O que Bonhoeffer diria sobre Charlie Hebdo? Ou, dois contos sobre uma cidade

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25 Fevereiro 2015

"Os recentes acontecimentos na Europa e na África são apenas sintomas de males insidiosos mais antigos – as raízes teológicas no político, bem como uma tecnológica governamental totalitária que permanece nas democracias contemporâneas", escreve Pedro Lucas Dulci, mestre em filosofia pela UFG e graduando em teologia pelo SPBC, ao estabelecer uma relação entre a Kristallnacht (A noite dos cristais), em 1938, e o ocorrido na sede da revista Charlie Hebdo, em 2015, ele evoca o testemunho de Dietrich Bonhoeffer.

Eis o artigo.

Ao contrário do que foi repetido vertiginosamente nas últimas semanas, é agora e não antes, que devemos ter coragem de pensar os acontecimentos na sede da revista Charlie Hebdo e seus desdobramentos internacionais. Agora, e não antes, porque nos livramos daquela solidariedade universal que sensibilizou parte da população mundial, entulhando nossos jornais e revistas com comentários de figuras improváveis na defesa da liberdade de expressão – somos um país tão esquizofrênico que não percebemos que as mesmas pessoas que crucificaram a piada de Rafinha Bastos, foram a público canonizar as charges de Charlie. Sem me colocar ao lado de nenhum dos dois, o que desejo é argumentar que precisamos nos livrar o pathos da comoção e pensar mais profundamente.

Além disso, é necessário pensar agora e não antes, porque nossa geração necessita exercitar sua memória política. Nós vivemos em tempos de reprodução alucinante das informações, onde se tornou quase impossível não se esquecer do que aconteceu – mesmo que tenha sido algo terrível e de impacto na vida de milhões de indivíduos. Por tudo isso, o presente texto é um breve exercício de memória sobre dois acontecimentos recentes na mesma cidade. Uma problematização extemporânea que, ao contrário do que Charles Dickens fez, contará dois contos sobre a mesma cidade: Paris, na França.

No dia 7 de novembro de 1938, em pleno regime nazista, Herschel Feibel Grynszpan, um jovem judeu alemão de apenas 17 anos, atirou e matou um funcionário da embaixada alemã em Paris. O pai desse jovem acabara de ser capturado e colocado em um vagão de trem para ser deportado para um campo de concentração e extermínio na Polônia. Tal episódio, somado aos outros que estavam sendo empreendidos todos os dias contra os judeus, desencadeou esse ato de vingança do rapaz. Infelizmente, aquele jovem errou seu alvo. O homem que ele matou não era o embaixador alemão, o conde Johannes von Welczeck, mas o terceiro secretário da embaixada, Ernst von Rath. Ironicamente, von Rath era um dos funcionários do governo que se opunha ao nazismo também em razão das atrocidades que estavam sendo feitas contra os judeus.

A despeito de quem morreu ou quem foi que matou, esse episódio em Paris foi o estopim que Adolf Hitler precisava como pretexto para iniciar, em escalas assustadoras, as maldades contras os judeus na Alemanha. Ou seja, esse acontecimento marcou um momento decisivo na política do regime nazi em relação ao tratamento com os judeus. Somos informados que à 1h20 da madrugada, em resposta ao assassinato de von Rath, Hitler enviou uma mensagem a cada posto da Gestapo em toda Alemanha com instruções explícitas sobre a reação que viria a se conhecida como Kristallnacht (Noite dos Cristais quebrados). Várias casas, sinagogas e lojas de judeus foram saqueadas, destruídas e incendiadas. Além disso, vários judeus foram espancados e mortos. A partir desse dia, a vida dos judeus na Alemanha e em todo território conquistado por Hitler não seria mais a mesma.¹

