáticos começam e terminam como congregações únicas, alugando espaço de uma outra igreja ou se encontrando nas casas. Eles também passam a existir assim como deixam de existir a todo instante, como a fauna na Amazônia. Se estas organizações durarem 50 anos, acrescentou Byrne, então temos algo “completamente surpreendente”.

A maioria das igrejas católicas que romperam tendem a se definir com as características católicas padrão: uma sucessão apostólica – ou seja, tendo um bispo como supervisor –, padres e os sacramentos. Elas também se apegam lealmente à palavra “católico”.

Isso posto, parece haver tantas razões para se separar quanto cismas propriamente, e elas vão desde os grupos mais progressistas que querem mulheres ordenadas para o sacerdócio aos tradicionalistas da Missa Latina que querem uma liturgia no modo antigo. (O ator Mel Gibson, devoto do antigo Rito Latino, construiu a sua própria igreja próximo de sua casa em Malibu, na Califórnia.)

Em 1946, por exemplo, um ex-seminarista em Atlanta chamado George Hyde ficou tão chateado com o fato de a Igreja ter negado a Comunhão a católicos que montou uma igreja católica amiga dos gays.

Muitas vezes, tensões raciais e étnicas são a fonte para cismas. Em 1990, um padre afro-americano em Washington, chamado George Stallings, se separou da Igreja e montou a sua própria instituição – a Congregação Católica Afro-Americana Templo Imani – para ministrar a católicos negros em particular.

Um século antes, imigrantes poloneses começaram a Igreja Católica Nacional Polonesa porque estavam chateados que havia tão poucos sacerdotes poloneses para as suas paróquias.

A Igreja Católica Nacional Polonesa continua a prosperar; possui cerca de 25 mil adeptos em cinco dioceses e suas paróquias estão em alta. Ela se afiliou a uma outra igreja, uma denominação independente mais antiga: os assim chamados “velhos católicos” [da Velha Igreja Católica ou ainda: Igreja Veterocatólica] que romperam com Roma no século XIX devido à questão da infalibilidade papa.

O elemento étnico e o controle local, que, como as disputas litúrgicas, são os carros-chefes das separações na Igreja, continuam sendo forças poderosas, tal como podemos ver no esforço bem-sucedido de uma paróquia polonesa em St. Louis: a Igreja St. Stanislaus Kostka, que se separou da arquidiocese local em 2013 numa briga pelo controle dos ativos que possuíam.

Embora haja tantas histórias quanto cismas, o principal motor das divisões é a autoridade – como na autoridade exercida pelos bispos e papas. Dado que a Igreja Católica centraliza a autoridade no Vaticano e na pessoa do papa, muitos católicos acabam se desgostando, pois querem manter costumes que não estão em harmonia com os desejos do Vaticano.

De fato, Francisco disse querer descentralizar a autoridade e aumentar a colegialidade. Na semana passada, ele se reuniu com líderes da Velha Igreja Católica e disse-lhes que houve “graves pecados e erros humanos” em ambos os lados. O papa acrescentou que a “mudança é inevitável” ao passo que eles se movimentem para restaurar a unidade.

O paradoxo é que mesmo se Francisco tiver sucesso em diminuir o papel central do papa e em curar um cisma como aquele junto aos velhos católicos, os passos que ele teria de dar para realizar estes objetivos poderiam acabar afastando um outro conjunto de católicos.

Notas:

1 - Artigo disponível em inglês aqui: http://www.nytimes.com/2014/10/26/opinion/sunday/ross-douthat-the-pope-and-the-precipice.html?_r=0

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