Grande sertão: veredas, o retrato de uma sociedade atual. Entrevista especial com Willi Bolle

Por: Ricardo Machado | 03 Agosto 2019

Willi Bolle nasceu na Alemanha e com 22 anos veio ao Brasil para conhecer Guimarães Rosa, o autor do livro que mudaria sua vida para sempre, Grande sertão: veredas. Em mais de uma entrevista, Bolle conta do seu primeiro encontro com o escritor mineiro e de como ele havia ficado surpreso com o fato daquele jovem alemão vestir uma camisa preta, estampada com folhas de palmeiras e imagens dos personagens de sua obra, reproduzindo a capa de seu livro publicado na Europa. Mas a relação com o livro não para por aí. “Quando comecei a estudar o Grande sertão: veredas – eu tinha 22 anos e acabara de chegar no Brasil – me deu a ideia espontânea de forrar as paredes do meu quarto (de trabalho e de dormir) com as cerca de 500 páginas do romance”, conta Willi Bolle. “Como a composição do livro é propositadamente difícil e labiríntica, eu esperava que, por meio desse convívio intenso, eu poderia de repente lançar o olhar sobre uma determinada passagem do texto, que me proporcionaria um relâmpago ou um insight de compreensão”, complementa.

Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Bolle, além de retomar questões centrais da obra rosiana, estabelece um diálogo com outros importantes autores brasileiros. “Enquanto Gilberto Freyre usa o símbolo de um entrelaçamento harmonioso ( & ) entre senhores e escravos, Guimarães Rosa, através dos dois pontos ( : ) acentua o antagonismo entre os donos de territórios e casas ‘grandes’ e os que moram em casebres nas ‘veredas’”, explica. Mais do que isso, Grande sertão: veredas versa sobre a ausência de diálogo entre os ricos e os pobres. “Não se trata da diferença entre um Brasil sertanejo e um Brasil urbano; basta lembrar que nas favelas das grandes cidades esses ‘dois Brasis’ se misturam. Trata-se da falta de diálogo entre a classe dominante e as classes populares, que constitui um sério obstáculo para a verdadeira emancipação do país”, ressalta.

Se o gosto pela obra de Guimarães pode parecer diletantismo, nada mais enganoso. “Resumindo Grande sertão: veredas em uma frase, pode se dizer que esse romance descreve bandos de criminosos exercendo o poder no planalto central do país. Ou seja: É o retrato de uma sociedade na qual o crime faz parte do sistema político e é praticado em ampla escala”, completa.

Stefan Wilhelm Bolle (Foto: frame do vídeo)

Stefan Wilhelm Bolle ou, simplesmente, Willi Bolle, como gosta de ser chamado, é professor titular de Literatura na Universidade de São Paulo - USP. Fez o doutorado em Literatura Brasileira, na Universidade de Bochum/Alemanha), com uma tese sobre a técnica narrativa de Guimarães Rosa, e a livre-docência em Literatura Alemã na USP com uma tese sobre Walter Benjamin e a cultura da República de Weimar. É também organizador da edição brasileira de Passagens, de Walter Benjamin (Belo Horizonte e São Paulo, EdUFMG e Imprensa Oficial, 2006) e (co-)organizador dos dois volumes Cinco séculos de relações brasileiras e alemãs e Relações entre Brasil e Alemanha na época contemporânea (edições bilíngues: alemão/português; Santos, Editora Brasileira, 2013 e 2015).

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como é viver dentro de um livro? Na verdade, não um livro qualquer, mas Grande sertão: veredas...

Willi Bolle – Quando comecei a estudar o Grande sertão: veredas – eu tinha 22 anos e acabara de chegar no Brasil – me deu a ideia espontânea de forrar as paredes do meu quarto (de trabalho e de dormir) com as cerca de 500 páginas do romance.

Era o meu método de conviver intensamente com o livro, dia e noite, mergulhar na atmosfera dele e deixar me impregnar pela energia que ele irradiava.

Como a composição do livro é propositadamente difícil e labiríntica, eu esperava que, por meio desse convívio intenso, eu poderia de repente lançar o olhar sobre uma determinada passagem do texto, que me proporcionaria um relâmpago ou um insight de compreensão.

Retomei esse método muitos anos depois, durante um estágio de pesquisa na Universidade de Stanford, onde redigi a primeira versão do livro grandesertão.br (São Paulo: Editora 34, 2004), ou seja, a minha interpretação do romance de Guimarães Rosa como um retrato do Brasil.

