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Águas do Aqüífero Guarani: um recurso nobre. Entrevista especial com o geólogo Ricardo Hirata

Ricardo Hirata, professor no Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do Instituto de Geociências da USP participou da 58ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorreu de 16 a 21 de julho de 2006, em Florianópolis, apresentando o tema Aqüífero Guarani: oportunidades e desafios do grande manancial do Conesul. E foi sobre esse assunto que a IHU On-Line realizou com ele uma entrevista por e-mail.

Ricardo Hirata é geólogo formado pela UNESP. Desenvolveu o seu doutorado e mestrado na USP e pós-doutoramento na Universidade de Waterloo (Canadá). É consultor da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) e da UNESCO e membro assessor em águas subterrâneas do Banco Mundial (GW-Mate). Com 21 anos de experiência, tem trabalhado intensivamente com recursos hídricos e águas subterrâneas no Brasil e em mais de 20 países, inclusive ministrando cursos profissionais.

Confira a íntegra da entrevista:

IHU On-Line - O que o senhor destaca no debate sobre o Aqüífero Guarani, realizado na 58ª reunião da SBPC? O que procurou enfatizar ao abordar esse tema?

Ricardo Hirata - A SBPC este ano propôs uma nova abordagem para os grupos de discussão e a interação com os congressistas. Criou os Grupos de Trabalho (GT). Estes tiveram dois momentos: um primeiro, onde se reuniram especialistas sobre um tema, que passaram o dia todo discutindo e preparando um documento que seria, no dia seguinte, apresentado abertamente aos congressistas. O GT Aqüífero Guarani teve esta dinâmica e foram seus membros: Gerôncio Rocha (Departamento de Águas e Energia Elétrica); Julio Thadeu Kettelhut (Secretaria dos Recursos Hídricos/Ministério do Meio Ambiente; Antonio Eduardo Lanna (UFRGS); José Luiz Albuquerque Filho (Instituto de Pesquisas Tecnológicas, IPT); Luiz Fernando Scheibe (Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFSC), além de mim, que atuei também como coordenador. O Grupo de Trabalho do Aqüífero Guarani teve 3 objetivos: a) divulgar a importância das águas subterrâneas e do próprio Guarani para os participantes do evento; b) mostrar os problemas, potencialidades e, sobretudo, as oportunidades e os desafios que o Aqüífero apresenta; c) discutir e receber contribuições dos participantes a estes pontos levantados, para aprimorar o documento.

É importante que se ressalte que o tema águas subterrâneas, embora seja importantíssimo para a sociedade brasileira nunca teve tanto destaque na SBPC, como neste último evento.

IHU On-Line - Qual a importância hoje da maior reserva de água subterrânea do mundo?

Ricardo Hirata - Esse grande manancial de água subterrânea tem posição política, social e geográfica privilegiada, pois ocorre nos estados de grande concentração do PIB brasileiro, entre eles, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, além do Paraguai, Uruguai e Argentina. O Aqüífero apresenta uma gigantesca disponibilidade hídrica (95%), excelente qualidade química natural (geralmente não requerendo tratamento), custo de obtenção menor que outras fontes de água, menos susceptibilidade a longos períodos de seca, sendo estratégico nos cenários futuros de variações climáticas. É, também, menos vulnerável à contaminação antrópica que outras fontes de água. Então, por suas condições de ocorrência e padrão de qualidade, as águas subterrâneas do Aqüífero Guarani devem ser consideradas um recurso nobre.

IHU On-Line - Qual é a situação do Aqüífero Guarani atualmente? Quais os principais riscos que ele corre e que medidas precisam ser tomadas no sentido de preservá-lo?

Ricardo Hirata - O abastecimento das populações é (e tende a ser) o principal uso. Esse uso preferencial decorre das vantagens comparativas com relação às águas superficiais, entre elas a qualidade natural da água e maior proteção frente aos agentes contaminantes; a quantidade de água assegurada ao longo do tempo, sem variação por causas climáticas; a flexibilidade locacional e de escalonamento das obras (poços) com a evolução da demanda por água; a maior economicidade dos sistemas de abastecimento na maioria dos casos. Graças às suas altas temperaturas, a água do Aqüífero Guarani vem sendo utilizada para recreação e lazer, com a perfuração de novos poços profundos para tal fim. São balneários situados em cidades ou clubes de campo, distantes de praias ou rios limpos. Está em andamento o Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Aqüífero Guarani, uma iniciativa conjunta da Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF) e da Organização dos Estados Americanos (OEA). Os estudos visam à implantação coordenada de uma estrutura técnica e institucional com vistas à proteção e gestão do Aqüífero.

