Metáforas e realidade do Sínodo: matrimônio e sociedade aberta. Artigo de Andrea Grillo

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07 Dezembro 2015

A Escritura, precisamente por ser "inspirada", encontra a sua verdade não atrás, mas à sua frente, não no início, mas no fim! Não é essa, afinal, uma das formas mais belas e mais comoventes de "tradição metafórica"? Ainda hoje, sim, ainda hoje essa palavra está em vigor, como texto de autoridade, cujo significado, porém, não está embalsamado em um museu – não importa se é conservador ou progressista – mas é confiado à leitura inspirada das gerações vindouras.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no blog Doppiozero, 01-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em seu artigo Comentário ao Relatório final (disponível aqui, em italiano), Francesca Rigotti [filósofa italiana, professora da Universidade da Suíça Italiana] move uma série de observações ao documento conclusivo do Sínodo dos bispos. E o faz "de fora", como é justa para quem observa uma realidade à qual não pertence e que demonstra, por isso, conhecer muito aproximadamente, quase por ouvir dizer.

Mas, precisamente por esse motivo, que não deveria escapar de uma metaforóloga, as metáforas das quais ela fala são lidas, quase sempre, como se não fossem tais. Tomando as metáforas não como "meios de transporte", mas como "coisas", a autora acaba se enfiando em pequenos e grandes becos sem saída.

De minha parte, expresso também o meu consentimento a algumas das críticas que a autora move ao documento. Mas me parece que devo consentir a partir "de dentro" e "segundo uma metáfora". Tento explicar o que quero dizer com isso.

a) A questão que Rigotti levanta inicialmente – e que conserva como "baixo contínuo" para todo o seu texto – é uma rígida separação entre lógicas do Sínodo católico e lógicas "comuns" ou "laicas". O mundo contemporâneo não é a Igreja, é claro, e a Igreja não tem nenhum poder para determinar, sozinha, o mundo contemporâneo.

Sobre isso, Rigotti tem razão. Mas isso não significa, de fato, que a Igreja Católica, assumindo esse princípio de distinção, não pode dizer, com toda a sua autoridade, uma palavra sobre a família, sobre o matrimônio e sobre a cultura de hoje. Aqui, eu entendo bem como o "preconceito" anticatólico – por assim dizer – se alimenta por experiência histórica. A Igreja Católica, por quase dois séculos, não aceitou a sociedade "aberta".

E isso também pesa nos juízos de Rigotti, inevitavelmente. Mas, também claramente, devemos reconhecer que há um percurso, nada fácil e não linear, com que, há ao menos 50 anos, chegou-se a uma via de mediação com o mundo moderno e de valorização da liberdade, da consciência, do desejo, do corpo...

Ler o documento sinodal de 2015 achatando-o nos cânones de condenação tridentinos ou no Syllabus de Pio IX é uma operação direta demais, muito pouco metafórica, simplista demais. Confirma todos nos seus preconceitos, mas corre o risco de não oferecer nenhum esclarecimento de verdade.

b) Não há dúvida de que a tensão entre o objeto família e a "forma institucional" do Sínodo cria algumas tensões nada pequenas: uma compreensão das dinâmicas familiares por parte de "homens célibes" é efetivamente uma questão séria, à qual, no entanto, só podemos dar uma resposta institucional, modificando as estruturas e os procedimentos, em vista de uma melhor percepção da realidade.

Mas mesmo aqui, a metaforóloga usa a metáfora de modo menor, quase só para jogar na defesa! Assim como Giulietta não é o sol, assim também os "Padres" não seriam Padres? É isso? Só uma fria redução da linguagem à mera "factualidade" seria a nossa salvação?

Não me admira o vigoroso chamado à realidade. Nisso, a autora se move em uma linha de "realismo saudável", que convida a não usar as palavras como "esconderijos". Muito bem. Mas, para "fazer coisas com palavras", devemos confiar em uma regime metafórico que ilustre a beleza das pessoas e dos corações, das escolhas e das vidas, com "ficções" que são mais verdadeiras do que a própria realidade!

