Gramsci e Papa Francisco, segundo Vattimo

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Por: André | 18 Março 2015

“E embora seja verdade que uma conjugação inesperada de um verbo possa nos fazer entrar em infra-atmosferas desconhecidas da linguagem, será preciso convir que a equiparação de Gramsci com o Papa não é apropriada. Revelaria um enfraquecimento inusitado das forças políticas e sociais da transformação, uma designação imprópria de uma herança maquiavélica (que é a do “chamado leigo para salvar o mundo”) outorgada a uma notória figura religiosa e uma translação de Gramsci ao “pensiero debole” [pensamento fraco] que se apresenta agora como uma dobra do pensamento sacramental.”

 
Fonte: http://bit.ly/1FVSyZN  

A reflexão é de Horacio González, sociólogo e diretor da Biblioteca Nacional, em artigo publicado no jornal argentino Página/12, 17-03-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Na recente visita de Gianni VattimoArgentina], por ocasião do Fórum pela Emancipação, ele deixou alguns pensamentos inquietantes que pressupõem um grande desafio para os movimentos sociais de todo o mundo: onde colocar a figura do Papa? Melhor dito, como situá-la diante das diversas formas de crenças que fervilham, se inquietam e entrechocam na crise de verossimilhança no interior da palavra pública? O modo de reflexão de Vattimo parte de um exercício primeiro de autorreflexão, ou seja, de verificação de seu próprio quadro de crenças. Um movimento interessante pelo qual se pergunta se deve dizer isso ou aquilo. Sim, se deve falar. Mas também é válida a pergunta: deve-se falar? Sempre coloca o que diz em estado de “digo isso por obrigação da minha própria consciência de apostador”. Encontra-se diante da desmedida de uma afirmação a contrapelo e da possibilidade de que seja uma provocação útil para pensar. Diante disso, escolhe falar.

Se isto é o último, então o provocador deve reconhecer-se a si mesmo através de determinado tipo de imolação intelectual. É quem diz algo que supera o normalmente indizível, mas deve fazê-lo em sacrifício da verdadeira discussão que, segundo ele, se avizinhará. Por isso, Vattimo disse (ou sugeriu, em seu estilo enunciativo é a mesma coisa) que todos os problemas políticos substanciais (pobreza no mundo, cruéis desarraigamentos, novas formas de exploração do trabalho, violências que estabelecem perigosas cartografias de época, crenças coletivas em crise, diversos neocolonialismos) deveriam remeter-se à história geral do cristianismo em busca de exemplificações, compromissos e novas estéticas da militância. Essa história cristã encerraria os problemas políticos e artísticos do presente mundo fraturado, razão pela qual não seria impróprio jogar (não me animo a dizer outra palavra) com a figura do Papa para condensar esses graves assuntos em uma voz de tipo reparadora.

De alguma maneira, este movimento equivaleria ao encontro de um “novo príncipe” como significante central na recomposição de todos estes temas em uma nova internacional dos ofendidos e humilhados. Daí a frase que Vattimo deixa cair com graça no Fórum (o Papaintern) como figura retórica que evocasse o grau operacional dos extintos Comintern, os comitês que faziam entrar em sua visão mundializada a solução dos angustiantes problemas da humanidade, temas nos quais a esquerda das décadas passadas puseram suas esperanças que depois viram fracassar. Agora, com o Papaintern (Vattimo admite o lado “provocateur” desta ideasticker) poderiam reproduzir-se aquelas ações reparadoras, mas já com o idioma que cresce no âmbito do cristianismo.

Na agência digital Paco Urondo, Vattimo deixou outra obria eletrizante de seus exercícios de tímido alvoroçador: o Papa seria o novo Gramsci. Isso interessa às nossas considerações, que concorrem assombradas ao local de emergência de uma alegoria que interrompe um momento de calma como se a pedestre de repente lhe coubesse a tarefa de ser testemunha de um súbito acidente de trânsito. Evidentemente, entre os tantos temas pelos quais se pode definir a obra de Gramsci, tem um lugar fundamental o estudo da história eclesiástica europeia, a comparação da Reforma Protestante com o Renascimento na Itália, a “questione meridionale” como o âmbito moral em que acontece a existência do intelectual tradicional no mundo agrário religioso e que constrói a ideia camponesa como um vínculo com a comunidade das inocentes almas.

Tudo isso é referido por Gramsci com o estudo da literatura do padre jesuíta Bresciani. Neste popular padre, Gramsci percebe o tácito vínculo da cultura eclesial com todo tipo de preconceito que leva, docemente, a uma crua submissão. Mas essa literatura moralizante e disciplinar sempre foi lida por Gramsci com atenção e respeito. Pois também foi agudo leitor da antiga revista La Civiltà Cattolica, que estuda como parte do tratamento que a Igreja tem com os "homens simples e seu senso comum”. Essa revista mais que centenária foi fundada na Itália pela Companhia de Jesus, com uma trajetória publicista ligada à direita mundial e com tratamentos não ingênuos da questão social, sob o estilo de tomar alguns de seus temas para contê-los em estruturas “perinde ad cadaver” (isto é, “rígidas como um cadáver”). Embora nas leituras de Gramsci nunca haja uma consideração despectiva, e seu modo polêmico sempre se refugie em um espírito curioso, que, enfiando-se dentro de qualquer pensamento adverso, examina-o com cautela e, às vezes, assinalando com deferência os erros que seus adversários cometem, que embora não se materializem, poderiam levá-los a outro tipo de consideração mais abertas. Assim o faz quando analisa o pensamento de Corradini e outros fascistas da sua época; nunca despreza, nunca lamenta, examina e critica com a resignação lúcida do prisioneiro que nunca é surpreendido por nenhuma matéria rara, dispersa ou implacável do mundo.

