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21 Fevereiro 2014

Em menos de um ano em seu pontificado, o Papa Francisco aumentou as expectativas dos um bilhão de católicos romanos do mundo de que a mudança está chegando. Ele já transformou o tom do papado, confessando-se um pecador, declarando: "Quem sou eu para julgar?", quando perguntado sobre gays, e ajoelhando-se para lavar os pés de prisioneiros, inclusive muçulmanos.

A reportagem é de Jason Horowitz e Jim Yardley e foi publicada no jornal The New York Times, 13-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Menos aparente, mas igualmente significativo para o futuro da igreja, é como Francisco assumiu uma burocracia do Vaticano tão atormentada por intrigas e inércia que contribuiu, como inúmeros oficiais da Igreja acreditam agora, à renúncia histórica de seu antecessor, o Papa Bento XVI, em fevereiro passado.

O reinado de Francisco pode não vir a afetar a secular doutrina da Igreja, mas já está remodelando a forma como a Igreja é operada e quem a está operando. Francisco está aos poucos substituindo tradicionalistas por moderados, na medida em que a Igreja se prepara para um debate sobre o papel dos bispos distantes nas tomadas de decisão do Vaticano e uma ampla discussão sobre a família que poderia tocar em assuntos delicados como a homossexualidade e o divórcio.

Na basílica de São Pedro, na véspera do Ano Novo, Francisco, trajando vestes douradas, insinuava as principais mudanças que ele já tinha colocado em movimento. "O que aconteceu este ano?", questionou. "O que está acontecendo, e o que vai acontecer?"

Para alguns dos cardeais vestidos de escarlate, sentados em fileiras de poltronas douradas na celebração de Ano Novo, a resposta foi se tornando clara. O cardeal Raymond L. Burke, um dos norte-americanos de mais alto escalão do Vaticano, viu sua influência ser diluída. Outro conservador, o cardeal Mauro Piacenza, foi rebaixado. Entre os bispos, Dom Guido Pozzo foi posto de lado.

Até certo ponto, Francisco, 77 anos, está simplesmente trazendo sua própria equipe e equipando-a para levar a cabo a sua missão declarada de criar uma Igreja mais inclusiva e relevante, que seja mais sensível às necessidades das paróquias locais e dos pobres. Mas ele também está separando os blocos rivais dos italianos com influência arraigada na Cúria Romana, a burocracia que opera a Igreja. Ele está aumentando a transparência financeira do tenebroso banco vaticano e derrubando a escada de carreira que muitos prelados passaram suas vidas subindo.

No domingo, Francisco deixou sua primeira marca no exclusivo Colégio dos Cardeais que irá eleger o seu sucessor, ao nomear prelados que, em muitos casos, vêm de países em desenvolvimento e do hemisfério Sul. Ele claramente instruiu os novos cardeais a não considerar essa nomeação como uma promoção ou a desperdiçar dinheiro com festas comemorativas.

"Foi um ano importante", disse o secretário de Estado Pietro Parolin, segundo no escalão oficial e um dos quatro funcionários do Vaticano que Francisco fará cardeal em fevereiro. Perguntado em uma entrevista na véspera do Ano Novo sobre as mudanças de pessoal, ele respondeu que era natural que o papa argentino preferisse ter "certas pessoas que são capazes de fazer avançar a sua política".

Adulação, incerteza, ansiedade, paranoia

Entrevistas com cardeais, bispos, sacerdotes, autoridades vaticanas, políticos italianos, diplomatas e analistas indicam que o clima dentro do Vaticano varia da adulação à incerteza, à profunda ansiedade e até mesmo com um toque de paranoia. Várias pessoas dizem temer que Francisco vá de dicastério em dicastério procurando cabeças para fazer rolar. Outros sussurram sobre cerca de seis misteriosos jesuítas espiões que agem como os olhos e ouvidos do papa nas dependências do Vaticano. Na maior parte das vezes, autoridades outrora poderosas se sentem fora do circuito.

"É estranho", disse uma autoridade do Vaticano, que, como muitos outras, insistiu no anonimato por medo de represálias da parte de Francisco. "Muitos estão dizendo: por que estamos fazendo isso?" Ele disse que alguns funcionários tinham parado de aparecer para as reuniões. "São como adolescentes frustrados que fecham a porta e colocam seus fones de ouvido."

Continua complicado definir Francisco, um conservador doutrinário, cujo estilo humilde e gestos simbólicos têm emocionado muitos liberais. No Natal, os destituídos encheram uma antiga igreja em Roma para um almoço festivo patrocinado por uma organização leiga católica. O fundador do grupo, Andrea Riccardi, que atuou como representante da Igreja quando atuou como ministro do governo italiano, expressou esperanças de mudança, mas também cautela com as autoridades do Vaticano que ignoram a agenda do papa.

"Você ouve as pessoas falarem sobre isso nos corredores da Igreja", disse Riccardi. "A resistência real é continuar o trabalho como sempre".

