A alegria dos discípulos ao verem o Senhor Ressuscitado tem ressonância especial em Pentecostes

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11 Junho 2014

"A observação de João que fala que os discípulos "ficaram contentes" (echar san) ao ver o Senhor, é a mensagem mais adequada e mais necessária para o nosso tempo neste Pentecostes. Não é por acaso que a recente exortação apostólica do Papa Francisco é intitulada Evangelii Gaudium, que começa com uma nota alegre: "A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria", escreve Peter C. Phan, teólogo vietnamita radicado nos Estados Unidos, titular da Cátedra Ignacio Ellacuría de Pensamento Social Católico da Universidade de Georgetown, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 07-06-2014. A tradução é de Cláudia Sbardelotto.

Eis o artigo.

«A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.» (João 20, 19).

Essas são, de acordo com o Evangelho de João, as primeiras palavras que Jesus disse aos seus discípulos depois da sua ressurreição. Maria Madalena gritou para eles em alegria: "Eu vi o Senhor!" e, em seguida, relatou as palavras tranquilizadoras de Jesus: "Estou voltando para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus" (João 20, 17). No entanto, a mensagem de Maria sobre a ressurreição de Jesus não trouxe esperança e alegria. Em vez disso, eles se esconderam em um lugar "com as portas fechadas, por medo dos judeus" (João 20, 19). Foi lá que Jesus apareceu para eles e lhes desejou "paz".

A narrativa de João do primeiro encontro entre Jesus e seus discípulos depois da ressurreição é decepcionantemente fraca e anêmica. Ele apenas observa que Jesus mostrou aos discípulos as suas "mãos e o lado" e que "ficaram contentes" ao vê-lo. Se nós fôssemos os jornalistas a relatar esse reencontro entre os discípulos desanimados e seu Senhor ressuscitado, descreveríamos o choque inicial dos discípulos e a sua descrença, então o reconhecimento gradual e a lembrança, e, finalmente, explosões de lágrimas e gritos exuberantes, dança e saltos barulhentos, uma celebração com abraços e beijos e um içamento triunfante de Jesus no ar como um herói conquistador.

Mas João, que não é jornalista, e sim um teólogo, está preocupado em expressar o significado do evento que chamamos de "Pentecostes". Para ele, o cerne de Pentecostes repousa sobre quatro elementos: o dom da paz de Jesus, o envio dos discípulos, o dom de si mesmo do Espírito e a concessão aos discípulos do poder de perdoar os pecados.

O relato de Lucas do evento de Pentecostes em Atos 2, 1-11 difere de João em vários detalhes. De acordo com sua divisão tripartida da história da salvação, Lucas data a descida do Espírito Santo 50 dias após a ressurreição de Jesus, na festa judaica de Pentecostes, para mostrar como a aliança de Deus com Israel, que foi renovada em Jesus, está sendo cumprida, na última era, na Igreja cheia do Espírito. Em contraste com João, que enfatiza o papel de Cristo ressuscitado como o doador do Espírito, Lucas se concentra no próprio Espírito Santo, simbolizando seu poder por meio de um vento impetuoso e línguas de fogo, e sua missão universal, por meio dos apóstolos que falam em línguas diferentes.

Apesar dessas diferenças na datação do evento e nos modos de manifestação do Espírito, tanto o relato de Lucas como o de João concordam na afirmação fundamental de que existe uma unidade absoluta entre Jesus e o Espírito, que é ao mesmo tempo o Espírito de Deus e o Espírito de Cristo, e que, com a descida do Espírito começa uma nova era na história da relação de Deus com a humanidade. Essa é a era da Igreja, cuja tarefa é a de proclamar a Boa Nova, sob a orientação e o poder do Espírito, para "toda a carne" e "até os confins da terra".

Tanto Lucas quanto João veem o dom de Jesus do Espírito Santo, a promessa do Pai, não simplesmente como um presente a seus seguidores para a sua santificação pessoal, mas para equipá-los para a missão. Assim como o Pai o enviou para a missão no mundo, então agora ele os envia, precisamente para a mesma missão. E assim como o ministério de Jesus foi realizado com o poder do Espírito, assim também o deles será realizado com os dons do Espírito.

Paulo menciona alguns desses carismas em sua carta aos Coríntios: sabedoria, conhecimento, fé, cura, poderes milagrosos, discernimento de espíritos, dom de línguas e de sua interpretação (1Cor 2, 7-10). Paulo insiste que esses diversos dons do Espírito devem ser utilizados, não para benefício pessoal, mas para o "bem comum", para edificar a Igreja, especialmente para a sua unidade, pois há apenas um e mesmo Espírito, um só e mesmo Senhor, um só e mesmo Deus (1 Cor 2, 4-6).

Ao celebrarmos Pentecostes nesse ano, qual é a mensagem das três leituras bíblicas que deve ressoar de uma maneira especial? Claro, as imagens de Lucas do vento forte e das línguas de fogo continuam a despertar nossa imaginação no poder do Espírito Santo que sustenta a missão da igreja. A descrição de Paulo sobre a Igreja como o corpo de Cristo, na qual não há mais distinção entre judeus e gentios, escravos ou livres (1 Cor 2: 12-13), continua a inspirar o nosso trabalho por toda a inclusão dentro da Igreja e em todo o mundo.

Entretanto, eu sugiro a observação de João que fala que os discípulos "ficaram contentes" (echar san) ao ver o Senhor, pois ela dá a mensagem mais adequada e mais necessária para o nosso tempo. Não é por acaso que a recente exortação apostólica do Papa Francisco é intitulada Evangelii Gaudium, que começa com uma nota alegre: "A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria."

Essa alegria é a "paz" (irēnē, shalom) que Jesus dá e que o mundo não pode dar. Jesus compara as tristezas e as dores que os discípulos experimentam com as de uma mulher prestes a dar à luz. Após o nascimento do bebê, ela não se lembra mais de suas mágoas e dores, mas experimenta a "alegria de que uma criança nasceu para o mundo" (João 16, 21).

Nos últimos anos, a Igreja Católica tem experimentado tristeza e mágoa por causa de muitos e vários escândalos. Agora, um novo Pentecostes está acontecendo, uma nova alegria está irrompendo. Mais uma vez, podemos gritar, com Maria Madalena e os discípulos: «Vimos o Senhor!" (João 20, 25).

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