Religião e homossexualidade. Entrevista especial com Thomas Hanks

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21 Mai 2007

Durante a semana passada, o teólogo estadunidense radicado na Argentina, Thomas Hanks, esteve na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, para participar de uma série de palestras, nas quais discutiu questões como Bíblia, homofobia e homossexualidade. A IHU On-Line foi até a EST e entrevistou Hanks pessoalmente. Na entrevista a seguir, o teólogo fala sobre suas experiências em relação a sua vida antes e depois de anunciar que é homossexual. O missionário trata ainda das relações entre Bíblia e homossexualismo e as contradições nos discursos utilizados pela Igreja e as passagens bíblicas, no que se refere à opção sexual.

Thomas Dixon Hanks foi ordenado pela Igreja Presbiteriana de St. Louis Presbytery, nos Estados Unidos. Há 44 anos saiu de seu país natal e seguiu em missão evangélica pela América Latina. Radicado na Argentina desde 1986, trabalha hoje com pacientes com AIDS e com grupos de minorias sexuais. É conhecido por sua pesquisa na área de Teologia Bíblica, tendo trabalhado profundadamente a questão da homossexualidade a partir da pesquisa bíblica. É autor de artigos publicados, em geral nos Estados Unidos e Europa. Publicou o livro “The subversive gospel” (Pilgrim Press, 2001) e contribuiu, com um ensaio, para o recém-publicado “Queer Bible commentary” (SCM Press, 2006) organizado por Deryn Guest, Robert E. Goss, Mona West e Thomas Bohache. É também coordenador do Otras Ovejas - Ministerios Multiculturales con Minorías Sexuales.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o levou a sair dos Estados Unidos e vir para a América Latina?

Thomas Hanks – Eu parti dos Estados Unidos em 1963 para ser missionário na Costa Rica. Vivi em diversos países da América Latina e, há 13 anos, moro em Buenos Aires, na Argentina. Vim com a missão de ser professor e ensinar a Bíblia em um seminário evangélico chamado Seminário Bíblico Latino-Americano (1). Trata-se de uma instituição ecumênica que tinha influência das teorias da Teologia da Libertação. Já em Buenos Aires, comecei a aceitar-me e assumi minha condição de gay. Assim, foi neste país que comecei um ministério, de origens cristãs, que segue lutando para conciliar a fé cristã das pessoas com sua orientação sexual.

IHU On-Line – Como o senhor relaciona Bíblia e homossexualismo?

Thomas Hanks – Há alguns anos, quando saiu uma publicação presbiteriana sobre educação sexual, dei-me conta da importância de mudar a pergunta central sobre homossexualismo. A principal pergunta é: "Quais as causas da homossexualidade?". Podem-se passar décadas ou séculos estudando a sexualidade e a homossexualidade, sem que se chegue a uma conclusão definitiva sobre esses temas.

Eu tenho uma filha que é canhota, e nos perguntamos quais são as causas que faz com que alguns prefiram a mão esquerda, ou seja, há sempre novas teorias e idéias sobre a heterossexualidade, e, muito mais, sobre a homossexualidade. Os estudos e as pesquisas podem durar para sempre, porque estamos focando nos danos que a sociedade causa às minorias.

No ministério do qual faço parte, estamos tentando mudar a pergunta central para afirmar que o problema não é com as minorias perseguidas por essa sociedade. Assim, a pergunta se renova e muda para a seguinte: “Qual é o problema com a pessoa que não aceita uma outra pessoas que tem uma opção sexual diferente da sua?”. O problema não é debater sobre as causas homossexuais. O problema está na maioria, que assim tem mais poder e oprime as minorias.

Então, essa maioria utiliza a Bíblia como forma de obter respostas mais fáceis e rápidas para as questões envolvendo os homossexuais. Essa interpretação causa inúmeros danos e prejuízos aos homossexuais. E esta interpretação errônea da Bíblia, seja de qualquer versículo ou capítulo, causa dano às minorias sexuais que não reuniam educação válida, como na Bíblia. Por isso, mudar a pergunta é fundamental para que possamos interpretar melhor a Bíblia, e, com isso, entender que a opção dos homossexuais não é pecado.

IHU On-Line – A partir do momento em que o senhor divulgou sua opção sexual, sentiu uma diferença na forma como era tratado, em relação à sua vida anterior?

