ISIS e o nível moral do estado de guerra

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08 Outubro 2014

Com todas as atrocidades com as quais o ISIS tem visitado as pessoas que vivem nos territórios invadidos nos últimos meses, a base humanitária para uma intervenção militar no Iraque e na Síria parece clara. O que não está bem claro é se a estratégia ocidental de ataques aéreos tem alguma chance de alcançar os objetivos postos – especialmente tendo em conta o risco de que tal estratégia vai acabar sendo ativamente contraproducente.

A reportagem é de Alex Evans, publicada por Global Dashboard, 29-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Comecemos pelos objetivos apresentados pelo Ocidente, listados pelo presidente americano Barack Obama em 7 de setembro no programa televisivo Meet the Press: a) mitigar o “momentum” do ISIS; b) degradar seus recursos; c) diminuir o território controlado pelo grupo; e d) finalmente derrotá-lo. Quais as chances de os ataques aéreos alcançarem estes objetivos? Eis o que diz o escritor de contrainsurgência William Lind:

Fisicamente, a estratégia do presidente se baseia no poder aéreo. As razões por que o poderio aéreo irá fracassar, como sempre fracassou, são muitas. O inimigo rapidamente encontra formas de se dissimular e se proteger destes ataques. Fica mais difícil num país desértico, mas de forma alguma é impossível. De cima, as forças de cavalaria tais como o ISIS não são fáceis de se distinguir de civis, e seus membros eles irão rapidamente se misturar aos civis viajantes de forma que os ataques aéreos matem mulheres e crianças. Eles perderão todos os equipamentos militares especializados; todavia, suas ações não dependem disso.

Para que uma campanha aérea seja eficaz ela deve agir em cooperação com forças competentes em terra. No Curdistão, tais forças existem. Elas não existem no Iraque, como a desintegração do exército iraquiano demonstrou. As milícias xiitas vão combater, mas em geral são pouco treinadas e trazem uma bagagem moral, como observado a seguir. Poderia haver uma força eficaz em terra trabalhando com o nosso poderio aéreo na Síria, na forma de um exército sírio do presidente Bashar al Assad e de seu mui competente aliado, o Hezbollah, mas o presidente Obama decidiu descartar esta possibilidade por motivos ideológicos. A “oposição moderada síria” sobre a qual ele quer se apoiar consiste de doze homens que vivem fora da Síria em luxuosos hotéis. Trata-se de uma quimera.

Se, de um lado é difícil ver como os ataques aéreos ocidentais irão alcançar os seus objetivos postos, por outro é fácil perceber como tudo isso poderia funcionar a favor do próprio ISIS. É o que Lind escreve em seu artigo (grifo nosso):

Ao atacar o ISIS pelo ar, uma força com poucas defesas aéreas, iremos cair novamente no papel do personagem Golias, infinitamente pisoteando Davi. Isso vai fortalecer o apelo moral do ISIS e servirá como uma ferramenta de recrutamento altamente eficaz para eles (...). Na medida em que os ataques aéreos tiverem aquele efeito normal de unir as pessoas que são bombardeadas, aproximando-as entre si, e ao mesmo tempo em que lhes dá o desejo ardente de vingança contra os inimigos que não podem combater, o poderio do ISIS no nível moral de guerra irá crescer aos trancos e barrancos.

O conceito de “nível” moral do estado de guerra – descrito pelo teórico militar americano John Boyd – é fundamentalmente importante. Assim como escreve Lind noutro artigo em 2003 (grifo nosso):

Aos níveis tradicionais de guerra – tático, operacional e estratégico –, Boyd acrescentou outros três: o físico, o mental e o moral. É válido pensar estas coisas como se formassem uma grade com nove quadrados, com o tático, o operacional e o estratégico em um eixo, e o físico, o mental e o moral no outro.

As nossas forças armadas ficam nos quadrados tático e físico, onde somos amplamente superiores. Mas forças não estatais se fortalecem no estratégico e no moral, onde elas são, muitas vezes, mais fortes, em parte porque representam Davi lutando contra Golias. Na guerra, um nível mais elevado supera um mais baixo, de forma que as nossas vitórias nos níveis táticos e físicos são anuladas pelos sucessos dos nossos inimigos nos níveis estratégico e moral, e então nós perdemos.