É inevitável que uma grande tradição religiosa fale "metaforices". Essa é, em grande parte, a sua salvação. Bem-aventuradas metáforas, que impedem que se objetive totalmente Deus, autoridade, salvação. Prefiro uma Igreja que saiba falar "metaforicamente" da família a uma Igreja que a define como "valor inegociável". Mas, talvez, justamente por isso, não estou tão longe daquilo que Rigotti entende aqui.

c) Missão, crescimento demográfico, invasão de territórios de competência estatal: sobre esses três temas, a autora mostra uma forte resistência a entrar na lógica do texto que julga. Nesse caso, talvez seja um "excesso metafórico" que a condiciona. Não se pode ler "missão" como se fosse sinônimo de "conquista", "crescimento demográfico" como se fosse "automatismo reprodutivo", invasão de território público como se o ambiente ideal da religião fosse somente o quintal privado.

Sobre todos esses pontos, de fato, é preciso uma consideração "técnica" das questões. Usar as metáforas como se fossem "coisas" e as linguagens técnicas como se fossem metáforas é muito arriscado, permite também alguns jogos de palavras, mas fica muito longe da realidade.

d) Por fim, a natureza. Certamente, a tradição eclesiástica católica é muito marcada por esse conceito, que ao longo dos séculos sofreu uma profunda transformação e não pode ser utilizado com muita desenvoltura. Acima de tudo, eu acredito que se deve reconhecer um fato fundamental: com "natureza", por muitos séculos, se indicou um nível "comum" de experiência dos homens. Se hoje ele é usado para dividir, para contrapor, para preservar, para impor, esse conceito é modificado, muitas vezes esvaziado e não raramente totalmente prejudicado.

Mas, dito isso, não compreendo bem qual é a reivindicação fundamental do discurso que Francesca Rigotti propõe sobre a natureza. Especialmente quando contrapõe as evidências "naturais" de um casal homossexual às considerações com que Paulo, na carta aos Efésios, delineia as relações entre marido e mulher em analogia com Cristo e a Igreja. Aqui, ao que parece, deve-se fazer uma certa clareza.

Uma especialista em metaforologia não pode ler um texto de Paulo como se fosse uma receita culinária. Esse texto foi lido, infelizmente, com pouco senso das metáforas, não só por Rigotti, mas também por uma longa tradição eclesial. Que, com grande dificuldade, e apenas com João XXIII, soube elaborar uma hermenêutica do texto à altura da história. O condicionamento com que, na história, Paulo falou para as gerações faz parte da grande tradição eclesial e não pode simplesmente ser ligado a um significado "sem comentários".

O preço caro que Rigotti paga para poder ser considerar alheia à tradição cristã é o de ser forçada a desposar a pior interpretação fundamentalista do texto sagrado, na qual ela se alia, inconscientemente, ao pior tradicionalismo reacionário.

Ela propõe uma interpretação de Paulo que se assemelha à que foi proposta pelos mais fechados e pelos mais tacanhos Padres sinodais, e parece ignorar totalmente a complicada história da interpretação de um trecho fundamental para a tradição sobre o matrimônio.

A Escritura, de fato, precisamente por ser "inspirada", encontra a sua verdade não atrás, mas à sua frente, não no início, mas no fim! Não é essa, afinal, uma das formas mais belas e mais comoventes de "tradição metafórica"? Ainda hoje, sim, ainda hoje essa palavra está em vigor, como texto de autoridade, cujo significado, porém, não está embalsamado em um museu – não importa se é conservador ou progressista – mas é confiado à leitura inspirada das gerações vindouras.

A Escritura, que certamente brota de uma sociedade fechada e centrada, está destinada a (e prefigura) uma sociedade aberta e plural. Quem quer fechá-la em uma sociedade fechada são aqueles que não captam mais o seu sentido metafórico.

Eu não acho que Francesca Rigotti poderia se sentir totalmente alheia a esse modo dinâmico e "em saída" de compreender o texto paulino. Ou talvez eu esteja errado e ela prefere ignorá-lo?

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