“O padre de hoje tem que estar muito próximo de Deus e das pessoas”, afirma secretário vaticano de seminários

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Por: Jonas | 28 Fevereiro 2014

Trechos da entrevista com dom Jorge Carlos Patrón Wong (mexicano, 58 anos) (foto), nomeado, em fins de setembro de 2013, secretário de seminários da Congregação para o Clero do Vaticano. O prelado deseja sacerdotes “próximos de Deus e das pessoas”, reconhece que os abusos sexuais do clero são “uma chaga aberta no coração da Igreja” e considera uma “graça” a convivência com o Papa na Casa Santa Marta.

 
Fonte: http://goo.gl/gnr497  

A entrevista é de Virginia Bonard, publicada por Religión Digital, 26-02-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você ficou surpreso com a sua nomeação?

Sim, efetivamente. Eu estava trabalhando como bispo da Diocese de Papantla, no México. Era o mês de setembro quando recebi, às 5h00s, uma chamada telefônica do núncio apostólico dom Christopher Pierre. Ele estava me ligando da França. É costume em algumas semanas do mês de setembro passar suas férias com sua família. Atendi ao telefone pensando que era o despertador. Simplesmente, ele me disse: “dom Jorge Carlos, falo da França. Sou o núncio apostólico. Acaba de conversar comigo o secretário de estado, o cardeal Bertone, e me disse que um mexicano será o encarregado desta nova Secretaria para Seminários, que será iniciada na Congregação do Clero. Simples assim: era o desejo do Santo Padre. Eu automaticamente pulei da cama e disse: “quem?”, totalmente surpreso, beliscando-me, pensando que estava sonhando. Dom Christopher repetiu o que havia dito alguns minutos antes, e eu simplesmente respondi o que tenho respondido todas as vezes que a Igreja me pede algo. Desde que me ordenaram sacerdote, o arcebispo dom Castro Ruiz me ensinou algo que aprendi no seminário de Iucatã, no México, durante toda a minha formação: para aquilo que a Igreja nos solicita é necessário dizer sim ao estilo de Maria e, depois, ver como cumprir a vontade de Deus. A atitude sempre deve ser de um sim total. Porque se descobre as razões pelas quais Deus lhe chama para uma missão, quando se é capaz, na total confiança, fé e amor à Igreja, de dizer sim. Isto é o que tenho feito de minha vida nestes 26 anos de sacerdote.

Você teve medo?

A verdade é que aprendi a dizer sim, e depois se vence os temores e os medos porque já se disse o sim aprobatório. Recordo-me que desde seminarista aprendi a fazer isso: dizer sim. Isso aconteceu quando me pediram para ser formador, para que estudasse em Roma, para ser reitor do seminário, bispo coadjutor de Papantla e também quando recebi a nomeação para ser o bispo titular de Papantla... Após dizer sim, surgem as perguntas, contudo, na confiança total de que não se está buscando isso, mas que é Deus quem faz um chamado aos seus planos, por meio dos instrumentos da Igreja que são as pessoas que precisam tomar decisões para que uma missão se realize.

Como foram seus primeiros momentos em Roma?

Concluí minha tarefa no México, no domingo de Cristo Rei, quando encerramos o Ano da Fé na Diocese de Papantla. Até que entrei no avião que me traria a Roma. Fui consciente de que deixava um povo, o meu povo que Deus me havia presentado há quatro anos como bispo. E a primeira pergunta que me veio à mente e ao coração, no avião, foi: quem será o meu povo? Porque nenhum sacerdote, nenhum bispo, é um servidor sem o povo de Deus. E aí, em silêncio no avião, a resposta foi muito simples: seu novo povo são os seminaristas, são os sacerdotes do mundo inteiro. Com essa visão cheguei a Roma.

