Investigação de Virgem Maria na Bósnia pode colocar papa contra cidade

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28 Agosto 2015

Exatamente às 18h40 de um dia abafado deste mês, os sinos da igreja ressoaram pela praça principal de Medjugorje, na Bósnia-Herzegóvina, fazendo inúmeros peregrinos ficarem instantaneamente de joelhos.

O toque dos sinos marcava o momento, há 34 anos, em que um grupo de seis jovens disse que a Virgem Maria apareceu para eles. Três deles disseram que ela continua a fazê-lo, geralmente à mesma hora, todo dia desde então.

A reportagem é de Elisabetta Povoledo, publicada pelo jornal New York Times e reproduzida pelo portal UOL, 27-08-2015.

Ao longo daquele período, as aparições previstas atraíram milhões de fiéis a esta pequena cidade, e uma boa dose de suspeita dos céticos, incluindo, talvez, o papa Francisco. No que foi interpretado como uma alfinetada pouco velada às alegações, ele brincou recentemente, durante uma homilia, sobre "visionários que podem nos dizer exatamente que mensagem Nossa Senhora enviará às quatro horas desta tarde".

Em breve o Vaticano deverá divulgar as conclusões de sua própria investigação das supostas aparições, que foi concluída há 18 meses. Apesar da investigação ter sido iniciada pelo antecessor de Francisco, Bento XVI, se as conclusões são duvidosas, como alguns especulam, elas poderiam colocar um papa populista contra um templo popular.

No mínimo, muitos aqui temem, a decisão do Vaticano poderia minar o que se transformou em uma próspera indústria local em torno das alegações. Elas fizeram de Medjugorje um destino religioso enormemente popular, transformando esta aldeia antes pobre de casas rústicas de pedra em uma colmeia de hotéis, restaurantes e lojas de suvenires que atendem mais de 1 milhão de visitantes por ano.

Desde que o papa anunciou em junho que a decisão era iminente, o número de italianos –antes o maior grupo de peregrinos aqui– já caiu pela metade.

"Seja qual for o veredicto, a espera está criando um estado de incerteza para os peregrinos e isso afeta a temporada", disse Sante Frigo, um italiano casado com uma guia de peregrinos em Medjugorje. "Do ponto de vista da cadeia de suprimentos de peregrinação", ele acrescentou, "é uma catástrofe".

Fé à parte, para os moradores de uma cidade que antes sobrevivia com dificuldade de plantações de tabaco e vinhedos, as alegações de aparições foram uma bênção irrefutável.

Milhões de fiéis encontraram consolo espiritual em Medjugorje, com dezenas de relatos de curas milagrosas, conversões e chamados religiosos, à medida que os peregrinos são atraídos para cá pela promessa de proximidade com o divino.

"Todos os cristãos sabem que Deus pode aparecer a qualquer momento", disse Antonio Socci, um jornalista e autor que cobre a Igreja Católica Romana. Mas, ele acrescentou, "experimentar um evento sobrenatural que prossegue aqui e agora" é o que atrai tantos.

"Medjugorje é um imenso fenômeno de massa", disse Socci.

Mesmo assim, as aparições relatadas também alimentaram controvérsia, em grande parte devido a sua duração e regularidade pontual. Apesar de a Igreja ter reconhecido muitas dezenas de aparições da Virgem Maria ao longo da história, raramente essas alegações duraram tanto.

As aparições mais longas são aquelas que teriam ocorrido em Laus, França, de 1664 a 1718, quando Maria apareceu à freira dominicana Benedicta Rencurel. A Igreja não as aprovou até 2008, 290 anos após a morte de Rencurel.

Os seis jovens que relataram ter visto Maria, em 1981, quando tinham idades que variavam de 10 a 17 anos, são conhecidos como visionários. Três dos seis dizem que, desde então, só tiveram visitas esporádicas. Os céticos se espantam porque, às vezes, os visionários prometeram antecipadamente as aparições.

Aqueles que duvidam acusam os visionários de turvarem a linha entre espiritual e material, ao explorarem comercialmente as aparições, por meio de turnês de palestras e investimentos no setor de turismo local.

"É preciso ter em mente que os visionários têm interesses econômicos aqui", disse um cético, Marco Corvaglia, um professor colegial que narrou em seu blog o que alega ser os conflitos de interesse dos visionários.

Ele diz que começou seu blog devido à preocupação de que milhões estavam sendo enganados pelo poder da sugestão coletiva. As aparições de Medjugorje, acreditam ele e outros céticos, não são nada mais que um "instrumento de manipulação de massa".

Quase todos os seis que alegaram ter visto a Virgem Maria ainda vivem em Medjugorje ou nas proximidades, ao menos durante o verão, a alta temporada de peregrinação. Os moradores dizem que eles pararam de falar para a mídia e que têm se mantido discretos desde que Francisco pareceu rejeitar suas alegações, durante uma homilia matinal em sua residência, em 9 de junho.

Até agora, o Vaticano não assumiu uma posição oficial sobre as aparições. Mas há dois anos, a Congregação para a Doutrina da Fé, que agora está revisando a investigação interna pelo Vaticano, disse aos bispos nos Estados Unidos que os católicos não devem participar de encontros nos quais "a credibilidade dessas aparições sejam dadas como certas", até serem autenticadas de modo definitivo.

Essas orientações foram interpretadas por alguns especialistas em Vaticano como um possível roteiro para o que estava por vir.

O Vaticano disse que as dioceses não devem organizar peregrinações oficiais a Medjugorje. Mas também não impediu os católicos de rezarem ali, e alguns observadores do Vaticano suspeitam que os resultados da investigação podem manter essa distinção, contornando as próprias aparições.

Marinko Sakota, um frade franciscano que é padre da igreja local, São Tiago Maior, disse que Medjugorje é uma experiência profunda que vai além dos visionários.

"Medjugorje é um chamado à conversão, a orar à Nossa Senhora, nada mais", ele disse. "Eu não pergunto por que as aparições duraram tanto; eu pergunto o que aconteceu comigo. Eu mudei ou não?"

O comércio e o turismo que surgiram no local "é apenas consequência; nunca foi a meta", ele disse. Colocando de forma simples, os peregrinos precisavam ser alimentados, abrigados e atendidos.

"Eu gostaria que as coisas fossem mais simples", ele acrescentou, "mas sempre há a natureza humana".

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