A relação que pretendo estabelecer entre a Kristallnacht com o ocorrido na sede da revista Charlie Hebdo extrapola a simples localização geográfica em Paris. Mais do que o palco em que teve lugar – e o equívoco de matar pessoas que supostamente estavam do mesmo lado, como aconteceu com o policial muçulmano Ahmed Merabet, assassinado enquanto agonizava na calçada –, a história do jovem judeu e a dos dois jovens islâmicos tem algumas semelhanças que precisam ser lembradas hoje. Em primeiro lugar, e de maneira mais fundamental, fica evidente o lugar que a religião ocupa no espaço público. No caso Charlie Hebdo, a relação entre política e religião é um pouco mais evidente, pois não só o episódio foi desencadeado por razões religiosas, como também seus desdobramentos internacionais permaneceram operando sob as lentes da religião – refiro-me as 45 igrejas, cinco hotéis, 36 bares, um orfanato e uma escola cristã que foram saqueados antes de serem incendiados em Niamey, capital do Niger em reação às novas publicações da revista francesa.

Já no caso nazista, a correspondência teológico-política recaia sobre os ombros do Führer, que encarnava a figura do soberano divino e, por consequência, exigia fidelidade digna de um adorador. Tal correspondência era tão evidente para os olhos mais sensíveis teologicamente, que dois dias depois que Adolf Hitler tornou-se chanceler da Alemanha, um teólogo de 26 anos fez um discurso em uma estação de rádio de Berlim que antecipava tudo o que estava por vir. Em seu discurso, o jovem pastor Dietrich Bonhoeffer “tratava do problema fundamental da liderança de um Führer, explicando como é inevitável que tal líder se transforme num ídolo, um falso messias”.(2) Não é sem motivo que, antes que pudesse concluir suas palavras, o discurso foi interrompido no ar.

Por tudo isso, desconsiderar o papel que a religião exerce no espaço público é reduzir o fenômeno político a trivialidades secularizadas. Conforme colocou muito bem Guilherme de Carvalho, “mais do que uma nova política, no entanto, o que precisamos... é de uma teologia política. Pois mesmo um programa político mais equilibrado, humano, inteligente e historicamente atual não seria capaz de nos desintoxicar do que venho chamando de ‘concupiscência política’”. (3)

No entanto, antes de falar um pouco mais sobre Bonhoeffer, cabe ainda mostrar o segundo ponto de relação entre a Kristallnacht e o ocorrido na sede da revista Charlie Hebdo. Em uma atualidade brutal e sombria, o mesmo mecanismo político para lidar com tumultos sociais reapareceu: a inquestionável violência para garantir a segurança. Tanto em 1938 quanto em 2015, vemos acontecimentos políticos que se transformaram em base de justificativa para todo o tipo de violência estatal. A partir da retórica da segurança e proteção da população a qualquer custo, a tecnologia política de suspender parte ou todo o ordenamento jurídico de uma nação está tornando-se a regra. O Estado passa a ter permissão de afirmar sua soberania sem restrições legais, uma vez que se encontra em situação de emergência. As pessoas já não entram em qualquer lugar, não vestem qualquer roupa e não mantém mais sua rotina intacta. Suas casas são invadidas, suas correspondências violadas e sua dignidade posta em questão – tudo sob o inquestionável valor público da segurança enquanto princípio dirigente do Estado. Com essa justificativa, os Estados Unidos invadiu três países (Afeganistão, Iraque e Mali), um crescimento vertiginoso de leis e práticas de controle que limitam a liberdade em nome da liberdade e um aumento considerável da islamofobia nos países europeus e cristofobia em países de predominância muçulmana.

