“A própria Ditadura promoveu seus esquemas de corrupção”, afirma cientista político

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Por: Jonas | 21 Agosto 2014

O SISMUC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba), em parceria com o Centro Jesuíta de Cidadania e Ação Social - CEPAT, promove “Os anos da ditadura vistos pelo cinema”. São cinco encontros, com quatro filmes sobre o período militar, incluindo debate. O primeiro encontro foi a exposição ‘Os 50 anos da Ditadura Militar. Revisitando a história’, proferida por Pedro Bodê, que é professor e cientista político na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e presidente da Comissão Estadual da Verdade do Paraná.

Para o cientista político, o Brasil está atrasado em relação às Comissões da Verdade formadas na Argentina, Chile e África do Sul. O último lugar se deve a tentativa de esquecer os malefícios do período. “Esse debate tem que ser aberto, senão é feito pela metade e não é verdadeiro. Ele é mentiroso. No Brasil, nossa conciliação busca o esquecimento. Nos outros países, o objetivo é conciliar lembrando”, compara.

A entrevista é de Manuel Ramires, publicada no sítio do SISMUC, 18-08-2014.

Eis a entrevista.

No Brasil, foram criadas diversas Comissões da Verdade em nível federal, estadual e municipal. Isso colabora para o debate ou pode gerar conflitos como sobre a morte de Juscelino Kubitschek ?

Isso é uma coisa muito bem lembrada. As comissões não são homogêneas e não deveriam mesmo ser. Elas têm diversos representantes de diversas forças políticas, organizações e instituições. Isso produz divergências, mas que devem ser vistas positivamente. Eu tenho a impressão que isso enriquece. O que vai ficar para o debate público? Há setores da Comissão Nacional que não confirmam o assassinato de JK e outros que sim. Portanto, o simples fato de pautar este elemento já é muito importante. Neste aspecto, o conflito não deve ser visto como algo negativo.

Brasil, Chile, Argentina e África estão revendo o período. Quem está mais avançado neste debate?

O que está menos avançado somos nós.  No caso dos outros países, eles conseguiram produzir enorme reflexão interna. Por outro lado, onde existem resquícios maiores é o Brasil. No caso da África do Sul não se fala de um regime de vinte anos, mas de uma vida inteira de colonização branca. Portanto, é diferente os efeitos e porque se consegue mais sucesso. Agora, quanto a Chile e Argentina, na punição, eles estão mais avançados.

O debate sobre a Ditadura não se restringe somente a figura dos generais.  Quer dizer, a sociedade, a imprensa, como a Folha de São Paulo que chama o período de Ditabranda, não apoiaram o regime?

O que tem acontecido agora é que esse debate tem sido pautado.  A gente tem buscado falar em Ditadura Civil Militar. Se O Globo fez uma “mea culpa”, os generais, pelo contrário, afirmam que o veículo fazia parte do processo. Logo, não podemos esperar de associações que participaram do processo fazer apenas uma reparação interna. Por isso, um dos pontos que tem sido muito discutido é a presença civil articulada com a força militar.

Uma das características na Ditadura brasileira é a força. Um resquício é a Polícia Militar?

O nosso sistema de justiça criminal tem na PM o aparelho que chama mais atenção. Como disse uma vez um general: é um miniexército.  Por ter contato direto com a população, ela é a representante mais visível do resquício da Ditadura Militar. Eu defendo a desmilitarização das policias. Isso era pautado pelo PT antes de ser governo.  Agora está voltando com a proposição da PEC 51 (Projeto de Emenda Constitucional). Os policiais de base não querem mais a atual estrutura. Eles acreditam que vivem uma espécie de Ditadura na mão de seus superiores. A saída é desmilitarizar, unificar e ter carreira única para as categorias policiais.

Ainda neste tema, como o senhor avalia as prisões e coerções durante as manifestações e no período pré Copa? Há relação na conduta do Estado contra esses manifestantes com o período da Ditadura?

Completa. Os movimentos de questionamento da condução do país tiveram diversos sujeitos. Tinha desde grupos muito organizados até pessoas que viram pela primeira vez uma grande manifestação desde as Diretas Já (1984). A forma como os governos e suas policias lidaram é um exemplo marcante disso. A desocupação da favela do Pinheirinho (em SP, em 2012), a abordagem a grevistas, a maneira como se lida com o conjunto de forças sociais é exatamente como a Ditadura fez. A diferença é só um pouco mais de cuidado porque mal ou bem o Brasil se diz uma democracia e tem que explicar ao mundo como o país permite que sua polícia haja com violência contra protestos legítimos.

Atualmente, principalmente nas redes sociais, há uma espécie de nostalgia com relação ao regime.  Por que jovens ou filhos daqueles que viveram na Ditadura possuem esse discurso?

Há vários elementos a serem observados. Um deles é a falta de memória. Por isso que é importante discutir esse tema para essas gerações que não vivenciaram. Outro elemento é daqueles que, passado algum tempo, acham que na Ditadura era melhor do que hoje.  A principal crítica é com relação à corrupção. Ora, o governo militar, em 1964, implementou 1,5 mil processos de corrupção. Menos de dez foram cassados. A própria Ditadura promoveu seus esquemas de corrupção como faturamento de obras, o escândalo dos petrodólares (1973). O próprio endividamento é resultado de roubo. Portanto, claro que falta informação mínima para essas pessoas.  Mas o principal é que isso revela nosso caráter autoritário. A pessoa não sabe o que foi, não conhece o que foi, lê uma notícia dos colunistas e dos articuladores de direita e acha que aquilo é a verdade.  Enfim, isso revela nossa característica. O sujeito, por qualquer coisa, diz que era melhor o período. Isso oscila entre alienação, casos psiquiátricos e ódio.

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