IHU On-Line – Em seu livro, grandesertão.br, o senhor descreve um Brasil que aparece de forma criptografada na obra rosiana. Como a prosa poética de Guimarães, em Grande sertão: veredas, dialoga com outros demiurgos do Brasil, de Euclides da Cunha a Gilberto Freyre?

Willi Bolle – O retrato do Brasil escrito por Guimarães Rosa aparece no seu romance de forma criptografada na medida em que uma pergunta-desafio como a de Zé Bebelo – “Agora quem é que é o Chefe?” – não se limita ao enredo dessa história de jagunços, mas estimula o leitor a transferir reflexão sobre essa pergunta para datas-chave da história do país, quando houve mudanças de regime político, como em 1822 [1], 1889 [2], 1930 [3], 1945 [4] e 1964 [5].

Entre as linhas, esse romance, publicado em 1956, dialoga com os principais ensaios sobre a história, a política e a sociedade brasileiras.

Grande sertão: veredas pode ser considerado uma reescrita crítica d’Os Sertões [1902] (São Paulo: Editora Sesc, 2016). Destaco aqui apenas uma das diferenças marcantes. Enquanto Euclides da Cunha [6] raramente cede a palavra aos sertanejos, o narrador rosiano é um sertanejo: o jagunço letrado Riobaldo, que mergulha profundamente no universo linguístico, mental e cultural dos habitantes do sertão.

Quanto à relação de Grande sertão: veredas com Casa-grande & senzala [1933] (São Paulo: Global, 2012), nota-se um paralelismo entre os dois títulos, em termos semânticos, sonoros e métricos. Mas existe uma diferença fundamental: enquanto Gilberto Freyre [7] usa o símbolo de um entrelaçamento harmonioso ( & ) entre senhores e escravos, Guimarães Rosa, através dos dois pontos ( : ) acentua o antagonismo entre os donos de territórios e casas “grandes” e os que moram em casebres nas “veredas”.

IHU On-Line – O que significa escrever, no caso de Guimarães Rosa, não exatamente sobre o sertão, mas como o sertão?

Willi Bolle – Escrever como o sertão significa, no caso de Grande sertão: veredas, escrever de forma labiríntica. O romance de Guimarães Rosa é um fluxo verbal de cerca de quinhentas páginas, que tende para o infinito. É com esse signo que a obra termina – ou continua...

O labirinto das andanças do jagunço Riobaldo se entrelaça com o labirinto de sua narração, que segue os movimentos espontâneos da memória. É a forma como um cérebro trabalha.

Vale lembrar que, na antiguidade grega, o labirinto era citado como metáfora da aprendizagem. E na nossa era da informática, o labirinto ressurgiu em forma da rede de links que formam um hipertexto.

Esses dados podem ser relacionados com a seguinte caracterização da língua húngara por Guimarães Rosa:

“É uma língua in opere, fabulosamente em movimento, toda possibilidades [...].

Ela permite todas as manipulações da gênese inventiva [...] como um painel de mesa telefônica, para os engates ad libitum.”

Essa passagem, que ele publicou no mesmo ano (1956) que Grande sertão: veredas, descreve de modo perfeito a forma de composição do seu romance.

IHU On-Line – De que forma a linguagem rosiana é uma espécie de “volta por cima” da linguagem dos letrados? Como, com isso, ele valoriza um Brasil sertanejo em detrimento de um Brasil urbano?

Willi Bolle – Um desafio que se coloca para todos os escritores que se propõem retratar e representar o povo é a escolha do tipo de linguagem. No caso da literatura brasileira, esse problema é particularmente agudo.

A forma de composição de Grande sertão: veredas tem uma razão estratégica.

A situação narrativa e a figura do jagunço letrado são construções irônicas. Pois onde já se viu um doutor, um homem culto da cidade, disposto a escutar a fala de um “simples sertanejo” durante um tempo equivalente a 500 páginas?

Com isso, o escritor chama a atenção para uma falta de diálogo entre as classes, no Brasil real: entre os letrados, ou seja, os que se comunicam na norma culta, e os que falam a língua do povo.

Não se trata da diferença entre um Brasil sertanejo e um Brasil urbano; basta lembrar que nas favelas das grandes cidades esses “dois Brasis” se misturam. Trata-se da falta de diálogo entre a classe dominante e as classes populares, que constitui um sério obstáculo para a verdadeira emancipação do país. O projeto literário e político de Guimarães Rosa visa enfrentar esse problema com a proposta de reinventar a nossa língua.