Gramsci inspira-se abertamente na cultura italiana antiga e moderna, neste caso no crítico Francesco de Santis e em Benedetto Croce. Muito do que hoje se atribui a ele, pertence, na verdade, à obra destes grandes críticos e filósofos. Mas o gênio de Gramsci está em seu modo de enunciação e na maneira como sugere problemas centrais da filologia, filosofia literária e da retórica política. Sua ideia do partido político, ao cotejá-la e inclusive igualá-la com o que chama de “livro vivo” ou “mito”, renova toda a arquitetura conceitual da esquerda (a faz “intelectual e moral”, ou seja, a faz surgir do tecido histórico nacional). Mas tem especial significação sua ideia de “catarse”, o máximo conceito da filosofia dramática grega, a compreensão por meio da convulsão passional.

Esta ideia, assim como a da práxis (onde une Aristóteles com Marx), implica uma lógica de passagem do mundo empírico para o mundo subjetivo, da questão econômica à questão política, que coloca em um lugar diferente a tradição dialética e a introduz, por assim dizer, na mesma altura de A Divina Comédia. É sabido que Gramsci analisa o famoso capítulo X desta grandiosa obra, onde Dante encontra no Inferno Farinata e Cavalcanti. Gramsci se pergunta se a função linguística, em uma consideração verdadeiramente original, faz com que a força do poema dantesco corresponda à sua estrutura discursiva. Ao descobrir o ponto em comum – como fará com Pirandello ou com Maquiavel – descobre o “vivo” de um texto, o modo como se aproxima de nós a partir de um tempo abstrato para nos tornar leitores do tempo presente, ou seja, militantes culturais e pessoas vivas das e nas culturas políticas.

Nos anos 1970 argentinos, a revista Pasado y Presente (Portantiero, Aricó, Del Barco) designou outra assombrosa equiparação entre conceitos e arriscou que a “questione meridionale” de Gramsci tinha equivalente na “questão do peronismo” na Argentina. Houve gramscianos argentinos. Mas, na verdade, é Gramsci que é um tema argentino, uma voz do interior dos nossos próprios textos. Sua ideia da conexão de uma frase casual na Enciclopédia de Hegel com outra frase de um provérbio popular saída de um salão de beleza, que, por sua vez, poderia recordar Pascal, fala de uma complexa espessura na relação de todos os planos da cultura.

O conceito de hegemonia, que não é central na sua magnificamente dispersa obra, impede-o de ser um hermeneuta do pós-modernismo, como Vattimo, que também exerce errâncias por planos heterogêneos de pensamento, ou seja, entre diferentes formas de surgimento do sujeito diante dos usos da arte e da técnica. Pessoa agradável, amigo das vicissitudes latino-americanas mais originais, a ideia de Vattimo de uma nova internacional – que, definida sob outros propósitos, compartilharíamos – não nos parece adequada se tiver como centro a figura do Papa, sem ignorar o visível papel político com o qual atualmente é interpretada a sua figura.

Entendemos estes assuntos como uma discussão dos leigos lúcidos aos quais interessa o translado religioso das consciências, com os antigos militantes leigos da razão revolucionária secular europeia, que várias décadas depois recorrem a diversas equiparações entre santas militâncias e santidades militantes. Vemos isso em seu todo como o quadro de um debate sobre identidades, heresias, compromissos sociais e formas subjetivas do sacrifício. E embora seja verdade que uma conjugação inesperada de um verbo possa nos fazer entrar em infra-atmosferas desconhecidas da linguagem, será preciso convir que a equiparação de Gramsci com o Papa não é apropriada. Revelaria um enfraquecimento inusitado das forças políticas e sociais da transformação, uma designação imprópria de uma herança maquiavélica (que é a do “chamado leigo para salvar o mundo”) outorgada a uma notória figura religiosa e uma translação de Gramsci ao “pensiero debole” [pensamento fraco] que se apresenta agora como uma dobra do pensamento sacramental.

Gramsci, sem dúvida, foi um pensador teológico-político, mas viu a política como temor e tremor, fortalecendo o laicismo visionário com essas virtudes, e viu a Igreja como portadora de uma visão paternalista da pobreza. De todos os modos, estas frases que sobrenadam a nossa difícil atualidade podem dar seus frutos se os homens mais penetrantes da Igreja estudarem os pensamentos mais sutis da esquerda mundial, como estas fizeram com aqueles. Assim o recordamos no imediato passado, porque no fundo, este intercâmbio nunca deixa de ser realizar, não conhece descanso nem interrupções.

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