O novo cristianismo global. Artigo de Gianfranco Brunelli

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29 Setembro 2015

O discurso do Papa Francisco ao Congresso dos EUA é um compêndio de toda a visão político-pastoral do pontífice. É a visão política de um impolítico; se quiserem, melhor: de um profeta que lê os sinais dos tempos.

A opinião é de Gianfranco Brunelli, diretor da revista católica italiana Il Regno, do Centro Editorial Dehoniano de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 25-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Heterogênese dos fins. O Papa Francisco, o argentino Bergoglio, primeiro papa americano que falou no Capitol Hill, no Congresso estadunidense. Apenas 10 anos atrás, em 2005, por ocasião do funeral de João Paulo II e às vésperas do conclave que elegeu Ratzinger ao pontificado, um presidente norte-americano, George Bush, encontrando-se com os cardeais estadunidenses e revivendo uma forma de ingerência inválida entre as potências europeias até a lição de Bento XV, tinha lhes pedido para não votarem em um candidato latino-americano.

Esse candidato seria, no conclave de 2005, justamente Bergoglio. Bush temia a eleição de um sul-americano. Temia o antiamericanismo social de um papa proveniente das terras da teologia da libertação. Mas Bergoglio não era e não está ligado à teologia da libertação. Ele prefere a argentina teologia do povo, distante das ideologias do século XIX-XX, filha de uma concepção do primado do povo como comunidade orgânica, hoje, progressivamente, modificada para uma teologia do povo de Deus mais conciliar.

Na época, os cardeais estadunidenses preferiram a continuidade doutrinal de Ratzinger. Mas, em 2013, no meio de uma crise de autoridade na Igreja e diante da surpreendente renúncia do papa, talvez em hostilidade com uma candidatura italiana, escolheram Bergoglio. Heterogênese dos fins.

O discurso ao Congresso dos Estados Unidos é o evento central da viagem norte-americana de Francisco. Ele vinha de Cuba, onde obtivera a normalização das relações entre a Igreja e aquilo que resta do regime castrista. Ele iria ao Congresso Mundial das Famílias, na Filadélfia (ocasião da viagem), onde discursaria sobre os dois pilares fundamentais da pastoral familiar: a confirmação também doutrinal do primado da família, ladeada pela pastoral da misericórdia para os casos difíceis.

E é também um discurso importante. Francisco "põe em jogo" a recomposição da divisão da Igreja Católica dos EUA, também em vista da fase conclusiva do Sínodo sobre a família em outubro próximo.

Mas é o discurso ao Congresso que vai permanecer. É um compêndio de toda a visão político-pastoral do Papa Francisco. É a visão política de um impolítico; se quiserem, melhor: de um profeta que lê os sinais dos tempos. Os seus temas estão todos lá: das injustiças ao desespero dos jovens, do dinheiro sanguinário do comércio de armas aos fundamentalismos (religiosos ou não), da liberdade religiosa ao cuidado da casa comum, que implica indissociavelmente um respeito ecológico pela criação ligado à construção de uma sociedade vista em relação aos membros mais fracos, a relação entre política, economia e finanças, depois o respeito à vida e o pedido da abolição da pena de morte e de uma intervenção sobre os refugiados e sobre as guerras em curso.

É um discurso "americano": no apelo ao conceito de liberdade, que ressoa de maneira diferente nas quatro figuras emblemáticas escolhidas como modelos de uma América ideal, que, quando foi fiel a si mesma, assumiu um valor geral para o mundo: Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day, Thomas Merton. Dizendo: a liberdade política, a liberdade dos direitos civis, a liberdade social e econômica, a liberdade espiritual.

Uma vez, ele usou o "nós, americanos", e em certo ponto disse: "Eu falo a partir do coração da democracia". Os Estados Unidos são um interlocutor privilegiado da Santa Sé e dos católicos. Essa viagem vale simbolicamente a primeira viagem do polonês João Paulo II.

Não é uma simples reafirmação dos pontos centrais da doutrina social da Igreja – essa longa fase do magistério da Igreja terminou com João Paulo II e o fim das ideologias –, mas uma visão religiosa global das emergências antropológicas e sociais, a ponto de superar a simples repetição do cânone doutrinal, capaz de dizer novamente o Evangelho a partir das profundezas da história.

Há um primado da realidade e um primado do processo. "Um bom líder político – disse – é aquele que, tendo em mente os interesses de todos, capta o momento com espírito de abertura e senso prático. Um bom líder político opta sempre por iniciar processos mais do que a possuir espaços."

O bom político (e isso também diz respeito às lideranças e às nações) é aquele que sabe abrir e captar os processos, não aquele que ocupa espaços de poder. Um convite evidente aos Estados-membros a continuarem sendo um ponto de referência do mundo livre. Um interlocutor político de um papa pastor que tem uma profunda visão política.

Basta evocar as forçações que ele fez nesses dois anos: o reconhecimento explícito do genocídio armênio, a carta a Putin com a qual abriu um diálogo entre a Rússia e o Ocidente sobre a questão síria, o papel desempenhado nas negociações entre EUA e Cuba, e, por último, a intervenção sobre a presidência da Bielorrússia para que fossem libertados os presos políticos. Heterogênese dos fins.

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