Tal estratégia governamental é posta em prática tantas vezes durante um mandato, seja de Hitler ou de Hollande, até que “a distinção entre estado de guerra e estado de paz fica embaçada; estamos entrando numa era em que um estado de paz em si pode ao mesmo tempo ser um estado de emergência”, segundo explica Slavoj Žižek(4). Repetindo 9.11.1938 e 11.9.2001, estamos mais uma vez frente a “guerra contra o terrorismo”, segundo declarou o primeiro-ministro francês Manuel Valls

O que parece escapar aos olhos da opinião pública é aquilo que Giorgio Agamben nos chama atenção quando diz: “o pensamento da segurança traz, dentro de si, um risco essencial. Um Estado que tem a segurança como sua única tarefa e origem de legitimidade é um organismo frágil; ele sempre pode ser provocado pelo terrorismo para se tornar, ele próprio, terrorista... No fim, a segurança e o terrorismo podem formar um sistema fatalmente único, no qual justificam e legitimam todas as ações uns dos outros”. (5) A prova de tal hipótese assume vários níveis de comprovação cotidiana, desde a impossibilidade de saber se a junta policial que vem em sua direção irá protegê-lo ou levá-lo preso, desde o fato de que, quando um avião sobrevoa uma área atingida pela guerra, como em Gaza atualmente, nunca se sabe se ele vai lançar bombas ou pacotes de alimentos.

Em resumo, os recentes acontecimentos na Europa e na África são apenas sintomas de males insidiosos mais antigos – as raízes teológicas no político, bem como uma tecnológica governamental totalitária que permanece nas democracias contemporâneas. Frente a essa relação, o que nos resta dizer? Ao invés de oferecer outra opinião que alimente o blá-blá-blá periódico, gostaria de dar voz a um morto que ainda fala: Dietrich Bonhoeffer. Quando a Kristallnacht aconteceu, o pastor alemão estava nos confins do extremo leste da Pomerânia, de tal forma que ele só ficou sabendo dos ocorridos dois dias depois. Em uma conversa com os estudantes de teologia que ele supervisionava, alguém apresentou uma chave-interpretativa muito comum para aqueles fatos: explicar a violência contra os judeus em razão da “maldição” que havia sobre eles por terem rejeitado a Cristo.

Nessa resposta dos seminaristas, esconde-se uma maneira muito comum, ainda hoje, de “compreender” os acontecidos em Paris e no Niger, a partir da justificativa de que o islamismo é uma religião de sangue, violência e guerra. Em ambos os casos, o que está em jogo é a utilização de uma explicação que não explica, mas que encobre e esfuma as coordenadas sociopolíticas que fizeram surgir tal problema. Se quisermos realmente compreender e ultrapassar tais problemas políticos precisamos parar de repetir as teorias sobre a barbaridade do extremismo muçulmano – como se nós fossemos o último bastião de proteção e propagação dos valores civilizatórios humanizados. (6)

Abrir mão dos clichês “mais do mesmo” que nada explicam, é um importante primeiro passo. Ao que parece, foi o que Bonhoeffer fez. Somos informados que ele “sabia que os rapazes não eram odiosos ou antissemitas, mas refutou a interpretação deles com firmeza. Eles estavam enganados”. (7) Ao invés de raciocinar sob o prisma da “maldição” dos judeus, Bonhoeffer começou a pensar a partir da soberania de Cristo sobre todas as esferas da existência. Para o pastor, as sinagogas, as casas e as pessoas que foram saqueadas, queimadas e mortas na Alemanha também pertenciam a Deus, que é soberano sobre todas as coisas. Erguer-se contra a dignidade daquelas pessoas, contra a imago Dei que ainda permanecia nelas, significava abrir mão da consciência de quem era o soberano sobre a nação alemã – algo que ele já havia predito cinco anos antes no discurso à rádio.

