As dificuldades dos cardeais Pell, Burke e Sarah: falta de experiência e defeito de doutrina. Artigo de Andrea Grillo

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09 Dezembro 2015

Há nos cardeais Pell, Burke e Sarah não só uma falta de experiência, mas também um defeito de doutrina. Com uma experiência limitada das formas de vida, eles podem se contentar com uma doutrina velha; mas com uma formulação doutrinal velha, "podem ver" apenas uma parte da realidade e negligenciar uma outra.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 06-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois do fim do Sínodo Ordinário, em outubro passado, lemos uma série de discursos, entrevistas e declarações de cardeais nas quais ressoam com força particular uma série de "argumentos" que poderíamos resumir em três pontos:

- O Sínodo confirmou a doutrina "de sempre" sobre o matrimônio;

- Na sequência do Sínodo, não haverá aberturas aos "irregulares" diferentes das previstas pela Familiaris consortio;

- As "portas" não poderão ser abertas, porque não podem existir "portas" nesse campo.

De modos, tempos e tons diferentes, esses são os conteúdos que, sobretudo, três cardeais (Pell, Burke e Sarah) repetiram com insistência e com força, não sem o "apoio" de outros cardeais (por exemplo, Ruini, Ouellet, De Paolis...).

Uma avaliação não apaixonada das suas intervenções mostra, ao lado de um certo medo que parece transbordar das suas palavras, uma dupla grave dificuldade, que compromete o juízo que expressam não só sobre o Sínodo, mas também sobre a relação Igreja-mundo e sobre a herança do Concílio Vaticano II na Igreja de 50 anos depois.

Gostaria de identificar essas "dificuldades" tanto no plano de uma falta de experiência, quanto no plano de um defeito de doutrina. Tento me explicar.

a) Uma falta de experiência

A primeira dificuldade, essencialmente, é de falar sobre o que se conhece apenas "genericamente". Uma das questões que o Sínodo retomou de modo mais eficaz, ao longo de todo o seu percurso de desenvolvimento bienal, foi a necessidade de amadurecer uma perspectiva adequada de relação com o "mundo das famílias", que não pode ser reduzido a estereótipos, ainda mais quando estão em jogo complexas problemáticas de vida, de abandonos, de novos vínculos, de gerações, de educação, de esperança...

Enfrentar esse mundo significa, acima de tudo, "fazer experiência dele" de modo correto. Nas palavras de Pell, Burke e Sarah, aparece com clareza uma radical indisponibilidade a pôr em discussão uma abordagem abstrata, genérica e preconceituosa ao mundo familiar. E esse é o primeiro lado das suas dificuldades.

b) Um defeito de doutrina

A segunda dificuldade, que decorre da primeira, mas que também é uma causa dela, é uma compreensão inadequada da "doutrina" sobre o matrimônio. Se reduzirmos a "doutrina católica sobre o matrimônio" a uma série de "obrigações" ou de "proibições", transformamos o pão da doutrina em "pedras". Foi o sucessor de Pedro que nos lembrou do risco de reduzir tudo a "pedras".

Uma adequada compreensão doutrinal faz uma mediação precisa entre "Palavra de Deus" e "experiência". Nas palavras de Pell, Burke e Sarah, ao contrário, sentimos uma obstinada redução da doutrina à defesa de uma disciplina que, historicamente, não é mais adequada às formas de vida de boa parte da experiência eclesial. Para esses cardeais, a Igreja não tem margem de manobra, já que o "pecado é para sempre", exatamente como e até mais do que o vínculo.

Por trás das suas palavras indignadas, vê-se bem a permanência de uma compreensão do "pecado" e do "vínculo" que não decorre da "palavra de Deus", mas de uma compreensão metafísica e jurídica objetivamente superada. E superada ainda em 1981 pelas palavras de João Paulo II na Familiaris consortio, quando dizia que "os divorciados recasados não devem se considerar separados da Igreja".

Essa foi uma passagem epocal, que requer da Igreja Católica de hoje uma proposta da doutrina do matrimônio capaz de levar em conta essa novidade. Para fazer isso, é preciso sair de uma leitura do "pecado" e do "vínculo" que simplesmente perpetuaria a "excomunhão eclesial" dos irregulares.

Portanto, há em Pell, Burke e Sarah não só uma falta de experiência, mas também um defeito de doutrina. Com uma experiência limitada das formas de vida, eles podem se contentar com uma doutrina velha; mas com uma formulação doutrinal velha, "podem ver" apenas uma parte da realidade e negligenciar uma outra.

As dificuldades de que Pell, Burke e Sarah são vítimas pedem um trabalho corajoso de reflexão aos teólogos. Se Pell, Burke e Sarah tivesse lido, apenas a título de exemplo, os trabalhos de Vesco (que também é seu coirmão bispo), Angelini, Schockenhoff, Petrà, Hünermann e de tantos outros teólogos que escreveram coisas de valor nos últimos dois anos sobre o tema, teriam se dotado de instrumentos de compreensão mais adequados e poderiam fazer hoje uma experiência mais ampla e mais verdadeira da vida das famílias reais, tanto das felizes, quanto das infelizes, tanto das clássicas, quanto das ampliadas. Sem serem forçados a condenar tudo o que não entra nas suas categorias abstratas e estreitas.

Eu acredito que toda a Igreja deve ajudar esses cardeais a superarem as suas dificuldades de experiência e de doutrina.

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