Foi assim que começou esse dia. Era um mundo totalmente novo, embora houvesse estado em Roma como estudante e minha vida ter transcorrido entre o Colégio mexicano de Roma e a Universidade Gregoriana. Nunca tinha entrado em uma Congregação da Santa Sé, nem na Casa Santa Marta, nem no interior do Vaticano. Como estudante, visitei apenas a Basílica de São Pedro. Nesse dia, comecei a entrar, até fisicamente, em um ambiente totalmente novo. Conheci pessoas novas que trabalham e vivem no Vaticano. Nesse mesmo dia, ao terminar de conhecer o segundo piso dessa Congregação, no Palácio dos Dicastérios, às 13h30min entrei na Casa Santa Marta, no momento da refeição, e ali uma surpresa: enquanto eu entrava, o papa Francisco estava saindo de uma reunião, viu-me, veio a mim e me disse “bem-vindo”. E também me disse uma frase que me deixou mudo: “Estou aqui para o que possa servir-lhe”. Quando me recompus, disse-lhe: “Santo Padre, sou eu que estou aqui para servir-lhe”. E ele riu de minha resposta, um pouco da brincadeira que havia feito. Deu-me uma palmada no ombro e me disse: “Bem-vindo e depois conversamos”.

Sua função é absolutamente nova nessa área da Congregação para o Clero. Como é criar um espaço novo junto ao prefeito Beneamino Stella, conhecendo a forte expectativa que significa esta renovação nos modos de trabalho da Cúria Romana, que vai sendo introduzido, com firmeza, pelo papa Francisco?

A atenção aos seminários ocorreu nas últimas décadas, por meio de um dicastério da Congregação da Educação Católica. E foi em janeiro de 2013 que o papa Bento XVI tomou a decisão de transferir a atenção aos seminários à Congregação do Clero. A novidade é que somos novos: novo o prefeito e novo o primeiro secretário para os seminários.

Durantes esses primeiros meses, temos nos dedicado tanto em apresentar novos projetos ao Papa, como em organizar uma nova equipe e revisar tudo o que foi realizado, para disso retomar o bom, e impulsionar uma renovação dos seminários a partir de uma colaboração mais próxima dos bispos, dos reitores, dos formadores, instâncias nacionais como as organizações nacionais de seminários, como as instancias continentais. Nesse caso, seria o próprio CELAM no Departamento de Vocações e Ministérios.

Ajudou-me muitíssimo a experiência de ter trabalhado na América Latina. Agradeço a Deus quando há anos me pediram, sob a Organização de Seminários da América Latina (OSLAM), para presidir esta organização de serviço, pois nunca imaginei que os planos de Deus eram apenas em curto prazo. Eu aprendi e compartilhei muitas coisas na OSLAM. Nunca imaginei que todo esse trabalho ali e, posteriormente, nos dois anos que estive no Departamento de Vocações e Ministérios do CELAM, iam me ajudar nessa nova tarefa e missão de corte universal.

Vamos ao tema da formação de formadores para os seminários. Nesse ponto, você percebe uma dívida na formação intraeclesial, com perspectivas de mudança? A pluralidade de olhares dentro da Igreja é interpretada como riquezas ou também como incógnitas a ser resolvidas em equipes interdisciplinares, como essa que você está formando?

Atualmente, um dos grandes desafios da formação é a formação de formadores. Em todas as reuniões que temos com bispos, formadores e reitores de seminários aparece a necessidade urgente de que os formadores descubram essa vocação específica de ser formador. Porque as gerações atuais necessitam de um acompanhamento personalizado bem forte. É uma realidade que a maioria dos jovens de hoje não contam com uma presença materna ou paterna nas famílias, como tínhamos no passado. É certo que nossas famílias têm uma formação radicalmente nova, o que acarreta uma série de consequências que é necessário levar em conta. O jovem futuro sacerdote deve ter uma amplíssima e profunda experiência de relação e de encontro cotidiano com Deus, mas de relação e de encontro cotidiano com os demais: com a comunidade, com as pessoas, com as famílias, com as crianças, com os jovens, com os pobres. Simplificaria tudo isso dizendo que o sacerdote de hoje tem que estar muito próximo de Deus e das pessoas.

Às vezes não é muito fácil. Muitas das situações que nós vemos, onde não se evidencia o amor de Deus nas vidas sacerdotais, ocorrem em razão das distâncias que se tem do próprio Jesus do Evangelho, e da distância ao povo de Deus. Há muitas razões para isso: culturais, familiares, situações da própria história da pessoa, que as distraem ou as fazem cair em uma série de tentações que terminam conformando uma pessoa distante de Jesus, que a chama, distanciando-se do povo de Deus, que também a chama para ser parte dele e para lhe servir. Necessitamos de uma experiência importante nos seminários, onde a proximidade com Deus e a vida comunitária, nas múltiplas relações, torne-se realidade tanto no interno como no externo. E digo interno porque a experiência comunitária do seminário é a primeira grande experiência da Igreja ampla que um jovem possui.

