A Síria em crise. Uma descrição de dois membros do Serviço Jesuíta aos Refugiados - SJR

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10 Junho 2015

Os padres jesuítas Peter Balleis e Michael Zammit estiveram em Washington em abril visitando organizações não governamentais e escritórios do governo para informar os legisladores sobre a crise humanitária na Síria. Balleis é o diretor internacional do Serviço Jesuíta aos Refugiados – SJR, e Zammit trabalha com refugiados e pessoas deslocadas na Síria. Eles também estiveram visitando o SJR/EUA, cuja sede fica em Washington. A entrevista foi editada por motivos de tamanho e clareza.

A entrevista é de Thomas Reese, publicada pelo National Catholic Reporter, 04-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

O que é o Serviço Jesuíta aos Refugiados? O que ele faz?

O Serviço Jesuíta aos RefugiadosSJR é uma organização com aproximadamente 35 anos. Hoje, estamos trabalhando em 46 países e, no ano passado, alcançamos cerca de 760 mil pessoas.

O SJR se move de acordo com a crise no mundo. Há 35 anos, durante a Guerra Fria, o trabalho centrava-se na Ásia-Pacífico, ajudando refugiados do Camboja e do Vietnã.

Em meados da década de 1990, quando a África explodia, nós continuamos na Ásia-Pacífico e em outros lugares, como San Salvador, mas o foco principal acabou ficando sobre a África com a crise em Ruanda, com a crise dos Grandes Lagos, no Sudão, e assim por diante. Mais recentemente, os conflitos na África se dão mais na Zona Sahel. Trabalhamos na República Centro-Africana, no Chade, e iniciamos um trabalho nos Camarões. Iremos fazer um trabalho junto aos refugiados vítimas do Boko Haram.

Hoje, a zona de conflito número 1 é a que vai de Gaza a Cabul. O foco principal – 40% do nosso trabalho – está no Oriente Médio. Isso dizer: o Líbano, a Jordânia, a Síria, a Turquia, o norte do Iraque e o Afeganistão. Esta obra se iniciou em 2008, mas ninguém antecipava a crise que estamos tendo no momento.

Qual a situação para os cristãos na Síria?

Na Síria, os cristãos têm tido uma posição privilegiada com o governo de Bashar al-Assad porque há a ideia de que as minorias devem se manter juntas contra os demais, e esta é uma postura que o governo está apoiando bastante.

Agora, a situação não era a das melhores – existiam restrições, mas não havia nenhuma restrição em se reunir para a prática religiosa. O bispo é um membro respeitado na sociedade síria.

No começo do conflito, existia uma pressão imensa por parte do governo em armar os cristãos, e felizmente estes se recusaram. Alguns deles, em regiões específicas, aceitaram se defender. Nós não achamos que a luta seja necessária. Mas agora, se o grupo Estado IslâmicoIE vier bater à nossa porta, a maioria dos jovens cristãos pegaria em armas para se defender.

Nas regiões controladas pelo EI, ao norte do país, os cristãos precisaram abandonar suas casas.

Eles tinham basicamente três escolhas: a primeira, se tornar muçulmano. A segunda, continuar a ser cristão, mas viver como um cidadão de segunda classe. Estes poderão não sofrer nenhum mal, mas terão acesso somente a certos empregos, precisarão pagar imposto ao IE (o “Djizya”), e não terão a permissão de possuir mais do que uma certa quantia de bens.

E a terceira escolha é debandar – e muitos assim o fizeram. Estes não tiveram a permissão de levar coisa alguma consigo.

A maioria dos cristãos se sentem mais ou menos bem na parte da Síria controlada pelo governo; eles não se sentem nada bem nas áreas controladas pelo Estado Islâmico.

Na área sob o Exército Livre da Síria, tudo depende de qual facção estiver no comando.

Há certa segurança na parte do país controlada pelo governo que nós não encontramos no resto do país. Nós estamos somente trabalhando na região controlada pelo governo.

O que o SJR faz na Síria?

Somos conhecidos pelas atividades educativas e psicossociais, mas na Síria nos envolvemos bastante com o trabalho assistencial, emergencial. Na Síria, estamos também envolvidos na distribuição de alimentos. Isso inclui alimentos cozidos e não cozidos.

