Reconciliar, esquecendo. O mantra da tradição autoritária brasileira

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Por: Jonas | 18 Agosto 2014

O golpe civil-militar de 1964 é a expressão de nossa tradição autoritária, da qual escravidão e concentração de renda são dois elementos fundantes. Foi com essa reflexão que o professor Pedro Rodolfo Bodê de Moraes (UFPR) (na foto, ao centro), presidente da Comissão Estadual da Verdade do Paraná, iniciou o debate “Os 50 anos da ditadura militar. Revisitando a história”, que abriu o ciclo “Os anos da ditadura vistos pelo cinema”, organizado pelo CJCIAS/CEPAT, em parceria com o SISMUC (Sindicato dos Servidores Municipais de Curitiba) e o IHU, no sábado, 16 de agosto.

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT.

O professor Pedro Bodê ressaltou a importância do evento, uma vez que essas temáticas sobre os anos da ditadura não podem ficar encarceradas dentro das universidades, muitas vezes restritas ao âmbito dos que pesquisam este período. Foi interessante notar a massiva presença de jovens que fazem parte de um projeto solidário de cursinho pré-vestibular, que atende jovens das camadas populares de Curitiba, no bairro Cajuru.

Ainda na introdução do debate, Bodê deixou claro que os militares foram somente a ponta de lança dos interesses do empresariado brasileiro, por isso o regime deve ser caracterizado como civil e militar. Todo esse período está inserido naquilo que se considera a tradição autoritária brasileira, em que escravidão e concentração fundiária são elementos fundantes. Pode-se dizer que no país sempre houve círculos autoritários, ocasionando golpes contra movimentos populares de expressão, que atentavam contra os interesses da minoria rica.

A tensão entre mudança e manutenção, presente na sociedade brasileira, formou nossas subjetividades, nossa maneira de pensar. Apesar da tradição autoritária no meio conservador ser mais evidente, em toda a sociedade há posturas autoritárias, tanto no pensamento de direita como de esquerda. Por isso, é muito comum se deparar com pessoas que se colocam como progressistas, mas que em sua prática cotidiana agem como pequenos “ditadores”, que se posicionam cerradamente contrários às causas de movimentos sociais que consideram alheios, como o feminista, LGBT, negro, etc. Como enfatizou Bodê, nesse debate cabe uma reflexão pessoal sobre a maneira como cada um concebe as relações sociais. Por isso, os novos movimentos sociais são fundamentais para atingir a espinha dorsal do autoritarismo no país.

Diferente do discurso que se tornou senso comum, não foi a ameaça comunista que levou ao golpe de Estado, mas, sim, o conjunto de forças sociais que representavam o interesse da maioria dos brasileiros por mudanças. É nesse sentido que se deve entender a perseguição aos sindicatos, igrejas, partidos progressistas, movimentos do campo, etc. Infelizmente, até hoje uma parte da população brasileira, principalmente os negros nas periferias, está submetida a uma ditadura policial.

Como presidente da Comissão Estadual da Verdade do Paraná, Pedro Bodê lamentou as resistências de setores conservadores que ridicularizam os trabalhos das comissões da verdade, pois não temem qualquer punição pelos graves crimes contra a humanidade, perpetrados durante os anos da ditadura. Muitas vezes, os membros das comissões são chamados de “revanchistas”, o que demonstra ignorância ou total descaso com o significado do trabalho de investigação que está sendo realizado.

O professor Bodê classificou a chamada anistia como algo vergonhoso na história de nosso país, pois aqueles que cometeram atos gravíssimos contra os civis fizeram, na verdade, uma auto-anistia. Em outros países, militares foram julgados e punidos, mas no Brasil o que prevaleceu foi o mantra “vamos nos reconciliar, mas esquecendo”.

Esse não esclarecimento de nossa história perpetua a violência estatal sobre os civis. Por isso, Pedro Bodê discorda de afirmações acerca do que resta da ditadura no país, pois é mais do que isso, o que se tem são verdadeiros enclaves, ou melhor, tumores, que ainda atuam fortemente em nome das forças conservadoras. Conforme destaca, não é de estranhar que um dos arquivos mais difíceis para se abrir é o da Casa Civil da presidência da República, pois neles estão contidos os laços do passado com o presente político, que revelaria os tempos sombrios da história de algumas figuras públicas atuais.

Nos próximos meses, o ciclo “Os anos da ditadura vistos pelo cinema” contará com a exibição de quatro filmes:

- 13 de setembro: “O dia que durou 21 anos”. Comentarista: Roberto Elias Salomão (Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça);

- 27 de setembro: “Pra frente Brasil”. Comentarista: Clair da Flora Martins (advogada);

- 25 de outubro: “Que bom te ver viva”. Comentarista: Marion Brepohi (UFPR);

- 22 de novembro: “Repare bem”. Comentarista: Osvaldo Heller da Silva (UFPR).

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