Thomas Hanks – Sim. Trabalhei com uma missão evangélica que não permitia a separação, muito menos o divórcio e, claro, nem ao menos contemplava um missionário gay. Então, quando eu e minha esposa decidimos nos separar, depois de mais de 25 anos de casamento e de trabalho como missionários, tivemos que apresentar uma carta de renúncia à missão. Cada um entregou uma carta. Na minha carta, eu tive que me considerar responsável pela separação e afirmar que esta decisão não tinha sido tomada por uma capricho dela. Nós havíamos lutado durante todo o matrimônio sabendo que eu era gay, querendo me "curar", mas sem resultados. Então, na carta de renúncia, mencionei minha orientação sexual. Foi depois disso que aceitaram a renúncia. Uma minoria da missão da qual eu participava me apoiou. Sempre que se toma esse tipo de atitude de forma oficial, é possível seguir como missionário. Então, eu criei um ministério das minorias sexuais em Buenos Aires, partindo desta experiência que tive.

Durante os anos em que não assumi oficialmente minha orientação sexual , eu não sofri opressão de forma aberta. Depois que divulguei este fato, perdi alguns amigos, fui proibido de entrar em alguns lugares, como a biblioteca da Universidade de Cambridge. Além disso, o bispo da minha Igreja proibiu que eu ensinasse literatura em suas catedrais. Disseram-me, também, que eu não estava preparado para ser professor de Bíblia, entre outras situações que precisei enfrentar. Isso tudo porque consideram o homossexualismo um pecado, um capricho.

IHU On-Line – Então, para o senhor, é possível pensarmos num real convívio do homossexualismo com o cristianismo?

Thomas Hanks – Sim. Tanto que temos grupos ecumênicos de pessoas homossexuais no Conesul que promovem palestras, conferências etc. Não entendemos como o homossexualismo foi tratado, durante tanto tempo, como doença e como pecado. Eu entrei no ministério muito convencido de que os ministérios tradicionais poderiam curar a minha “doença”. Até que um dia um obreiro leu uma carta de um estudante que falava que seu melhor amigo era homossexual e aconselhou-o a se casar com uma mulher, para que “isso passasse”. Esse estudante queria ajuda espiritual, pois, a partir de seu conselho, ele se casou e logo se divorciou, ficou com depressão por não saber o que fazer com sua orientação sexual e, finalmente, cometeu suicídio. O ministério em que trabalho deseja encontrar uma solução melhor para os que ainda não estão certos de suas opção sexual, pois sabemos que muitos estão encontrando essa solução apenas no suicídio, e isto sim é pecado.

IHU On-Line – Quais são as contradições que o senhor encontra entre os discursos proferidos pelas igrejas, contra o homossexualismo, e o discurso da Bíblia?

Thomas Hanks – Minha conclusão é de que a Bíblia não tem nada contra as pessoas que têm uma orientação sexual diferente do heterossexualismo. O que temos é um histórico de má interpretação de alguns textos. O caso clássico é o texto sobre o que ocorreu na cidade de Sodoma, a qual Deus castiga por todos os pecados nela cometidos. Um dos pecados aconteceu quando dois anjos foram enviados por Deus à cidade. Quando chegaram, alguns barões da cidade saíram às ruas para encontrar os anjos e violá-los sexualmente. Por séculos, a sociedade e seus governos tomaram este texto como base para pena de morte para sodomitas, que entenderam ser uma passagem contra os homossexuais. Mas essa passagem não serve para hoje julgarmos duas pessoas homossexuais que se amam e querem unir suas vidas em amor e justiça, pois isso não é um caso de violação de anjos. O texto fala de uma situação e estamos aplicando em outra que não tem relação com ela.

Meu próprio estado, Missouri, nos Estados Unidos, é contra a sodomia. Assim, eu torno-me fundamentalista e tomo o texto literalmente, entendendo de que se trata de uma lei contra a violação de anjos e não contra homossexuais. No entanto, eles aplicam o texto aos homossexuais que querem viver juntos e condena-os ao encarceramento. Isso é resultado de um abuso à Bíblia. Por isso, a homofobia é um dano à interpretação dela.

IHU On-Line – A partir de seus estudos, como podemos educar as novas gerações e incutir em nossa cultura que o homossexualismo não é pecado nem doença, como o senhor afirma em alguns textos?

Thomas Hanks – Acredito que é necessário passar uma boa educação científica e também por uma boa interpretação da Bíblia. Há vários teólogos que têm utilizado textos bíblicos contra as pessoas em situações mais frágeis, como os homossexuais. O dano dessa interpretação é o preconceito.

IHU On-Line – O senhor acredita numa Teologia Gay?

Thomas Hanks – Há muitas teologias que falam sobre homossexualismo. E neste livro, "Queer Bible commentary", com o qual contribuo, há perspectivas teológicas muito diversas. Inclusive, alguns capítulos me assustam. Há uma diversidade de teologias, algumas que desejam que a igreja deva seguir um novo caminho, outras condenam as minorias sexuais, e assim por diante. Por isso, não penso que deva ser criado uma Teologia Gay, mas desejo que a igreja e a sociedade respeitem essa opção, sem utilizar a Bíblia com interpretações mal fundamentadas.

Notas:

(1) Localizado em San José da Costa Rica.

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