Temos duas cozinhas alimentares: uma em Aleppo, que serve cerca de 9 mil refeições quentes diariamente, e outra em Sahnaya, com cerca de 6 mil refeições quentes por dia. Nos tempos difíceis, a cozinha alimentar de Aleppo servia 20 mil pratos por dia. As pessoas não vêm ao local onde cozinhamos os alimentos. Nós preparamos os alimentos e passamos a parceiros, que então cuidam da distribuição.

Nós também temos distribuído cestas básicas a famílias que podem cozinhar por si mesmas. Uma cesta de alimentos destas deveria alimentar uma família de seis durante um mês. Digo “deveria” porque houve um corte nos orçamentos.

Estamos também distribuindo colchões, cobertores, roupas e outros itens. Em Aleppo, tivemos de parar o nosso programa educativo por motivos de segurança.

Em Aleppo, temos ainda uma clínica. Muitos dos médicos deixaram a Síria. Alguns “teimosos” permaneceram. Muitos dos hospitais foram bombardeados por ambos os lados do conflito. Assim, em Aleppo temos só dois hospitais funcionando e uns poucos médicos.

Nós recebemos uma equipe de quatro jovens médicos recém-saídos da faculdade de medicina, que são pessoas maravilhosas, e estamos oferecendo serviços na parte da região de Aleppo.

Eles atendem cerca de 150 pessoas por dia. Os médicos os examinam, decidem quais exames estas pessoas precisam, e nós pagamos por eles. Elas voltam para o tratamento e para pegar o remédio, que é gratuito.

O que o senhor quer dizer por trabalho psicossocial?

Antes de tudo, o elemento principal são as visitas às famílias, como com os refugiados iraquianos do norte, em Erbil. Temos de encontrá-los onde estão e descobrir quais são as suas necessidades.

O trabalho psicossocial é também uma atividade para as mulheres, algumas das quais foram violentadas. Parte da cura é ajudar as pessoas com trauma a se tornarem capazes de contar suas histórias em um ambiente de apoio. Nós realizamos atividades normais de modo a não estigmatizá-las. São programas de treinamento, programas de alfabetização. Além de aprender habilidades práticas, estes momentos têm esse aspecto de cura, de aproximar as pessoas novamente.

Como o senhor se dá com os muçulmanos?

Temos cerca de 500 funcionários na Síria, metade muçulmanos, metade cristãos, e eles trabalham muito bem em conjunto. Isso não é problema, de forma alguma. As pessoas a que estamos servindo são principalmente muçulmanos: 82% são muçulmanos.

Nós trabalhamos estreitamente com o Crescente Vermelho Árabe Sírio, em Aleppo, e estamos muito satisfeitos com a cooperação que temos com eles.

Temos um forte trabalho nas bases, junto a pequenas organizações. Às vezes, são simplesmente grupos de moradores que se unem para tentar lidar com a situação. Temos um programa social que vai de Damasco até as localidades litorâneas.

Como eu disse, em Sahnaya temos uma cozinha, servimos 6 mil refeições quentes por dia. Estamos trabalhando com duas organizações para a distribuição de alimentos. Uma delas é uma organização de leigos muçulmanos. São jovens que doam o seu tempo sem motivação religiosa nenhuma. Eles são sunitas que querem ajudar as pessoas e, então, distribuem os alimentos pela região. O outro é um grupo de Druse. Assim, trabalhamos com muitos grupos.

Qual a situação em Aleppo?

A situação em Aleppo está ficando cada vez mais preocupante. O IE e outros grupos radicais estão se aproximando, por isso há um pânico generalizado com as pessoas querendo sair da cidade.

Há uma escola cristã perto da nossa sede em Aleppo da qual um terço das crianças já abandonaram. Temos 250 funcionários em Aleppo; 40 já pediram para sair ou solicitaram uma licença de ausência. Hoje é quase impossível comprar uma mala em Aleppo. Os ônibus estão totalmente reservados. Há realmente um pânico entre o povo.

O que as pessoas precisam ouvir é a comunidade internacional dizendo: “Aleppo é uma cidade em que existem 1,5 milhão de pessoas. Ela não irá se deixar abater”. Se as pessoas ouvirem coisas desse tipo, elas não vão abandonar suas casas, não terão medo. Porém, elas não estão ouvindo isso, então estão começando a pensar se deveriam se mudar para uma outra região.