Quatro dias antes, Francisco encontrou-se com a Cúria na Sala Clementina, o salão de recepção do século XVI, no Palácio Apostólico, para proferir um dos discursos papais mais importantes do ano. Bento XVI usou o seu último discurso de Natal para denunciar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Francisco usou o seu primeiro discurso para castigar seus próprios colegas da Cúria.

Ele advertiu os homens de vermelho, os de solidéu roxo e os de batinas pretas, dispostos em torno dele, de que a Cúria estava sob o risco de ir à deriva "em direção à mediocridade" e tornar-se "uma alfândega burocrática e pesada". Ele também exortou os prelados a serem "objetores conscientes" das fofocas.

Francisco não é novato na batalha

Foi uma repreensão aguda contra a atmosfera venenosa que tinha perturbado o papado de Bento XVI e pela qual o ex-secretário de Estado, o cardeal Tarcisio Bertone (foto ao lado), foi muitas vezes acusado. E foi um lembrete de que, para Francisco, mesmo sendo um novo papa, não eram novidade para ele as maquinações da Cúria, tendo se envolvido, enquanto na Argentina, com uma poderosa facção conservadora.

"Ele não era uma ingênuo saindo para o mundo", disse Elisabetta Piqué, jornalista argentina que conheceu Francisco por mais de duas décadas e cujo recente livro, Francisco: Vida e Revolução, documentou seus confrontos anteriores com Roma. "Ele teve quase uma guerra com essa seção da Cúria Romana."

Agora, Francisco fala depreciativamente dos "bispos de aeroportos" que estão mais interessados em suas carreiras do que nos rebanhos e avisa que os padres podem se tornar "pequenos monstros" se não forem devidamente formados quando seminaristas.

Ele está desmantelando o círculo de poder do cardeal Bertone, que liderou um grupo de conservadores centrados na cidade de Gênova. Em setembro, Francisco removeu o cardeal Piacenza, um aliado de Bertone, de seu posto na poderosa Congregação para o Clero.

Para alguns, era uma indicação de que o novo papa poderia agir com certa crueldade. Vários funcionários do Vaticano disseram que a maior transgressão do cardeal Piacenza tinha sido enfraquecer seu antecessor, um prelado brasileiro próximo de Francisco, que apareceu com ele na varanda da Basílica de São Pedro após a sua eleição.

Francisco também removeu uma autoridade do governo da Cidade do Vaticano, embora dispondo uma pista de aterrissagem suave. Outros foram menos afortunados.

Como sacerdote, Guido Pozzo liderou uma comissão do Vaticano encarregada de preencher o cisma entre a Igreja e os tradicionalistas críticos do Concílio Vaticano II. Em novembro de 2012, o cardeal Bertone o elevou à categoria de arcebispo, e Bento XVI o nomeou para governar o escritório de caridade da Igreja. Francisco, que é muito menos interessado do que Bento XVI em apelar aos conservadores cismáticos, já mandou o arcebispo Pozzo de volta ao seu antigo posto.

Outro é o cardeal Burke (foto ao lado). Em 2008, Bento XVI instalou seu companheiro tradicionalista como presidente da Signatura Apostólica, a mais alta corte do Vaticano, e no ano seguinte o indicou para a Congregação para os Bispos. O cargo deu ao cardeal Burke uma imensa influência na escolha de novos bispos nos Estados Unidos.

Em dezembro, Francisco substituiu-o por um cardeal mais moderado. "Ele está à procura de lugares para colocar o seu povo", disse um oficial, crítico do papa.

Outro conservador do Vaticano se ofendeu com o desdém de Francisco para com as vestimentas elaboradas. E a especulação de que Francisco poderá converter a casa de férias pontifícia de Castel Gandolfo em um museu ou um centro de reabilitação também levantou alarmes. "Se ele fizer isso", disse um aliado da velha guarda, "os cardeais se rebelarão".

Por enquanto, a resistência não está ganhando força. "O Espírito Santo tem sucedido também no derretimento do gelo e em superar qualquer resistência", disse o secretário de estado Parolin. "Portanto, vai haver resistência. Mas eu não daria muita importância a essas coisas."

Francisco também deu poderes a um grupo de oito cardeais representando os cinco continentes para liderar a reforma da Cúria. Ele contratou consultores seculares e criou uma comissão especial para supervisionar o banco vaticano. E embora ele tenha falado poucas vezes sobre abuso sexual do clero, ele formou outra comissão "para a proteção de menores".

Ele também pode delegar alguns dos poderes tradicionalmente mantidos pelo gabinete do secretário de Estado, criando um novo executor papal, o que iria tirar o poder dos burocratas da Cúria .

"Essa é uma possibilidade muito real", disse o cardeal Donald Wuerl, arcebispo de Washington, que substituiu o cardeal Burke na Congregação para os Bispos.

Evitando a política italiana

Durante anos, os políticos italianos têm cortejado o Vaticano, e vice-versa, já que tanto o Papa João Paulo II quanto Bento XVI encorajaram os prelados da Itália a falarem sobre questões que diziam respeito à Igreja. O desgosto de Francisco pelo envolvimento direto da Igreja na política já ameaçou aquela velha ligação entre a prelazia italiana e os políticos conservadores da Itália.

