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25 Março 2015

Movimento 26 de Março foi a primeira reação armada ao regime militar e marcou o início da tortura de presos.

O parágrafo abaixo foi retirado de texto da Comissão Nacional da Verdade e dá a dimensão da história que você conhecerá nesta reportagem.

A reportagem é de Léo Gerchmann, publicada pela Zero Hora, 21-03-2015.

“Foi grande a repercussão (...) por ser o primeiro movimento armado (...). Durante os meses seguintes, militantes que se opunham à ditadura lançaram a sigla MR-26 (Movimento Revolucionário 26 de março), em homenagem à coluna. (...) “Cardim foi humilhado diante de tropas, torturado e exposto ao público, para que a violência de sua punição servisse de exemplo.”

O coronel Jefferson Cardim (1912-1995) era um carioca que esteve entre os primeiros oficiais de esquerda cassados pelo regime militar a assim que se instaurou, em 1964. No exílio, matutava como reagir e tomar o poder. Nacionalista e brizolista, com 53 anos quando estourou o MR-26, chegou a passar por treinamento de guerrilha na Cuba de Fidel Castro.

Conhecido também como Guerrilha de Três Passos, o MR-26 é a mãe de todas as batalhas contra o regime militar (1964-85), promovido por três militares cassados e 20 agricultores. Com apoio do ex-governador Leonel Brizola, exilado no Uruguai, eclodiu quando faltava menos de uma semana para o aniversário de um ano do golpe. Foram tomados o quartel da Brigada Militar e o presídio de Três Passos. Da Rádio Difusora, invadida, transmitiram um manifesto à nação.

Da cidade gaúcha, Cardim, que saíra também do exílio uruguaio, passou com seu grupo por Tenente Portela e foi escalando o Brasil rumo ao Paraná. Em 26 de março, o presidente Castelo Branco chegara a Foz do Iguaçu para inaugurar a Ponte da Amizade, que une Brasil e Paraguai sobre o Rio Paraná. Estava a cem quilômetros dos guerrilheiros. O perigo era iminente para o ditador, justo no momento em que cortaria a fita de uma das obras mais simbólicas da união entre o Brasil e o Paraguai sob comando do general Alfredo Stroessner.

Aviões partiram para a região. Próximo a Capanema, já no Paraná, o grupo foi localizado por um avião da Força Aérea Brasileira. Em Capitão Leônidas Marques, houve tiroteio entre militares e guerrilheiros, que foram capturados aos poucos, em 27 e 28 de março.

Muitos dizem que a repressão brasileira recrudesceu depois do Ato Institucional número 5 (o AI-5), em 1968. Mas o episódio do MR-26 marcou o fim de alguns escrúpulos que ainda restavam no regime de exceção. Estudiosos sustentam que terminou ali a imunidade de oficiais à tortura, regra respeitada em sublevações anteriores. Desencadearam-se, então, perseguições e torturas como ainda não houvera.

– O golpe se impôs com tranquilidade, poucos resistiram. A Guerrilha de Três Passos assustou os militares. Ficou feio. Antes, havia prisões arbitrárias, mas não tortura – diz o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke.

O papel de Brizola é controverso. Os integrantes da guerrilha (na maioria já mortos ou desaparecidos) tinham vínculo com o ex-governador, arqui-inimigo do regime. A dúvida que resta: Brizola deu dinheiro para os líderes? Deu a ordem para a operação? José Wilson da Silva lançou em 1984 O Tenente Vermelho (editora Tchê), segundo o qual Fidel Castro entregou US$ 1 milhão para exilados brasileiros no Uruguai, como Brizola, financiarem a guerrilha no Brasil. O destino do dinheiro é um mistério.

Nesta quarta-feira, às 19h, o MR-26 será tema de seminário no Memorial do Legislativo (Rua Duque de Caxias, 1.029, em Porto Alegre). O evento 23 homens que tentaram levantar o país marca os 36 anos do MJDH e os 50 da Guerrilha de Três Passos. Será apresentado trailer de documentário sobre a guerrilha e os depoimentos de participantes do movimento.

“A elite está brincando com fogo”

Valdetar Dornelles era professor rural quando engajou-se na Guerrilha de Três Passos. Hoje, aos 81 anos, é advogado. Adotou o lema “o que torna belo o entardecer é a esperança no dia de amanhã”. Diz-se socialista com fé em Deus desde que a arma falhou quando seria executado, em 1965.

Leia trechos de entrevista:

Por que a operação foi tão precária?

O que nós esperávamos não ocorreu, que era o apoio do Exército e da Brigada Militar, que falhou. Nos deixaram no mato. Nos mandaram fazer e, na hora...

Quem mandou?

A rádio anunciou: “Acabamos de captar a seguinte mensagem clandestina: operação imediatamente em ação”.

Mas quem deu essa mensagem?

Não sei quem deu essa mensagem.

Brizola apoiou ou financiou?

Em 1961, tínhamos liderado o Movimento da Legalidade na região. O sargento Manuel Raimundo Soares esteve lá em casa a mando de Brizola. Disse que, antes do aniversário de um ano do golpe, tinha que ser feito algo contra a ditadura. Não podiam comemorar em paz. Parece que o Brizola pôs dinheiro nas mãos de um camarada que comprou terras, comprou coisas com esse dinheiro. São coisas que não se pode provar.

O senhor foi torturado?

Fiquei quatro anos preso. Cheguei a estar num paredão para ser fuzilado, mas a arma falhou. Tive enforcamento, choque, pau de tudo que foi jeito, fui queimado, nas pernas, no pescoço, nos braços. Tenho as marcas que vão ficar no meu corpo até eu morrer.

Depois de toda essa luta, o senhor acredita que a ditadura não volta mais?

Faço votos, mas estou vendo o que ocorre hoje, aqui quietinho. Não há lideranças com responsabilidade no Brasil. Não sabem mais perder eleição e não sabem mais ganhar eleição. Tive que ir à luta porque era necessário fazermos alguma coisa. O povo, hoje, nem sabe o que é ditadura, fala em impeachment. Não surge luz no fim do túnel. Se os militares entrarem, o desastre no Brasil vai ser tão grande que ninguém pode imaginar. A elite está brincando com fogo. Estão queimando carros. Daqui a pouco, vão queimar casas. Se não discutirmos democraticamente as coisas, será o desastre.

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