“Assim o Vaticano assumiu o desafio da transparência financeira”

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Por: Jonas | 25 Mai 2015

A reforma das finanças vaticanas “está quase encerrada” e “a nova maquinaria muito em breve estará pronta”. Quem faz este balanço do processo de reforma desejado pelo Papa Bergoglio é Francesca Inmacolata Chaouqui (foto), de 33 anos, a única mulher nomeada pelo Pontífice para a Comissão referente de estudo sobre as instituições econômicas e administrativas da Santa Sé.

 
Fonte: http://goo.gl/MHZuMY  

É dessa forma que Francesca Inmacolata Chaouqui se apresenta: “Tenho 33 anos, sou casada e fui a única mulher da comissão referente e, portanto, a única leiga mulher que desempenhou um papel deste tipo na história recente da Igreja. Dedico-me aos processos de comunicação econômica e financeira para empresas e organizações. Estou próxima de publicar um livro, no qual conto o processo pelo qual um jovem da Calábria, minha terra nativa, renuncia a Ndrangheta (associação mafiosa). Estou trabalhando com Paolo Sorrentino, prêmio Oscar, como assessora de seu novo filme. Também trabalho voluntariamente com médicos no setor de saúde e no da acolhida e assistência a imigrantes de regiões de guerra com Mensageiros da Paz, uma organização internacional presente em 47 países”.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 22-05-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em que ponto está a reforma das instituições econômicas e financeiras da Santa Sé?

Após quase dois anos de trabalho, a reforma das instituições econômicas, financeiras e administrativas da Santa Sé está chegando ao seu fim. Com o encerramento das duas comissões referentes (IOR e COSEA), a criação da Secretaria para a Economia com seus estatutos e a criação do escritório dos revisores, que substituirá a prefeitura de assuntos econômicos e que deverá ser oficializado em breve, estará pronta a nova maquinaria que gerenciará os âmbitos econômicos e administrativos da Santa Sé.

Como você avalia o trabalho que foi realizado?

Foram meses de trabalho muito intenso. A Santa Sé é um Estado heterogêneo, além de pequeno. A geometria das leis e das relações entre as diversas instituições é complexa, mas, por fim, tudo foi muito mais simples do que se imaginava. A exigência de agilizar alguns procedimentos e tornar mais flexíveis alguns processos estava bastante clara e, sobretudo, já havia sido colocada em andamento antes da renúncia do papa Bento. No conjunto, estou satisfeita tanto pelo resultado final como pelo papel e a importância que foram concedidos aos técnicos leigos na governança da Igreja. Também estou feliz pelo fato do Papa Francisco ter desejado manter instituições como o IOR e a APSA sob o controle direto de seus cardeais de máxima confiança. Acredito que ninguém melhor do que eles para avaliar as melhores decisões a se tomar.

Falou-se de dinheiro sujo, de um IOR obscuro, com milhares de contas protegidas e outras fora de controle. A situação realmente era tão catastrófica?

Você quer que eu lhe diga a verdade? Quando fui nomeada para fazer parte da COSEA, esperava realmente ter que adentrar em uma gestão catastrófica, protegida por uma couraça, contra monsenhores endurecidos e decididos a defender suas posições. Passado o primeiro mês, mudei totalmente de opinião. Minha comissão efetuou uma análise em profundidade dos aspectos organizativos e dos dados econômicos de todas as instituições da Santa Sé, com a colaboração de todos os presidentes dos dicastérios afetados, sem excluir nenhum. Posso lhe garantir que, apesar da margem de melhora evidente, não havia nenhum setor à beira da quebra ou da má administração. Daí que não foi justo, como fizeram alguns, falar de fundos de dinheiro sujo descobertos pela COSEA ou pela Secretaria para a Economia. Na minha avaliação, talvez tivesse sido muito mais oportuno falar de fundos fora dos balanços (bem conhecidos pela Secretaria de Estado e pelas demais instituições competentes), que foram introduzidos no processo contábil. Também não acredito que seja adequado falar de um IOR limpo somente nestes últimos meses. O trabalho de reorganização e o processo de transparência da gestão já tinham começado com Ettore Gotti Tedeschi, e por desejo do Papa Bento, muito antes das comissões começarem a trabalhar.

E as resistências sobre as quais se fala? O que há dos denominados inimigos de Francisco?

Talvez seja excessivo falar de resistências ao processo de reforma. Evidentemente, houve momentos mais tensos que outros, mas, ao final, foram conseguidos os objetivos do Papa, em prazos relativamente curtos, caso se considere o enorme alcance das reformas. Inimigos de Francisco? Eu apenas me deparei com dois na Cúria e não apenas entre os que estavam antes, mas também com algum que se incorporou mais tarde. São os que se utilizam dos personalismos e das fofocas com fins em si mesmos.

Está feliz em ter podido realizar este projeto de reforma?

Agradeço todos os dias pela oportunidade de ter ajudado o Santo Padre. Não estou satisfeita com tudo o que foi realizado, mas, sim, de muitas coisas. Na realidade, o que mais me surpreende, às vezes, é o discurso que se fez da reforma.

O que quer dizer?

Às vezes, tenho a sensação de que alguns meios de comunicação instrumentalizaram as comissões, a reforma e a vontade do Papa Francisco, para apresentar o que havia antes como obscuro, corrupto e errado, ao passo que agora tudo é imaculado, perfeito e funcional. Não acredito nestas explicações de bons e maus. Conheci bispos e monsenhores que trabalham na Cúria há muitíssimos anos e que são incapazes de ocultar um único centavo. Além disso, acredito que a Santa Sé não é, nem será nunca, nem deve ser uma empresa com o único objetivo de manter equilibrados os balanços e dispor de uma montanha de dinheiro bem gerenciado. A gestão econômica da Santa Sé deve estar a serviço das obras do Pontífice em sua missão de Cristo na terra, de uma forma honesta e transparente. No entanto, não deve perseguir apenas a lógica do investimento mais rentável.

Falando em geral do pontificado de Bergoglio, para onde se dirige, na sua avaliação?

Acredito que o pontificado de Bergoglio está se caracterizando não tanto pela reforma da Cúria e das instituições econômicas (questões muito específicas que, no âmbito mundial, não suscitam a atenção que provocam na Itália e em algum outro país limítrofe), mas muito mais pela atenção aos pobres e aos últimos, pela tolerância zero na luta contra a pedofilia e por ter colocado o foco na fragilidade da família frente ao Sínodo. Em uma perspectiva genuinamente política, está optando, de uma forma clara, em incidir profundamente no âmbito diplomático, por meio da Secretaria de Estado, que está desenvolvendo um primoroso trabalho de diálogo para a busca da paz, da tolerância e da abertura, como nunca antes havia sido feito. O mais estreito colaborador do Papa Francisco, o cardeal Parolin, está pilotando, na minha avaliação de uma forma incrível, uma operação diplomática de aproximação das fronteiras. A aproximação entre Cuba e Estados Unidos e o reconhecimento do Estado palestino são apenas dois exemplos. Não ficaria surpresa (mais ainda, desejo isto) caso se consiga que o Papa vá logo à China.

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