Há algumas semanas, meu papai foi chamado à casa do Pai. E sabe quem lhe deu a absolvição? Sabem quem lhe deu a unção dos enfermos? Foi um dos garotos de Mérida, Iucatã, que eu recebi no seminário menor. E me recordo muito bem que esse garoto de cabelo comprido... Muitos dos formadores diziam: “esse tipo de garoto não deve entrar no seminário”. E o diretor espiritual do seminário, o padre Pedro Echeverría e este servidor, dizíamos. “Não, Todo garoto que possua uma inquietude vocacional e que essa inquietude lhe faça mudar profundamente seu estilo de vida, suas perspectivas, transforme-lhe... esse jovem tem um espaço no seminário”. Esse jovem, que alguns não queriam que entrasse no seminário e que hoje é um excelente sacerdote, foi quem deu os últimos auxílios espirituais para meu papai. Eu fiquei feliz da vida de que na missa pública celebrada estivesse ele, jovem, o padre Raúl.

Junto com aquele sacerdote amigo, com quem compartilhei o ser formador, apoiei esse adolescente para que chegasse a ser sacerdote. Estou apresentando aqui um exemplo, muito pessoal, mas poderia se mencionar muitíssimos exemplos de grande satisfação como pai espiritual. Sempre me senti como um pai espiritual de muitíssimos sacerdotes, porque compartilhei muitas coisas com eles.

Fala-se da “crise de vocações” religiosas. Qual é sua avaliação desta afirmação?

Coube a mim, em dois meses, entrar em contato com uma grande quantidade de bispos de toda América e da Europa. Quando se fala de crise vocacional, é preciso ter muito cuidado porque poderíamos estar falando de situações muito locais, que são muito certas. Há países em que é dramática a escassez da vida consagrada e da vida sacerdotal. E, por outro ladoao contrário, há outras partes do mundo onde se vê uma presença muito alentadora de jovens nos seminários. Isto nos faz ver e prever que Deus continua chamando aos jovens e colocando sementes vocacionais em todos os estratos sociais, dos pobres aos ricos. Então, a pergunta é: a Igreja, em sua pastoral vocacional, está chegando a esses ambientes com a força que deveria?

Se nós não chegamos com a novidade de que a vida deveria ser vivida a partir de uma vocação, o mundo faz com que os meninos, os jovens e as famílias assumam a vida como uma profissão. Meramente e com tudo o que isso implica. Há coisas muito básicas que precisamos retomar e incentivar.

O abuso sexual nos seminários de formação sacerdotal é um tema recorrente. Qual é sua opinião a esse respeito? Como aborda o tema?

A realidade é muito dolorosa. É uma chaga aberta no coração da Igreja. O papa Bento XVI teve a coragem, justamente no ano sacerdotal, de pedir que entremos em uma purificação na Igreja e isso nos faz muito bem. Não se pode descuidar neste tema, pois, graças a Deus, temos excelentes sacerdotes, exemplos de santidade e proximidade com as pessoas, que mantêm viva a presença sacerdotal coerente e alegre no meio de nosso povo. No entanto, existe a outra parte, dolorosa, e que não existe somente nos seminários, mas em muitas instituições – inclusive na família – e em circunstâncias onde estão as crianças.

O que é uma realidade é que a vocação sacerdotal tem que se fundamentar em uma sadia humanidade e em uma vida cristã que pouco tem a ver com essas formas de patologias. Por uma parte, temos que ajudar os jovens que atravessaram algumas dessas situações de vida e curá-las, para depois eles poderem oferecer suas próprias vidas para curar a outros. E isso não necessariamente tem que ser feito dentro do seminário. Por isso, falamos muito da formação humana, cristã. O amadurecimento se dá antes do seminário.

A globalização, a cotidianidade da presença dos meios de comunicação, a vida na rede (Internet), já como contexto sociocultural atualíssimo, são levadas em contra no momento de decidir currículos e marcar orientações nos seminários?