Bonhoeffer identificava o mal feito aos judeus como um mal feito a Deus e aos povos de Deus”, argumenta Eric Metaxas. Contudo, vale ressaltar que mesmo pensando dessa forma, ele “não realizou o salto teológico seguinte de sugerir que os cristãos não necessitariam levar o evangelho de Cristo aos judeus. Pelo contrário... ele se posicionou contra os nazistas que proibiram os judeus de fazer parte da igreja alemã”. (8) Se o nosso herói alemão não cedeu a tentação de ignorar as diferenças irredutíveis entre cristãos e judeus, em prol de uma comoção barata – algo bem comum em tempos de tirania da igualdade – o que ele fez precisamente? Hans-Werner Jensen recorda que:

a conscientização de Bonhoeffer a respeito do que os judeus enfrentavam imediatamente após a Kristallnacht o levou a ser guiado por uma inquietação interior, uma cólera santa... Durante aqueles dias medonhos, aprendemos a compreender – não apenas a vingança humana, mas a oração dos chamados salmos imprecatórios, que entregam a Deus o caso dos inocentes, “por amor do seu nome”. Não era apatia e passividade que Dietrich Bonhoeffer obtinha deles, mas para ele a oração era a exibição da atividade mais intensa possível.(9)

Nessas palavras fica evidente, portanto, que os acontecimentos da Kristallnacht não foram um marco apenas para as loucuras de Hitler, mas também, para o testemunho e resistência de Bonhoeffer. A crescente perseguição aos indivíduos no regime nazista ajudou o jovem teólogo a visualizar com maior clareza aquele limiar que une fé e certeza da soberania divina com a responsabilidade de se condoer pelos inocentes “por amor do seu nome”. Esse limiar é o que converte a mera confissão em conspiração e, com toda a certeza, o que deu coragem suficiente para Bonhoeffer aprofundar seu testemunho, transformando-o em resistência. Mais do que resistir pelo caminho da confissão, Bonhoeffer nos ensina a confessar pelo caminho da resistência.

Por tudo isso, a exemplaridade de Bonhoeffer só tem valor para nós ainda hoje porque ela carrega uma atitude fundamental que precisa ser repetida. Repetir Bonhoeffer, no então, não significa voltar ou reproduzir automaticamente sua resposta aos alunos de teologia. Antes, o que está em jogo é repetir seu gesto diante de uma situação política estruturalmente semelhante. E qual é esse gesto? A capacidade de perceber e indignar-se com uma injustiça, de tal forma que nossa confissão se transforme em conspiração contra as conjunturas sociopolíticas do aparecimento da iniquidade.

Notas:

1. Todas as informações para a reconstrução do acontecimento de novembro de 1938 foram retiradas do livro de Eric Metaxas, Bonhoeffer: pastor, mártir, profeta, espião. Mundo Cristão, 2011, p. 337-338.

2. METAXAS, Bonhoeffer, p. 153.

3. CARVALHO, Guilherme de. Sobre as intoxicações políticas, e por que sou oposição. Disponível aqui. Acessado em: 01 de fev de 2015.

4. ŽIŽEK, Slavoj. Bem vido ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 128.

5. AGAMBEN, Giorgio. Sobre a segurança e o terror. Trad. Pedro Fernando Budassoli. In: COCCO, Giuseppe; HOPSTEIN, Graciela (orgs.). As Multidões e o Império: entre globalização da guerra e universalização dos direitos. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 146.

6. Quem comenta esse aspecto de maneira precisa é o professor Vladimir Safatle quando diz: “Insistiria que, se quisermos vencer o extremismo muçulmano, melhor começar por parar de reeditar teorias coloniais sobre o pretenso caráter arcaico da religião dos antigos colonizados, como se nós mesmos não tivéssemos nos acomodado aos nossos próprios arcaísmos. Pois se tem alguém que agradecerá de joelhos aqueles que usam a imprensa para falar que o islã não é compatível com a democracia (como se alguma religião realmente fosse) são os terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico. É exatamente o que eles sempre falaram. Infelizmente, para propagar esta boa nova, eles têm bastantes aliados entre nós”. SAFATLE, Vladimir. Guerra ao terror. Disponível aqui. Acessado em 14 de jan de 2015.

7. METAXAS, Bonhoeffer, p. 338.

8. METAXAS, Bonhoeffer, p. 339.

9. JENSEN, Hans-Werner apud METAXAS, Bonhoeffer, p. 340.

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