Se o EI realmente chegar até nós (e isso é uma possibilidade), teremos um grande desastre humanitário – 1,5 milhão de pessoas na rua, porque não serão apenas 80 mil os que deixarão suas residências. Os muçulmanos que estão na parte ocidental da cidade são considerados traidores pelos opositores de Assad. “Por que não estão lutando? Por que não estão lutando contra o regime?”

Muitos deles deixaram a Aleppo oriental para ir em busca de refúgio na Aleppo ocidental. Para os oponentes de Assad, isso significa: “Vocês não estão felizes com a gente”. Então, realmente podemos ter um monte de pessoas que se deslocando desta região.

Quem controla Aleppo hoje?

Aleppo é uma cidade dividida. Temos Aleppo ocidental, que é controlada pelo governo, onde há cerca de 1,5 milhão de pessoas. Temos Aleppo oriental, onde estamos vendo 200 mil pessoas debandando. Essa parte da cidade é controlada por uma mistura de al-Nusra, do Exército Livre da Síria, e outros grupos islâmicos.

A parte oriental ficou muito prejudicada; é a parte que recebeu as bombas de barris. A parte ocidental não sofreu tanto.

Mas, em abril, as regiões cristãs, que não haviam sido fortemente bombardeadas, receberam um forte bombardeio das forças da oposição. Os primos de dois jesuítas tiveram de deixar suas casas, porque elas ficaram arruinadas. Há muitos mortos. A catedral católica ficou fortemente danificada também. Então, estas coisas levam a uma sensação de pânico.

Existe algum apoio local dos próprios sírios ao IE?

Temos aqui dois elementos. Temos os fundamentalistas, que são atraídos pela ideia do califado. Mas a maioria dos sírios não quer isso. A maioria dos sírios acredita que cristãos e muçulmanos podem trabalhar e viver juntos. Por exemplo, na nossa associação somos metade muçulmanos, metade cristãos, e nós não somos os únicos. Há muitas grupos que fazem isso.

Acho que estamos dividindo demais os cristãos e muçulmanos. Temos uma história de vida juntos, temos uma história de trabalho em conjunto, e nós podemos dar continuidade a isso neste momento.

Está claro que há comunidades que têm o controle e outras que estão sofrendo, que estão sem liberdade. O sentimento de frustração aumentou entre maioria dos sírios.

Estas questões têm de ser resolvidas, e eu acho que elas podem ter uma resolução. Mas não vão acabar tão cedo quando tantas pessoas estão chegando de fora e interferindo na situação. Os combatentes do IE são, principalmente, não sírios. Temos pessoas do Afeganistão, do Paquistão; encontramos entre eles cerca de 3 mil europeus.

Essas pessoas podem controlar mais de metade do país, e eles não são o que as pessoas querem. Os muçulmanos sírios podem se voltar contra o IE. Temos os relatos de pessoas que estão muito infelizes por não mais poder ouvir música, por ter que mudar os seus modos de vestir. Mas isso é o suficiente para derrubar o IE? Não ainda.

Por que o senhor está visitando Washington e Nova York?

O nosso lema tem três componentes: acompanhar, servir e defender.

O componente da defesa é parte essencial da nossa missão. Significa visitar as pessoas, conversar com elas, visitar delegações nas Nações Unidas, tentar mostrar-lhes qual é a situação na base, onde podemos ir e como é importante ser capaz de obter, acima de tudo, um cessar-fogo.

Em seguida, dizemos às autoridades que há a necessidade de incluir todas as partes nas discussões, sejam elas quais forem, tendo o cuidado de respeitar a existência das minorias. Se não conseguimos garantir a existência de uma comunidade minoritária, os seus membros vão enfrentar o fim amargo. A sua leitura que fazem, hoje, é que, se perderem, estas minorias serão erradicadas. Com certeza, temos de abordar este problema.

O que o senhor gostaria de ver por parte da comunidade internacional?

Os países que são os principais atores na região precisam conter o conflito.

Nós encorajamos as negociações com todos. Não há ninguém que seja absolutamente mal e ninguém que seja absolutamente bom. Hoje, achamos que este é um bom rapaz; amanhã, ele atira nos outros e se torna um cara mau.

Então, precisamos conversar. Precisamos falar com o diabo. Temos de falar, a fim de deter a guerra.

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