E Mengele, sorrindo, condenava e salvava

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26 Janeiro 2015

De vez em quando, procedia-se nos campos de concentração as chamadas "seleções", isto é, aquele exame das condições físicas dos prisioneiros, a fim de detectar a sua atitude ao trabalho: aqueles que, depois dos esforços, das torturas, da fome ou das doenças estavam reduzidos a um estado de decadência tal que comprometesse as suas possibilidades de resistir ao trabalho massacrante, eram dirigidos para as câmaras de gás.

O relato é do médico italiano judeu Leonardo De Benedetti (1898-1983), que foi prisioneiro do campo de concentração de Auschwitz de fevereiro de 1944 até a sua libertação em janeiro de 1945. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, junto com o seu colega de concentração, Primo Levi, escreveu Rapporto su Auschwitz, um relatório das condições dentro do campo.

O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 21-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu fui deportado da Itália, na minha qualidade de judeu, no dia 20 de fevereiro de 1944 e cheguei à estação de Auschwitz na noite do dia 26 de fevereiro de 1944. O comboio do qual eu fazia parte era composto por 650 pessoas, das quais o mais velho tinha 85 anos, o mais jovem, seis meses.

Assim que saí do trem, na mesma plataforma da estação, ocorreu a primeira seleção; tive a sorte de ser julgado bastante jovem e ainda apto ao trabalho, enquanto a minha esposa (que estava comigo e da qual fui repentina e brutalmente separados) foi dirigida, na mesma noite, à câmara de gás, como eu fiquei sabendo depois da libertação por parte de algumas de duas companheiras que escaparam.

Na mesma noite, eu, com outros 95 companheiros, fui transportado diretamente para o Campo de Monowitz-Buna, onde recebi o número de matrícula 174489 e onde permaneci até o dia 17 de janeiro de 1945, quando fui libertado pelo Exército Vermelho.

Durante todos esses 11 meses, eu tive que trabalhar na qualidade de operário manual em diversos "Kommandos", todas tarefas muito cansativas; eram sempre trabalhos de descarga ou de transportes, nunca tendo conseguido fazer valer junto ao "Arbeitsdienst" a minha qualidade de médico e, por isso, não me foi dada a possibilidade de entrar como médico ou mesmo apenas como simples enfermeiro no "Krankenbau".

As minhas condições físicas naturalmente sofreram um rápido e grave colapso pelo duríssimo esforço ao qual eu – assim como todos os outros prisioneiros – era submetido e que aqui não é o caso de descrever, até porque agora as condições de vida nos campos de concentração são conhecidas a todos.

Assim, como é de conhecimento de todos, de vez em quando, procedia-se nos campos de concentração as chamadas "seleções", isto é, aquele exame das condições físicas dos prisioneiros, a fim de detectar a sua atitude ao trabalho: aqueles que, depois dos esforços, das torturas, da fome ou das doenças estavam reduzidos a um estado de decadência tal que comprometesse as suas possibilidades de resistir ao trabalho massacrante, eram dirigidos para as câmaras de gás.

Essas seleções, no campo de Monowitz, ocorriam em dois tempos: a primeira escolha era feita por um oficial da SS auxiliado pelos mesmos médicos do Krankenbau do campo e, alguns dias depois, chegava o doutor Mengele para sancionar, através de uma segunda visita, igualmente rápida e superficial, a escolha realizada pelo primeiro.

Ambos os exames, como eu disse, eram ridiculamente sumários: uma olhada era suficiente para estabelecer um juízo; e se, depois da primeira escolha, persistisse nos mais otimistas uma esperança ainda que fragilíssima e ingênua de poderem se salvar, a segunda escolha – a realizada pelo doutor Mengele – era definitiva e representava um juízo inapelável e uma sentença irrevogável de morte.

O doutor Mengele se apresentava ao campo sempre de uniforme impecável e muito elegante e quase refinado, com as altas botas muito brilhantes, as luvas de pele, um chicotinho na mão; e, enquanto realizava o tremendo exame, assumia um ar sorridente e quase gentil; com o chicotinho, enquanto os que estavam sendo julgados desfilavam correndo, nus, diante do seu olhar e se detinham por um instante na frente dele, ele indicava, com suprema indiferença, o grupo ao qual o seu julgamento infalível tinha conferido o prisioneiro: à esquerda os condenados, à direita aqueles pouquíssimos sortudos que ele julgava ainda aptos ao trabalho, ao menos até a próxima seleção. (…)

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