O lugar das mulheres no pontificado de Francisco. Entrevista especial com Mary Hunt

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Por: Ricardo Machado. Edição: Patricia Fachin | Tradução: Ricardo Machado | 08 Junho 2018

“Será muito mais difícil trabalhar o tema das mulheres durante o pontificado de Francisco do que foi antes, porque ele aparece como uma abertura ao mundo feminino, mas, de fato, não é”, adverte a teóloga feminista Mary Hunt na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line, durante sua participação no XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, no qual ministrou a conferência O lugar das Mulheres na Igreja: possibilidades e limites na Igreja hoje, no dia 23-05-2017. Na avaliação dela, a proposta de que mulheres atuem como diaconisas “pode parecer uma coisa boa, mas nessa possibilidade está implícita uma série de restrições, então é mais do mesmo”.

Segundo ela, a “única importância” de um sacerdócio feminino “é o poder”. Entretanto, esclarece, “o poder deve ser compartilhado e é nesse sentido que não sou a favor da ordenação de mulheres, porque não sou a favor da ordenação de ninguém. Sou a favor de um discipulado de iguais no qual imaginamos e construímos outros modelos mais adequados às necessidades das pessoas. Não vejo o clericalismo com mulheres como um avanço, um passo adiante”.

Para a teóloga, o papa Francisco tem abordado melhor as questões relacionadas aos gays, ao passo que não vê “com clareza” a situação das mulheres. “Nunca se ouviu falar que ele tenha se reunido com uma lésbica ou uma família de lésbicas para saber sobre suas realidades, tampouco com as monjas norte-americanas, que têm muitos problemas com o Vaticano. É claro que houve vários problemas que foram atenuados pelo papa Francisco, mas não estou convencida de que tenha mudado muito as relações de poder entre o Vaticano e as congregações religiosas”, pontua.

Mary Hunt frisa ainda que as mulheres “não buscam um olhar feminino” na Igreja, mas antes “uma visada feminista que significa uma análise e um compromisso com igualdade de gênero, raça, salários, com a preocupação com o meio ambiente”. E conclui: “Isso é uma postura feminista que está incluída em todo o pastoral e o teológico e não é uma coisa nova. A ideia de feminino é uma outra maneira de estereotipar as mulheres”.

Mary E. Hunt | Foto: Religion Dispatches

Mary E. Hunt é teóloga feminista, cofundadora e codiretora da Women’s Alliance for Theology, Ethics and Ritual - WATER em Silver Spring, Maryland, EUA, um centro educacional feminista iniciado em 1983. Integrante do movimento feminino da Igreja, faz palestras e escreve sobre teologia e ética com atenção especial para questões da libertação. Graduada em Filosofia pela Universidade de Maquette, fez mestrado na Escola Jesuíta de Teologia em Berkeley e em Estudos Teológicos na Escola de Divindade em Harvard.

Recebeu o título de doutora em Teologia, pela União Teológica em Berkeley. Também possui formação em Educação Pastoral Clínica. Passou vários anos ensinando e trabalhando em questões de mulher e direitos humanos na Argentina como conselheira no Internato Fronteiriço no Programa de Missão.

Assista a seguir à conferência de Mary Hunt durante o XVIII Simpósio IHU

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o papel das mulheres na Igreja de hoje?

Mary Hunt – Se estamos falando da Igreja institucional, em muitos sentidos não há papel oficial das mulheres, contudo, elas estão no trabalho pastoral e ministerial da Igreja em muitas partes do mundo. Entretanto, com a falta de ordenação das mulheres, não há a possibilidade de elas tomarem decisões. Então, enquanto papel oficial, não existe espaço para as mulheres entre as lideranças da Igreja. Há algumas mulheres que são consultoras de algumas congregações, mas a ocupação desse espaço oficial e ativo ainda não existe.

IHU On-Line – Quais são as principais travas impostas à igualdade de gênero no âmbito da Igreja Católica?

Mary Hunt – Há dois problemas bastante graves. O primeiro deles é a falta do uso das ciências sociais para fazer teologia. Todo o paradigma da teologia está fundado em uma antropologia muito alheia ao cotidiano e isso gera um problema metodológico, que é o de fechar a porta às ciências sociais dentro da teologia institucional. O segundo problema é que a própria antropologia da Igreja está fora do cotidiano, de modo que as ciências sociais como fonte de informações sobre questões de gênerosLGBTQ –, as novas ondas feministas e outros debates não entram nas discussões internas.

Por isso, há distinções entre homens e mulheres, que no fundo não existem. Diz-se, por exemplo, que os homens são mais capazes de tomar decisões, enquanto as mulheres, por sua forma de pensar, não têm a mesma capacidade. Isso tem muitas implicações não somente nas estruturas da Igreja que produz uma binariedade que é falsa, mas também no que diz respeito ao papel da mulher no mundo pós-moderno, como um ser humano. Produzir essas diferenças é uma maneira de distinguir e diminuir o papel da mulher. Evidentemente esses dois problemas estão relacionados e formam um problema grave.

IHU On-Line – Como fazer para transformar a mulher em um sujeito de protagonismo dentro da Igreja? Esse é um problema somente político ou da estrutura da Igreja?

