Scorsese: "Eu nunca tinha me encontrado com um pontífice"

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02 Dezembro 2016

“Eu fui conquistado pela sua familiaridade, pela sua graça e pelo modo com que lidou com o encontro, aparentemente muito informal. Havia algo no seu rosto e no seu olhar que me fez me sentir imediatamente à vontade.” É assim que Martin Scorsese, em uma entrevista exclusiva à Tv2000, realizada por Fabio Falzone, em colaboração com o Centro Televisivo Vaticano, que foi ao ar nessa quarta-feira à noite, com um especial dedicado ao diretor estadunidense, contou sobre o encontro da manhã de quarta-feira, no Vaticano, com o Papa Francisco.

A reportagem é do sítio do canal italiano Tv2000, 30-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Eu dei ao papa – acrescentou Scorsese – um quadro de Nossa Senhora das Neves, uma pintura em pergaminho, japonesa, do século XVII, venerado clandestinamente pelos cristãos, que originalmente se encontrava em um museu de arte de Nagasaki, e que usamos no filme, não o original, obviamente. E também uma pintura de um artista jesuíta de 1662, agora na casa dos jesuítas. Depois, falamos sobre o filme. E me impressionou muito, porque ele quis dar uma bênção para a minha família e para aqueles que estavam conosco, em particular colocando a mão sobre a cabeça da minha esposa. Tanto ela quanto a minha filha ficaram muito comovidas.”

“Eu tenho 74 anos – continuou Scorsese –, o primeiro papa que eu me lembro era Pio XII. Eu devia ter sete ou oito anos, e depois me lembro de João XXIII, de Paulo VI. Eu estava aqui em Roma quando João Paulo I morreu e João Paulo II foi eleito, mas nunca tinha me encontrado com um pontífice. Esta é a primeira vez.”

Nessa quarta-feira, Scorsese apresentou, no auditório do Pontifício Instituto Oriental, o seu último filme, Silence, sobre os missionários jesuítas no Japão do século XVII: “O papa disse que espera que o projeto traga frutos ao mundo. Depois, eu o olhei e lhe disse, com sua inspiração, Santo Padre. E ele disse: reze por mim”.

“A fé ajuda a superar provações da vida”

“Certamente é uma obsessão, e como poderia não ser? Como poderia a fé não ser uma obsessão, enquanto estamos vivos, enquanto existimos? Eu sempre fui obcecado pelos temas do amor, da compaixão, da fé. Aquela fé que ajuda você a superar as provações da vida.”

“Eu nasci e cresci em um bairro duro, muito difícil”, contou Scorsese. “Os meus pais não eram muito religiosos. Os meus avós eram agricultores do interior siciliano, emigrados para Nova York, analfabetos, e o seu primeiro objetivo na vida era prover à família. Portanto, quando fui introduzido na fé em outro nível, isso ocorreu na antiga catedral de St Patrick, a primeira catedral católica de Nova York. Lá, eu ouvi discursos de compaixão e de amor, de responsabilidade e de obrigações, ouvi discursos semelhantes na família, do meu pai, da minha mãe, dos seus irmãos e irmãs, dos avós. A cultura dos meus avós estava firmemente enraizada no seu pequeno vilarejo na Sicília, sobretudo em termos de moral. Por isso, eu assistia constantemente a discussões em matéria de ética.”

“É claro – concluiu Scorsese –, não sabíamos que o filme seria lançado justamente neste momento histórico. Parece o momento de Deus. Agora mesmo. Há todo esse debate sobre a intolerância religiosa, muito vivo, e ninguém falava disso há seis ou sete anos”.

“O próximo filme? Está em projeto”

“Se eu acho que posso encontrar um projeto para fazer mais um filme? Não sei, De Niro tem um projeto para mim, chama-se ‘The Irish Man’, um belíssimo roteiro. Eu acho que nós podemos entrar em produção – acrescentou Scorsese – perto de maio ou junho do ano que vem.”

Silence? Foram 28 anos. E aconteceu de tudo”

“Eu também perdi muitos atores pelo caminho. Foi uma luta contínua.”

“O motivo principal pelo qual demorei 28 anos para fazer esse filme é que, quando eu li o livro, eu realmente queria fazer um filme, estava realmente entusiasmado, mas não tinha entendido o livro.”

“Eu tentei escrever um roteiro, com o meu amigo Jake – contou Scorsese –, mas emperramos no meio do caminho. Havia coisas no meio, como abstrações, mas eu sabia que havia algo grande lá dentro, eu tinha que chegar lá, visualmente, com as palavras escritas na página. Eu tinha que acompanhar Rodriguez ao longo do seu calvário, entende?, e eu também estava muito fascinado com a história desse homem, desse sacerdote que tinha um grande poder, e me perguntava: como alguém pode ir além de si mesmo, rumo à verdadeira fé? A ideia de levar o mundo da fé universal ao mundo asiático, que tem uma cultura tão diferente... e até que ponto você conhece essa cultura? E como a aborda? De acordo com os parâmetros ocidentais? Esse é o conflito que se produz na história. mas eu não tinha ideia de como realizá-lo. Isso levou anos, e depois todas as questões legais, tantas pessoas envolvidas, e muitas despesas no meio. Eu também perdi muitos atores pelo caminho, mas eu sabia que sempre devia voltar a esse ponto, era como uma peregrinação interior para mim. Para todos nós, de fato, o cinegrafista, o montador. Para nós foi uma luta contínua, dia após dia, e isso seguiu em frente por dois anos e meio. E depois os problemas financeiros, problemas de saúde, problemas familiares, todos os tipos de problemas. E cada vez que estávamos prontos para filmar, acontecia algo que nos bloqueava. Ou sempre que estávamos prontos para montar uma cena, acontecia algo que nos bloqueava.”

“Eu não sei se consegui – continuou Scorsese –, mas eu sentia que devia absolutamente fazer isso. E principalmente para mim, agora, que tenho 74 anos, e tenho uma filha de 17, eu entendi que há muito mais de espiritual na nossa vida, de existencial, do que a dimensão material.”

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