“É um golpe moral”. Entrevista com Manfredo Koessl

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Por: André | 07 Julho 2015

Manfredo Koessl deixou o país com a vívida lembrança de Domingo Cavallo indicando aos cientistas argentinos para que fossem lavar pratos. Até fevereiro de 2004 era professor de Direito nas Universidades de Córdoba, Villa María e Blaise Pascal. Após uma escala na Universidade de Antioquia, Medellín, o advogado argentino radicou-se na Alemanha e começou a militar no Partido Verde – opositor da União Democrática Cristã (CDU), de Angela Merkel –, onde participa da equipe de Relações Internacionais.

Em conversa com o Página/12, Koessl analisa de Weimar a situação da Grécia, identifica a estratégia de Angela Merkel nas negociações entre Atenas e os credores, diz que a solução não passa pela saída da Grécia do euro e assegura que criticar a Troika pela situação do país grego é esconder a responsabilidade dos países centrais da União Europeia.

A entrevista é de Adrián Pérez e publicada por Página/12, 06-07-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que pode acontecer na Eurozona e na Grécia agora que venceu o “Não” no referendo?

Na Alemanha assinalam que, caso saísse do euro, haveria uma crise muito forte na Grécia. Para a União Europeia será um golpe, mais que econômico, moral. Não tem a ver apenas com o fato de que Tsipras volte para a sua casa: é um golpe ao euro, em sua capacidade de competir com o dólar. Cairão muitos créditos e os países fiadores terão que pagá-los. Oitenta bilhões não vão quebrar o Estado alemão. Se os gregos dizem que não, seguirão negociando. Nem a Grécia pode sair, nem os países do euro podem permitir que abandone a União Europeia. Suponhamos que os gregos inventem um dracma: não terão capacidade de crédito. A Grécia não tem um tecido industrial que permita pensar em uma forte desvalorização que favoreça as exportações.

Como avalia o papel da Troika na crise grega?

A Troika não apareceu por sua conta. Os países centrais da Europa se esconderam atrás da Troika. A imprensa alemã começou a dar-se conta nestes dias de que o Fundo Monetário Internacional não pega uma. Bater no Fundo ou nas outras instituições pelo que está acontecendo com a Grécia é esconder a responsabilidade dos presidentes europeus.

De quem é a responsabilidade, então?

Fundamentalmente, da classe dirigente europeia. De Angela Merkel, David Cameron, François Hollande e de seus antecessores. Primeiro, discutamos quem e por que colocou em cena a Troika; culpar os organismos de crédito é a saída fácil, mas o problema é mais estrutural.

Qual é a posição dos democrata-cristãos e socialdemocratas no Parlamento sobre as negociações entre Atenas e a Troika?

Além de não estar de acordo ideologicamente com o Tsipras, a coalizão governante fica nervosa com suas idas e vindas, diz que é impossível falar com ele e que nunca entrega um plano consistente que permita avançar nas negociações. Dizem que cada vez que o ministro grego (Yanis Varoufakis) apresenta um relatório, Atenas é muito vaga em suas propostas.

Qual é a proposta dos deputados verdes?

Defendemos que a Grécia não está em condições de economizar e pagar dívidas ao mesmo tempo. Propomos um refinanciamento de sua dívida por cinco anos, mas que não se lhe dê um euro; que administrem e tratem de recuperar sua economia com o que têm e levem adiante as reformas estruturais que, em algum momento, têm que fazer. O problema básico, para nós verdes, é que o que está em jogo é a Europa, não o euro. Se a Grécia sair do euro, o problema continuará persistindo.

Como definiria a política de Merkel em relação à crise?

Sua estratégia foi, como dissemos na Argentina, “hacer la plancha” – ficar parada, e se o problema não se resolver por si mesmo, ver o que se pode fazer. Pelo que dizem os analistas alemães, no discurso de Merkel se vê sua intenção de não deixar que a Grécia saia do euro. Nós acreditamos que está indo contra todas as políticas de seu próprio partido de brigar por uma Europa mais forte e mais unida.

Essa Europa se constrói tirando do caminho países como a Grécia?

É preciso dar mais poder às instituições europeias, ao Parlamento Europeu. Os alemães sentiram muito ter que abandonar o marco. Há 12 anos que estamos com o euro e uma crise após a outra dilui a ideia paneuropeia. E se propõe que a Grécia, se o plano não funcionar, deixe o euro, como se isso fosse a solução. Nesse contexto, a Alemanha é muito fraca e muito forte ao mesmo tempo.

Por que é muito fraca e muito forte?

É muito forte para ser um jogador a mais, mas é muito fraca para impor sua política na União Europeia. A Alemanha joga um papel importante na economia da União Europeia, mas não é um ator dominante. É muito fraca para arrumar as coisas sozinha diante de uma série de crises e problemas em nível mundial e europeu. Não tem o mesmo peso que os Estados Unidos na ALCA ou o Brasil no Mercosul. A Europa é uma grande família onde sua mamãe Alemanha diz uma coisa, mas o papai França e o tio Inglaterra dizem outra; mamãe não pode se impor. Não é que não tenha responsabilidade, mas a Alemanha não decide.

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