Grande sertão: veredas é um laboratório de diálogo social que, dessa forma, ainda não existe na nossa realidade.

Em cada linha do romance podemos sentir uma confiança no poder da língua, isto é, na capacidade de cada membro da comunidade dos falantes de cooperar na construção da língua como um bem comum. A proposta do escritor Guimarães Rosa é que os brasileiros reinventem a sua língua de uma forma emancipada.

IHU On-Line – Qual a importância de ler e reler a obra de Guimarães Rosa no Brasil atual?

Willi Bolle – Resumindo Grande sertão: veredas em uma frase, pode se dizer que esse romance descreve bandos de criminosos exercendo o poder no planalto central do país. Ou seja: É o retrato de uma sociedade na qual o crime faz parte do sistema político e é praticado em ampla escala.

A obra de Guimarães Rosa nos proporciona um profundo mergulho no “sistema jagunço”. Riobaldo transmite narrações idealizadas e ao mesmo tempo desconstrói mitificações de chefes de jagunços; ele relata a sua iniciação à jagunçagem; as lutas entre os bandos de jagunços e contra os soldados do Governo; refere os discursos de legitimação da guerra no sertão; e mostra a relação entre o sistema-jagunço e a pobreza generalizada.

Finalmente, com a sua ascensão a chefe, o pactário Riobaldo torna-se um poderoso latifundiário, protegido por jagunços.

Um traço original e fecundo do retrato do Brasil apresentado em Grande sertão: veredas é ele não ser construído a partir de falas de boas intenções, mas a partir do Mal, por meio do discurso de um protagonista-narrador que fez um pacto com o Diabo, ou seja, com o “Pai da Mentira”.

Assim, por exemplo, Riobaldo ironiza e desmascara a “fraseação” do político oportunista e candidato a deputado Zé Bebelo, quando este chefiou o bando. Mas quando Riobaldo assume o comando, percebemos que ele próprio usa o mesmo tipo de discurso demagógico.

Com tudo isso, o escritor Guimarães Rosa aguça a nossa percepção para as “formas do falso” nos discursos e na retórica que circulam no espaço público, revelando como essas formas são forjadas.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Willi Bolle – Em 2004 elaborei com um grupo de alunos da Universidade de São Paulo - USP uma adaptação teatral de um episódio de Grande sertão: veredas que motiva Riobaldo a fazer o pacto com o Diabo: o encontro do bando dos jagunços com os “catrumanos”, os sertanejos que vivem em extrema miséria, e com o impiedoso latifundiário seô Habão.

Com o nome “Atores da violência – atores do diálogo”, apresentamos essa adaptação teatral em diversos lugares do Brasil, e também na França e na Alemanha.

Essa experiência bem-sucedida tornou-se o tema da dissertação de mestrado (2011) de uma das participantes, Maira Fanton Dalalio.

Uma outra boa experiência inspirada pelo romance Grande sertão: veredas tem sido a organização, por uma ONG do município de Arinos-MG, do Caminho do Sertão. Trata-se de uma caminhada coletiva “sócio-eco-literária” de sete dias, que ocorre anualmente desde 2014, na segunda semana de julho, saindo do assentamento de Sagarana, atravessando o rio Urucuia, e chegando até o Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

Eu participei dessa caminhada em julho de 2017, e o fato que mais me impressionou foi a existência de uma escola no lugarejo Vão-dos-Buracos, na Serra das Araras, com um bem organizado Cantinho de Leitura.

Foi lá que encontrei a professora Rosa Amélia Pereira da Silva, autora do livro Travessias literárias em perspectiva interacionista (Teoria e Prática. 1. ed. Arinos: Autor, 2016), que realiza nas escolas da região cirandas de leitura de textos de Guimarães Rosa.

Essas adaptações teatrais, caminhadas coletivas e diálogos inspirados pela obra rosiana redespertam algo que o Brasil já teve, mas perdeu nas últimas décadas e precisa resgatar: a paixão pela educação.

