Marchadeiro/as e panelaços. Artigo de Luiz Alberto Gómez de Souza

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23 Março 2015

"É interessante ver como as manifestações ocorreram num breve tempo e se dissolveram sem deixar traços. Quando Flamengo ou Fluminense ganham, no dia seguinte os populares vestem com orgulho a camiseta de seu time. Nesta segunda-feira, no centro do Rio, nenhum sinal", narra Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo, diretor do Programa Ciência e Religião da UCAM.

Segundo ele, "há uma direita que, querendo dessangrar a presidente, na verdade tenta destruir o Brasil e nele a Petrobras, em nome de uma posição colonial e subordinada ao grande capital, ávido para meter as mãos – ou os pés – no nosso patrimônio".

Eis o artigo. 

Discutir o número de participantes nas manifestações de domingo não leva a muita coisa. A Globo falava de um milhão em São Paulo e a Datafolha de duzentos e dez mil. O importante é analisar, qualitativamente, o que estava acontecendo. Em primeiro lugar, as intenções eram as mais diversas, do “fora Dilma”, contra a corrupção, pelo impeachment e até um pequeno e inexpressivo grupo pedindo intervenção militar.

A manifestação de junho de 2013 tinha um eixo no movimento contra as tarifas do transporte, ainda que corriam ao lado os Black Blocs e grupos arruaceiros violentos e depredadores. Aliás, é interessar ver agora a visibilidade dos Black Blocs e dos mascarados. Nada de quebra-quebra ao final. Quem estava por atrás? Não simplifiquemos. Como pano de fundo, um mal estar inquestionável numa sociedade em transformação, mas ainda com muitas carências e enormes desigualdades. Por outro lado, um setor tradicional de nossas elites, ao contrário, temia a invasão dos que passaram a misturar-se com ele nas praias ou nos aviões (“Onde já se viu uma coisa destas?”). A direita oficial, titubiante, ficava à distância.

É patética a foto de Aécio na zona sul do Rio onde mora - não em Belo Horizonte- , uma sombra atrás de uma janela fechada no alto de um edifício. Tampouco vale dizer que só desfilavam madames de classe alta, ainda que a escolha dos lugares (Copacabana, Boa Viagem) indicavam onde a maioria dos manifestantes se sentia mais confortável. Muita gente de meia idade, poucos jovens, maioria branca. O verde amarelo das camisas se confundia com as cores da seleção canarinha.

Mas é interessante descobrir algumas faixas e cartazes alem do previsível “fora Dilma” e pelo fim defensável da corrupção. Trago duas amostras que assinalam a sensibilidade – insensibilidade ou ignorância de alguns manifestantes e que deveriam fazer-nos rir em lugar de causar indignação. Uma faixa, de uma madama protestando pela dificuldade de ter empregadas aprisionadas dentro de suas casas. E atrás, o incômodo nos aeroportos.

Outra parece incrível, falando contra a doutrinação marxista e lançando um basta Paulo Freire.

A primeira reação é de espanto, à primeira vista uma menção estapafúrdia, ou fruto de enorme ignorância. Logo depois dá vontade de rir, para, no fim, descobrirmos com satisfação que o pensamento do grande educador ainda causa dificuldades. Paulo Freire está “well and alive”, como numa peça de teatro da Broadway de anos atrás. Para os que sempre tivemos um enorme carinho por ele, vê-lo ali citado, é sinal de que está vivo, mais vivo ainda que o marxismo execrado, que aliás nada tem a ver com ele.

É interessante ver como as manifestações ocorreram num breve tempo e se dissolveram sem deixar traços. Quando Flamengo ou Fluminense ganham, no dia seguinte os populares vestem com orgulho a camiseta de seu time. Nesta segunda-feira, no centro do Rio, nenhum sinal.

As manifestações poderão voltar? Pode ser que sim, mas no momento não é o caso de levar a sério o esforço da Globo para mostrar uma dimensão exagerada, querendo compará-las com a manifestação de sexta-feira, dos sindicatos e dos movimentos sociais em defesa do Brasil, da Petrobras, pedindo reforma política e, inclusive, fazendo reparos à política ortodoxa do governo. As duas tiveram dinâmicas bem diversas.

Outra coisa são os panelaços e os buzinaços. Meus amigos de Copacabana, Leblon ou São Conrado, estavam nervosos com o ruído monótono que saia das janelas dos edifícios. Para os que vivemos em Laranjeiras, silêncio total. Vivi essa experiência no Chile e ela se repetiu mais recentemente na Argentina ou na Venezuela. Aí sim é mais fácil descobrir uma nota classista, nos apartamentos modernos e elegantes. Mas o mais importante e terrível é sentir a raiva latejante, o ódio e a total negação de um diálogo democrático. Reina a intolerância e o desejo de não escutar o outro. Há um claro autoritarismo, uma espécie de fundamentalismo que beira ao fascismo. Impossível dialogar com essa gente. A resposta deles a qualquer tentativa de discutir civilizadamente é um bater panelas e soltar uivos de ódio.

Encontro amigos indignados e entrando, sem querer, nesse clima de rancor, com sinal trocado. Atenção, não é o caso de, mimeticamente, como num espelho, ter a mesma atitude invertida. Lembro que, numa manifestação no Chile, subindo da praça Bulnes para o “bairro alto”, dos edifícios jogavam lixo nos manifestantes das “poblaciones”. E a reação bem humorada era, fazendo gestos eróticos, xingar os “momios” – especialmente as “momias” - com um sorriso irônico e matreiramente libidinoso.

Leonardo Boff, em artigo recente, fala com enorme propriedade de como desmontar o ódio social, com a maturidade de quem não se deve deixar envolver com esse clima doentio. Afinal, estamos defendendo a cidadania e a convivência democrática. Uma certa direita é que range os dentes. Com um possível sentido de humor, devemos mostrar de que lado estamos e de como cremos na convivência cidadã. Lembro, aqui no Brasil, em 1954, quando tínhamos manchetes lacerdistas raivosas da Tribuna da Imprensa e do clube da lanterna (uma dizia, referindo-se a João Goulart: “Joãozinho boa pinta demagogo de cabaré”). Do outro lado, num jornal muito mais moderno, articulistas da Última Hora, como o inesquecível Sergio Porto - Stalislau Ponte Preta – que escrevia sobre o festival de besteiras que assolava o país e trazia as sábias ponderações da tia Zulmira, a macróbia da Boca do Mato. E mesmo os retratos sem retoques da Adalgisa Neri, bem mais contundentes, passavam indignação, não raiva.

Temos de deixar clara a diferenças entre uma direita furibunda e intolerante – que até deixa pouco a vontade outra direita um pouco mais light à la FHC –, e uma posição progressista e nacional, que com argumentos e dados, como faz um Mauro Santayana, desmancha a falsificação dos fatos.

Há uma direita que, querendo dessangrar a presidente, na verdade tenta destruir o Brasil e nele a Petrobras, em nome de uma posição colonial e subordinada ao grande capital, ávido para meter as mãos – ou os pés – no nosso patrimônio. Isso se enfrenta com uma ampla aliança nacional, para além de um círculo esquerdista, onde se colocam um Bresser-Pereira ou um Renato Janine, ética e propositiva que, sem deixar de ser crítica, acredita em nosso país e em seu futuro. Ela não se mede em calendários eleitorais mas, como indica Tarso Genro, num processo dinâmico de longo alcance.

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