É um tema recorrente toda vez que os bispos vêm falar dos seminários. É um tema sobre qual se tem dito algumas coisas e experimentado outras. Uma das tarefas prioritárias que temos dentro das normas básicas da formação é que esse tema (e outros) possa ser incluído de uma maneira explícita. Trabalho que já começamos. Há muitas experiências, em muitos seminários, com muitos tipos de resultados.

Devemos ser humildes nisso, para reconhecer que temos que reunir as experiências para dar respostas mais adequadas a uma realidade que se adiantou em relação a nós, extrapolou-nos. No entanto, existe, há muitas coisas positivas e temos que entrar nelas. A relação com os meios de comunicação é um de nossas pendências e, sobretudo, a relação com o mundo digital, Internet, que entra no coração, nas consciências, na vida, na estrutura interna do seminário. Essa é a grande novidade. Nunca como hoje o de fora esteve tão dentro do seminário por meio das redes sociais e de todo esse mundo da comunicação [como hoje]. Então, acarreta ao seminário uma nova relação com o mundo: porque esse mundo não está fora, mas já está dentro da família, das mentes, do coração, das comunidades.

Falando de cultura do encontro, surge imediatamente o papa Francisco. Qual é sua relação com o Santo Padre, atualmente, e o que você considera que a ele interessa, fundamentalmente, a respeito dos seminários e da vida religiosa?

Vou responder com uma palavra. A graça que alguns de nós estamos experimentando ao viver na mesma casa onde está o Papa, vê-lo praticamente todos os dias no refeitório, na capela, na vida ordinária, em seu trabalho, em que se levanta às 4h30min, das 5h00s às 7h00s faz oração, estuda; vemos-lhe com sua agenda de trabalho, em sua simplicidade e singeleza porque come, toma café, janta o mesmo que nós. Tudo isso é uma grande inspiração. Permite-nos ver que é possível viver na simplicidade do evangelho, a profundidade do evangelho, por um lado.

Segundo, essa inspiração que o Papa nos oferece com sua vida diária, eu acredito que deve ser um modelo de inspiração para que nós, os bispos e sacerdotes, sejamos inspiradores para a nova geração, para os jovens que possuem germes vocacionais. Seguir a escola de Francisco – com o testemunho de vida na convivência cotidiana – faz com que os valores do evangelho passem não por uma teoria, não por um esquema intelectual, mas que sejam transmitidos pela própria vida, pela própria experiência espiritual cotidiana. Seu exemplo cotidiano nos apresenta uma grande luz para aquilo que deve ser as relações entre bispos-sacerdotes-formadores-seminaristas.

Quando tive oportunidade de falar com o papa Francisco sobre os seminários, uma palavra que ele me repetiu muito foi “diálogo”. Que a partir da Congregação do Clero estejamos abertos para dialogar, compartilhar, encontrar-se. Isso muito nos ajudará a discernir o que Deus quer, nos próximos anos, para a formação sacerdotal. A formação sacerdotal, como qualquer processo de educação, é dinâmica. Precisamos sempre estar em diálogo entre nós mesmos e com o Espírito Santo para dar os passos adequados, que em cada geração serão diferentes. Novos desafios.

E, é claro, o desejo do papa Francisco de que todo sacerdote seja um grande discípulo de Cristo, por meio de seu encontro com ele, para ser um grande missionário. Essas palavras, discípulo e missionário, implicam em ser um aprendiz-aluno próximo de Jesus e em estar sempre em contato com as pessoas, com a missão. Essas são palavras recorrentes do Papa, não apenas vinculadas à formação sacerdotal, mas em relação a toda vida cristã.

De uma maneira muito simples, oferece pautas muito claras que iluminam sobre qual direção tomará toda a estrutura complexa – outra palavra que o Papa usou – da formação. Eu diria assim: necessitamos de exemplos-testemunhos inspiradores de vida, hoje, em nossos seminários de formação, e necessitamos desse constante encontro com Cristo e com as pessoas. Ser discípulos e missionários.

Uma curiosidade. Seu sobrenome, Wong, tem origem oriental?

É 100% oriental, de Cantão, China. Meu sangue é 50% oriental porque meus avós maternos possuem sangue chinês. O Patrón é ocidental e mexicano.

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