Sou grande apoiador do princípio da intervenção humanitária. Quando eu fui assessor do Departamento para o Desenvolvimento Internacional, do governo britânico, fiz o que pude para que o Reino Unido apoiasse o reconhecimento formal da ONU quanto à “responsabilidade de proteger” [conceito de política internacional relacionado à proteção de civis em conflitos armados.].

Mas saber o motivo por que devemos intervir num conflito não é o suficiente. Também precisamos saber o que propomos fazer e como isso irá realizar os resultados almejados. Então, quando alguém me pergunta “ora, o que você faria?”, eu digo: Nada, militarmente, neste momento. Não é que eu não veja uma base humanitária para a intervenção, mas porque tenho dificuldades em perceber as opções militares que tenham uma chance real de criar os efeitos que dizemos querer ver – ao mesmo tempo em que posso facilmente ver como elas podem deixar as coisas muito piores do que já estão, ao ganhar as batalhas físicas da guerra, mas perder no nível moral dela.

Em contrapartida, se os ataques aéreos vão apenas reforçar a legitimidade do ISIS, a sua história e seus atos recentes dão boas razões para se supor que ele é perfeitamente capaz de destruir a sua própria legitimidade. Lembremos, afinal de contas, que o ISIS é, em grande parte, o sucessor da al-Qaeda no Iraque – grupo que o teórico da contrainsurgência David Kilcullen usa como estudo de caso de um grupo que não foi eficaz em manter o controle sobre a sua população. É o que este autor escreveu em seu livro “Out of the Mountains”:

A al-Qaeda no Iraque é um exemplo excelente da fragilidade que pode resultar de um espectro demasiado estreito de ação. Este grupo estabeleceu uma dominação assustadoramente eficaz sobre a população sunita, mas porque esta dominância esteve baseada inteiramente no medo e na coerção, acabou não possuindo resiliência. Assim que a ação [americana] criou um mínimo de segurança às pessoas, mostrando que elas sobreviveriam na luta contra a al-Qaeda, e assim que as forças de coalizão em Anbar demonstraram que poderiam matar ou capturar os membros das células da organização, o mito de invencibilidade da al-Qaeda foi desfeito e o grupo se esvaneceu. E porque o grupo terrorista tinha pouco a oferecer além de medo e intimidação, não teve como combater ou recuperar a perda de controle que daí se sucedeu.

O ISIS parece pronto a cometer erros semelhantes atualmente – vejamos, por exemplo, as reações dos imãs salafistas ultraconservadores contra as ameaças de matar o refém inglês Alan Henning. Mas o Ocidente parece pronto a cometer muitos dos mesmos erros feitos durante a guerra do Iraque também.

Eu gostaria de pensar que as nossas ações em terra estivessem baseadas numa clara teoria da influência, sobretudo no reconhecimento da necessidade de ganhar a legitimidade entre as populações sunitas no Iraque e na Síria. Mas é difícil ter muita confiança nisto, dado o quão pouco os governos ocidentais fizeram seja contra os ataques químicos liderados pelo regime de Assad na Síria – situação onde os ataques aéreos poderiam, de fato, ter sido capazes de conseguir algo –, seja pela venalidade e o sectarismo vicioso do regime xiita em Bagdá.

De forma semelhante, eu gostaria de pensar que as mentes inteligentes do “Home Office”, ministério inglês equivalente ao Ministério do Interior brasileiro, estão trabalhando numa estratégia sofisticada de influência para envolver as crianças britânicas que têm assistido, no YouTube, às atrocidades cometidas contra os irmãos companheiros sunitas e que querem fazer algo sobre a situação. Novamente, porém, é difícil ter esperança aqui, no momento em que David Cameron vem caracterizando estas pessoas como “terroristas psicopatas que estão tentando nos matar”.

Em 2008, David Steven e eu escrevemos um ensaio intitulado “Towards a theory of influence for 21st century foreign policy” [Rumo a uma teoria da influência para a política externa do século XXI], onde citamos uma afirmação perniciosa de Osama bin Laden, de que “parece que nós e a Casa Branca estamos na mesma equipe atirando contra a própria meta dos EUA”. Espera-se que o Ocidente jogue uma partida mais inteligente – e mais sutil – desta vez. 

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