Mary Hunt – São duas coisas que caminham lado a lado. O fato de distinguirmos seres humanos por questões de gênero, ou o que seja, afinal agora sabemos que não há somente dois gêneros, mas muitos, é um equívoco enorme. Pelo menos é isso que eu percebo desde minha formação feminista-teológica. Foram essas divisões que fundaram uma instituição como a Igreja, tanto na sua estrutura quanto em seu ensino, que são baseadas neste tipo de equívoco. É verdade que temos descoberto esses equívocos agora, mas é justamente agora o tempo de mudar.

IHU On-Line – Que noção de família está posta no documento Amoris Laetitia? Quais são seus limites e possibilidades?

Mary Hunt – O modelo de família em todos os documentos, não somente em Amoris Laetitia, é o padrão heterossexual, casados e com filhos. Agora, novamente, como vemos nos estudos das ciências sociais e da antropologia, sabemos que há muitos tipos distintos de família em todas as partes do mundo. Eu estive recentemente na Coreia e as pessoas não falam em famílias, mas em lares, de modo que eles não falam de família no sentido de marido, mulher, filhos e o cachorro da casa, mas de lares, perguntando uns aos outros onde é e como é o lar onde vivem.

Essa é uma proposta muito interessante para repensar e sair desse esquema muito reduzido, o qual não existe em várias partes do mundo, porque há grupos que são tribos, clãs, há famílias com dois homens ou duas mulheres, há inclusive famílias com três pessoas. Acredito que a teoria teológica pós-moderna deve nos dirigir para essas modalidades de pensamento e responder às perguntas que nós temos, e parar de produzir respostas para perguntar o que não fazemos.

IHU On-Line – O Papa parece ouvir bastante as mulheres, mas na prática qual o protagonismo dentro da Igreja?

Mary Hunt – Bem, o Papa está ouvindo, mas não como mulheres que somos. Ele tem supostamente uma ideia estrutural do que é uma mulher, baseada em sua avó Rosa. Isso é um problema, e como um jesuíta, sacerdote e um homem imerso em um mundo homossocial, que é o mundo do clero, não tem nem muita informação nem experiência sobre o mundo das mulheres.

Creio que será muito mais difícil trabalhar o tema das mulheres durante o pontificado de Francisco do que foi antes, porque ele aparece como uma abertura ao mundo feminino, mas, de fato, não é. A ideia de que mulheres atuem como diaconisas pode parecer uma coisa boa, mas nessa possibilidade está implícita uma série de restrições, então é mais do mesmo. Não creio que esse Papa veja com clareza a situação das mulheres: parece que ele se sente mais cômodo com questões relacionadas aos homens que são gays. Por exemplo, nunca se ouviu falar que ele tenha se reunido com uma lésbica ou uma família de lésbicas para saber sobre suas realidades, tampouco com as monjas norte-americanas, que têm muitos problemas com o Vaticano. É claro que houve vários problemas que foram atenuados pelo papa Francisco, mas não estou convencida de que tenha mudado muito as relações de poder entre o Vaticano e as congregações religiosas.

Há uma visão de perceber a mulher sempre como um ser dócil, a quem se deve falar com docilidade, ternura e um sorriso no rosto, mas tudo isso são estupidezes que não representam a vida de mulheres migrantes, mães solteiras, mulheres pobres. Então é uma idealização que serve para marginalizar ainda mais as mulheres.

IHU On-Line – Como fazer para que a Igreja tenha um olhar feminino?

Mary Hunt – Não buscamos um olhar feminino, mas uma visada feminista que significa uma análise e um compromisso com igualdade de gênero, raça, salários, com a preocupação com o meio ambiente etc. Isso é uma postura feminista que está incluída em todo o pastoral e o teológico e não é uma coisa nova. A ideia de feminino é uma outra maneira de estereotipar as mulheres.

IHU On-Line – Como a senhora vê a possibilidade do sacerdócio feminino? Qual a importância?

Mary Hunt – A única importância é o poder, no seu sentido mais genuíno. O poder deve ser compartilhado e é nesse sentido que não sou a favor da ordenação de mulheres, porque não sou a favor da ordenação de ninguém. Sou a favor de um discipulado de iguais no qual imaginamos e construímos outros modelos mais adequados às necessidades das pessoas. Não vejo o clericalismo com mulheres como um avanço, um passo adiante. Se essa é a única maneira de começar a compartilhar as tomadas de decisões, eu estou a favor. Porém, nós mulheres estamos fazendo um trabalho pastoral, celebrando missas, escutando confissões há muito tempo.

Além disso, há mulheres ordenadas por grupos como a Association of Roman Catholic Women Priests e grupos católicos que estão ordenando mulheres, ainda que não sejam reconhecidos por Roma. Não estou muito entusiasmada porque isso poderia se transformar numa nova maneira de reinventar o clericalismo, de modo que eu preferiria um modelo mais horizontal das comunidades de base, que estão mais bem relacionados entre as lideranças, tanto sacramental quanto políticas.

A ordenação das mulheres pode ser um avanço, mas muito pequeno, e há o risco de frear as mudanças mais profundas para as próximas gerações. Nesse sentido, poder-se-ia nomear mulheres cardeais, porque é possível ser cardeal sem ser ordenado e esse gesto seria um símbolo de compartilhamento de poder, mas não vejo isso como uma possibilidade real. A razão pela qual isso não ocorre me parece estar relacionada a uma forma, também, de esconder os abusos sexuais dentro da Igreja e o acobertamento de bispos por irregularidades financeiras. Permitir que as mulheres ocupem esses espaços de tomada de decisão dentro da Igreja vai fazer com que se abram todas as janelas e se percebam os graves problemas estruturais, morais e financeiros.

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