"Hoje, os bispos italianos estão se mantendo em silêncio", disse Pier Ferdinando Casini, um político proeminente que já se reuniu com cardeais e até papas, mas ainda ainda não se encontrou com Francisco.

O Vaticano continua sendo uma instituição desproporcionalmente italiana, com a Itália ostentando o maior bloco de cardeais, mesmo que hoje responda por apenas 4% dos católicos do mundo. Os funcionários do Vaticano são predominantemente italianos, com uma segurança de emprego para a vida toda, às vezes estendendo-se por gerações.

Regalias não faltam. Em uma recente tarde dentro de uma loja de departamentos do Vaticano, os caçadores de pechinchas compravam vinho livre de impostos, cigarros, bolsas Ferragamo e jaquetas North Face debaixo de relógios que mostravam a hora em Nova York, na Cidade do Vaticano e em Tóquio.

O "problema italiano", como chamavam muitos cardeais não italianos, pairava sobre o conclave que elegeu Francisco em março. Uma influência italiana indevida foi responsabilizada pelas contas suspeitas, pela má gestão do banco vaticano e pela série de boatos que alimentou um escândalo embaraçoso centrado em vazamentos de cartas privadas de Bento XVI.

"O que é necessário é que, neste estágio, a cultura se torne menos italiana", disse um alto funcionário do Vaticano, "em particular para que as pessoas trabalhem por uma maior transparência e meritocracia".

Fora da trilha de carreira

Francisco, cujo pai era imigrante italiano e cuja segunda língua é o italiano, tem importantes aliados italianos, incluindo o secretário de Estado, Parolin, e outros dois prefeitos de dicastérios da Cúria que ele nomeou como cardeais no domingo. Mas analistas dizem que o fato de passar por cima das potências tradicionais italianas, como Veneza, onde está o arcebispo próximo do cardeal Bertone, mostra que ele está tentando quebrar o plano de carreira estabelecido na Igreja italiana.

Francisco também está mexendo com a outrora poderosa Conferência Episcopal Italiana, da qual ele está no topo em seu papel como bispo de Roma. Papas têm tradicionalmente nomeado o presidente da conferência italiana, mas Francisco pode introduzir eleições, como acontece em outras conferências de bispos.

Com Bento XVI, o presidente da conferência, o cardeal Angelo Bagnasco, disputava a influência na política italiana com o cardeal Bertone, a quem Francisco colocou de lado amplamente. Mas o papa também removeu recentemente o cardeal Bagnasco da poderosa Congregação para os Bispos.

Em recente homilia de sábado, Francisco alertou uma plateia que incluía o cardeal Bagnasco sobre o perigo de se tornar um sacerdote "bajulador". Sucumbir às tentações mundanas, acrescentou, feitas para "padres-negociadores, padres-magnatas".

A missa de Ano Novo no Vaticano terminou com uma procissão de padres que escoltavam Francisco para fora da basílica de São Pedro, seguidos por milhares de fiéis. Na igreja esvaziada, os cardeais e bispos se levantavam de seus assentos, apertavam a mão de dignitários e circulavam em torno do túmulo de São Pedro.

O cardeal Piacenza juntava seu guarda-chuva de um banco de oração. O arcebispo Pozzo dirigia-se até a porta. Questionado sobre as mudanças em curso na Cúria, ele respondeu: "Tem sido um ano surpreendente!".

Não muito longe dali, o cardeal Burke abençoou alguns retardatários e se recusou a comentar, sem a permissão de seus "superiores".

Semanas antes, o cardeal Burke parecia pronto para ser a voz mais proeminente da resistência ao reinado de Francisco, falando a uma rede de televisão católica que ele não estava "exatamente certo por que [o papa] acha que estamos falando muito sobre o aborto" e outras questões da guerra cultural. Sobre as mudanças na Cúria, ele lamentou "uma espécie de imprevisibilidade sobre a vida em Roma nestes dias".

Aproximadamente ao mesmo tempo, Francisco deu uma entrevista ao jornal italiano La Stampa. O papa voltou a falar sobre a "ternura" e a abertura da Igreja. Mas ele também acrescentou: "A prudência é uma virtude de governo. A audácia também".

Foi um ponto revelador. No dia 15 de dezembro, o cardeal Burke voltou para a sua paróquia de infância em Stratford, Wisconsin, para celebrar uma missa especial. Vestido com a mitra alta e com o rosa tradicional do terceiro domingo do Advento, ele falou sobre suas raízes agrícolas na lida com produtos laticínios, mas decepcionou alguns dos seus paroquianos, não fazendo menção a Francisco ou aos eventos que estavam acontecendo no Vaticano.

"Eu estava esperando que ele fizesse", disse Marge Pospyhalla, que participou da Missa. "Mas, não, nós não ganhamos isso."

Seu silêncio disse o suficiente. Um dia após a missa, Francisco tirou o cardeal Burke da Congregação para os Bispos.

 

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