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15 Setembro 2015

Fotos: Ricardo Machado/IHU O terror da guerra, que na Síria ganhou apelo midiático em maior escala depois que a foto de Aylan Kurdi percorreu as páginas de jornais e redes socais, é o rompimento total e inequívoco da dignidade humana. Infelizmente a guerra não é exclusividade do Norte Africano e do Oriente Médio. Na Colômbia, país vizinho ao Brasil, a guerra dura mais de 50 anos e contabiliza mais de 7 milhões de vítimas.

"A maior responsabilidade moral e ética na Colômbia é a paz, sobretudo depois dos 50 anos de guerra entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - FARC, o Exercito colombiano e as forças paramilitares", explica Francisco De Roux, durante a Mesa-redonda – O conflito colombiano. Experiências de justiça de transição e perdão, que ocorreu na noite da terça-feira, 15-09-2015, no Auditório Central da Unisinos, em São Leopoldo.

O evento integra a programação do III Colóquio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e o VI Colóquio da Cátedra Unesco – Unisinos de Direitos Humanos e violência, governo e governança - A justiça, a verdade e a memória na perspectiva das vítimas. A narrativa das testemunhas, estatuto epistêmico, ético e político.

O professor apresenta na manhã desta quarta-feira, 16-10-2015, a palestra Justiça restaurativa na Colômbia, na sala Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, às 10h45min.

Tragédia Humana

Nos últimos 30 anos, foram cometidos 1.997 massacres, dos quais 1.647 foram praticados por forças paramilitares, a mando do governo colombiano, e 350 por parte das guerrilhas; 27 mil sequestros, 13 mil vítimas de minas terrestres, e, além disso, 100 mil casos de "falsos-positivos", quando as pessoas são assassinadas e lhes põem uma roupa de guerrilheiro para "justificar" o ato. "Houve o caso de uma mulher que foi reconhecer o corpo de seu filho, que havia sumido há algumas semanas. Ao chegar no local ela percebeu que ele estava morto com uma roupa de guerrilheiro e tudo o que ela queria saber é por que o rapaz havia sido morto, pois ele era doente mental, não poderia, jamais, fazer parte das FARC", conta Francisco.

Tortura: a morte a conta-gotas

Durante um encontro que tratava das questões relacionadas ao combate armado na Colômbia, um grupo de pessoas se colocou à frente da mesa onde os debatedores estavam, um jovem pegou o microfone e falou. "Rosa, que militava por viver em paz onde morava, foi sequestrada pelos guerrilheiros e, um tempo depois, foi encontrada. Logo em seguida foi sequestrada novamente, mas desta vez pelos paramilitares. Nesta segunda vez ela também foi encontrada, mas com os braços amputados, as pernas amputadas e decapitada. Rosa, era minha mãe", relembra Francisco ao parafrasear a história contada pelo filho órfão da campesina assassinada.

Outra história chocante é a de uma mulher que foi capturada pelos paramiliares a pretexto de ser guerrilheira. "Depois de horas e horas de tortura, esta mulher pediu para ir ao banheiro, pois sentia vontade de urinar. Chegando lá, percebeu o sangue escorrer por entre as pernas e o feto desprender-se do corpo. O torturador que a acompanhava tinha um cachorro. Ela rasgou o vestido da mulher e o cachorro comeu o feto", descreve o conferencista. "Isso é a guerra. A guerra é romper com a dignidade humana e com a vida", sentencia o palestrante.

 Dignidade Humana

Para Francisco de Roux, todos os seres têm igual dignidade. Foi a partir disso, em 1948, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi reconhecida, que a dignidade passa a ser uma questão central na garantia dos seres humanos. "A dignidade humana não se deve a ninguém. Não se deve à presidente, não se deve à Igreja, não se deve à universidade, não se deve ao exército. Temos dignidade simplesmente porque somos seres humanos. A dignidade não pode crescer. Uma criança tem a mesma dignidade que um professor doutor da Unisinos. O Papa não tem mais dignidade, o que ele tem é um serviço distinto, mas não mais dignidade que outras pessoas", reflete.

Magadalena Medio

O Rio Magdalena corta a Colômbia de Norte a sudoeste. Na região amazônica do estuário, fica localizado o Magdalena Medio, uma região marcada por muitos conflitos. "Este território, que fica ao Norte da Colômbia, tem mais ou menos a dimensão da Bélgica, cerca de 30 mil quilômetros quadrados. Lá eu conhecia 27 pessoas que foram assassinadas por guerrilheiros e paramilitares. Foram essas pessoas que me ensinaram o que é dignidade", recorda. "Lembro de uma mulher que enfrentou os paramilitares, que haviam ido a sua casa para assassiná-la e sua filha de 12 anos a abraçou tentando defendê-la. Em vão. As duas foram assassinadas a golpes de taco de golfe", lamenta Francisco.

Justiça Restaurativa

A justiça restaurativa tem sido a maneira encontrada para se buscar um caminho de retomada da paz na Colômbia. Os dilemas nesse complexo processo estão relacionados com as maneiras pelas quais pode ser possível a construção de uma justiça comprometida com a paz, mas sem se deixar levar pela impunidade. "É preciso construir uma justiça para todos, que inclua não somente os guerrilheiros, mas o militares, os paramilitares e os empresários que financiaram a guerra", propõe.

Ao encerrar sua fala, Francisco De Roux chamou atenção para o fato de que não há justiça sem perdão. "Além da justiça restaurativa há o perdão. É impossível de construir a paz sem perdão. O maior problema da paz na Colômbia é espiritual, ou seja, que aceitemos os seres humanos e respeitemos sua dignidade", pondera. "As últimas palavras de Jesus na cruz, em um momento importante, em que ele poderia ter falado em nome de todas as vítimas do mundo para que jamais tais injustiças se repetissem, a única coisa que disse foi: Senhor perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem", encerrou.

Quem é Francisco de Roux

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prof. Dr. Francisco De Roux – Colômbia é fundador do Programa de Desenvolvimento e Paz de Magdalena Medio.

Graduou-se em Filosofia e Letras na Universidad Javeriana e é mestre em Economia pela Universidad de Los Andes e também pela London School of Economics – LSE (Inglaterra).

É doutor em Economia pela Université Paris-Sorbonne (França). É jurado do Prêmio Nacional da Paz (Colômbia), organizado pela Fundación Friedrich Ebert.

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