IHU On-Line - Como está a situação da água potável no Planeta? O senhor teria condições de fornecer alguns dados, no sentido de traçar esse panorama?

Ricardo Hirata - É estranho dizer da falta de água em um planeta que um dia foi chamado de azul, por justamente ter muita água. A questão que se coloca é que nem toda a água do Planeta é utilizável como água potável, a maior parte dela é salgada (97,5%), pois faz parte dos oceanos. Se considerarmos apenas a água doce e líquida, temos o dado de que 98% é água subterrânea e 1% é aquela que vemos nos rios e lagos. Temos água. Se apenas dividirmos toda esta água doce (superficial e subterrânea) entre a população teríamos 6.500 milhões de litros por pessoa por ano (incluindo todos os usos). Isso é 6,5 vezes mais que o necessário para manter um bom nível de vida. Mas temos aí alguns problemas: a) a água não está uniformemente distribuída no planeta, há regiões desertas, por exemplo, e outras onde a chuva é abundante; b) mesmo em áreas onde há água, o sistema público de distribuição de água e saneamento é precário para muita gente, sobretudo em cidades. Dois bilhões de pessoas não têm acesso a água potável e 2,4 bilhões não têm sistema de saneamento adequado. Respondendo a sua pergunta, falta investimento em saneamento e falta incluir água subterrânea, que representa a grande caixa de água do Planeta, nas políticas de saneamento.

IHU On-Line - Como está a questão da união entre os países do Mercosul, que vêm somando esforços políticos e econômicos para estabelecer um sistema que gerencie a preservação e utilização sustentável do Aqüífero Guarani? O que é fundamental que seja feito nesse sentido?

Ricardo Hirata - O Aqüífero Guarani é uma oportunidade real desta integração. Ele ocorre nos quatro países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e o seu manejo sustentável passa por conhecermos melhor este manancial e por um acordo entre todos os envolvidos de como explorá-lo corretamente. Ademais, ele é o maior manancial de água doce do continente, localizado em uma área de grande demanda por água, e o seu potencial poderia impulsionar o desenvolvimento integrado desta região. É interessante ressaltar a vantagem competitiva da água subterrânea, comparativamente aos outros mananciais: ela é mais barata de se obter e apresenta geralmente boa qualidade natural. Toda água mineral é subterrânea. Direto do poço para o consumo. Figurativamente, o Aqüífero mostra uma integração natural, compartilhando água fraternalmente entre os países, que deveria ser copiado pelos usuários.

Quais as perspectivas para a criação de uma legislação que permita o uso correto das águas subterrâneas? O que deveria fazer parte de uma lei como essa?

Ricardo Hirata - Temos aí um grande desafio. As águas subterrâneas no Brasil são de responsabilidade dos estados. O mesmo ocorre entre as províncias argentinas. Nos estados onde a legislação ambiental está mais estruturada, como São Paulo, por exemplo, temos ainda a participação dos Comitês de Bacias. Isso tudo é muito positivo, pois permite o gerenciamento mais democrático do recurso, mas obviamente dificulta tal gestão. Não há, portanto, a possibilidade de termos uma lei transnacional, mas sim acordos de cooperação entre os países com objetivo ao bem estar comum, a partir deste recurso compartido. Participar todos os países, e seus atores de forma real e efetiva, é um grande desafio para nós, técnicos e políticos.

IHU On-Line - Como foi a discussão na SBPC sobre as grandes questões sociais, econômicas, políticas e tecnológicas que afetam o País como um todo? O que de mais importante, nesse sentido, o senhor leva do encontro?

Ricardo Hirata - Participar da SBPC é uma festa democrática do conhecimento. Um ambiente propício para as discussões devido à pluralidade dos participantes. As geociências, e particularmente a água subterrânea, têm participado pouco deste fórum. É a primeira vez em uma reunião anual da Sociedade que temos o destaque à água subterrânea. Neste caso, a SBPC está de parabéns por abrir um espaço para este importante recurso, que hoje abastece de 35 a 40% da população brasileira e mais de 2 bilhões de pessoas no mundo inteiro.

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