 

Notas: 

[1] Independência do Brasil: é um processo que se estende de 1821 a 1825 e coloca em violenta oposição o Reino do Brasil e o Reino de Portugal, dentro do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. As Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, instaladas em 1820, como uma consequência da Revolução Liberal do Porto, tomam decisões, a partir de 1821, que tinham como objetivo reduzir novamente o Brasil ao seu antigo estatuto colonial. Oficialmente, a data comemorada para independência do Brasil é a de 7 de setembro de 1822, em que ocorreu o chamado Grito do Ipiranga, às margens do riacho Ipiranga (atual cidade de São Paulo). Em 12 de outubro de 1822, o príncipe foi proclamado imperador pelo nome de Pedro I e o país leva o nome de Império do Brasil. (Nota da IHU On-Line)

[2] Proclamação da República Brasileira: foi um golpe de Estado político-militar, ocorrido em 15 de novembro de 1889, que instaurou a forma republicana presidencialista de governo no Brasil, encerrando a monarquia constitucional parlamentarista do Império e, por conseguinte, destituindo o então chefe de estado, imperador D. Pedro II, que em seguida recebeu ordens de partir para o exílio na Europa. A proclamação ocorreu na Praça da Aclamação (atual Praça da República), na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Manuel Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador e assumiu o poder no país, instituindo um governo provisório republicano, que se tornaria a Primeira República Brasileira. (Nota da IHU On-Line)

[3] Revolução de 1930: movimento armado, liderado pelos estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que culminou com um golpe de Estado, chamado “Golpe de 1930”, que depôs o presidente da república, Washington Luís, em 24 de outubro, e impediu a posse do presidente eleito, Júlio Prestes, e pôs fim à Primeira República. (Nota da IHU On-Line)

[4] Estado Novo: período autoritário da história do Brasil, que durou de 1937 a 1945. Foi instaurado por um golpe de Estado que garantiu a continuidade de Getúlio Vargas à frente do governo central, recebendo apoio de importantes lideranças políticas e militares. (Nota da IHU On-Line)

[5] Golpe civil-militar de 1964: movimento deflagrado em 1º de abril de 1964. Os militares brasileiros, apoiados pela pressão internacional anticomunista liderada e financiada pelos Estados Unidos, desencadearam a Operação Brother Sam, que garantiu a execução do golpe, que destituiu do poder o presidente João Goulart, o Jango. Em seu lugar, os militares assumiram o poder e se mantiveram governando o país entre os anos de 1964 e 1985. Sobre a ditadura de 1964 e o regime militar, o IHU publicou o 4º número dos Cadernos IHU em formação, intitulado Ditadura 1964. A memória do regime militar. Confira, também, as edições nº 96 da IHU On-Line, intitulada O regime militar: a economia, a igreja, a imprensa e o imaginário, de 12 de abril de 2004; nº 95, de 5 de abril de 2005, 1964 – 2004: hora de passar o Brasil a limpo; nº 437, de 13 de março de 2014, Um golpe civil-militar. Impactos, (des)caminhos, processos; e nº 439, de 31 de março de 2014, Brasil, a construção interrompida – Impactos e consequências do golpe de 1964. (Nota da IHU On-Line)

[6] Euclides da Cunha (1866-1909): engenheiro, escritor e ensaísta brasileiro. Entre suas obras, além de Os Sertões (1902), destacam-se Contrastes e confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À margem da história (1909), a conferência Castro Alves e seu tempo (1907), proferida no Centro Acadêmico XI de Agosto (Faculdade de Direito), de São Paulo, e as obras póstumas Canudos: diário de uma expedição (1939) e Caderneta de campo (1975). Confira a edição 317 da IHU On-Line, de 30-11-2009, intitulada Euclides da Cunha e Celso Furtado. Demiurgos do Brasil. (Nota da IHU On-Line)

[7] Gilberto Freyre (1900-1987): escritor, professor, conferencista e deputado federal. Colaborou em revistas e jornais brasileiros. Foi professor convidado da Universidade de Stanford (EUA). Recebeu vários prêmios por sua obra, entre os quais, em 1967, o prêmio Aspen, do Instituto Aspen de Estudos Humanísticos (EUA), e o Prêmio Internacional La Madoninna, em 1969. Entre seus livros, destaca-se Casa grande & Senzala e Sobrados e Mocambos. Sobre Freyre, confira o Cadernos IHU nº 6, de 2004, intitulado Gilberto Freyre: da Casa-Grande ao Sobrado. Gênese e Dissolução do Patriarcalismo Escravista no Brasil. Algumas Considerações. (Nota da IHU On-Line)

 

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