Intervenção no Rio de Janeiro é mais uma encenação político-midiática. Entrevista especial com José Cláudio Alves

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Por: João Vitor Santos | 20 Fevereiro 2018

Para o professor José Cláudio Alves, a decisão do Governo Federal de intervir na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, passando o controle da área diretamente para as mãos do Exército, nada mais é do que “uma justificativa da ampliação da lógica de execuções sumárias” em áreas de periferia. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, destaca que a situação da violência no Rio acabou sendo reduzida a um discurso midiático com viés político. Para ele, não são somente estratégias de segurança pública. “Isso tudo é muito mais uma encenação político-midiática para que os meios hegemônicos possam trabalhar na dimensão relatada, muito mais do que realmente uma resposta à violência”, conclui.

Alves analisa que a chamada explosão de violência na cidade durante o Carnaval se restringe a relatos de crimes ocorridos na região mais central e na zona sul, justamente a vitrine carioca para o turismo. Por isso, a estratégia de colocar o Exército na rua pode trazer uma sensação de segurança. Porém, ressalta que há algo muito mais perverso que amarra todos os crimes que ocorrem no Rio de Janeiro. “Não existe uma operação de roubo de carga, de carro ou caminhões, ou seja, toda essa lógica de assaltos e roubos, sem a anuência e, muitas vezes, a participação direta da estrutura policial”, destaca, ao lembrar da estrutura de segurança que no Rio é completamente corrompida pelo tráfico de drogas".

E se, por um lado, o patrulhamento feito pelo Exército traz a imagem de segurança e controle, na periferia a política de extermínio é que impera. “As áreas pobres vão continuar na matança que já vêm assistindo e com isso se faz um arremedo de segurança pública midiática, que serve para veicular na mídia que agora há mais segurança”, aponta. E critica: “isso é uma farsa, não há nenhuma possibilidade de um projeto desses, mesmo tendo um gabinete com um general do presidente da República, dar certo”.

Aliás, a estratégia, segundo Alves, não é nem mesmo atacar o problema a fundo. O que se quer é apenas dar uma resposta midiática. E não é qualquer resposta. “Por que o Temer faz isso juntamente com um general? Porque ele chama o holofote para si. (...) Com isso ele ganha louros, ganha pontos para superar o descrédito absoluto que ele vive na sociedade do Rio de Janeiro”. Ou seja, uma jogada mais do que ensaiada com o PMDB carioca, completamente atolado em denúncias de corrupção, que governa o Rio há anos. “É um jogo de cena interessante, porque o Governo do Estado não tem mais nada a perder”, diz o professor. “Pelo contrário, o que quer fazer agora, ao chamar as forças da federação, é jogar holofote sobre o Temer, permitir que ele faça palanque desse tema”.

José Cláudio Alves | Foto: João Vitor Santos - IHU

José Cláudio Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque, mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. É professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ e membro do ISER Assessoria.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significa essa intervenção militar na segurança pública no Rio de Janeiro? O que esse ato do presidente Michel Temer, em acordo com o governador Luiz Fernando Pezão, revela?

José Cláudio Alves – Isso é uma prática que vem sendo ensaiada há algum tempo no Rio de Janeiro, porém não com esta proporção toda, porque pela primeira vez o Exército assumirá o controle total da segurança e isto é um ponto significativo de mudança. A presença combinada do Exército com várias ações dentro do Rio de Janeiro, controle de áreas, policiamento a determinadas localidades, vias expressas, controle de fluxo populacional em determinados pontos, já vem sendo ensaiada há pelo menos oito anos. Antes do caso do Complexo do Alemão, que foi um marco recente, houve um primeiro ato desse tipo em 1994, com Marcelo Alencar, então governador do estado, quando houve a Operação Rio 1 e mais tarde a Rio 2, no ano seguinte. Estas operações na década de 1990 consistiam em patrulhamentos e cercamento das áreas de favela. Em 2007, tivemos a invasão do [Complexo do]Alemão, na época do Pan-Americano, onde houve uma operação fortíssima com 19 mortes. Na ocasião, uma comissão especial da Secretaria de Direitos Humanos da presidência da República periciou os corpos e foi identificada execução sumária em 70% das pessoas mortas.

Então já em 2007, no governo [Sérgio] Cabral, houve uma política mais explícita de execução sumária. No Alemão, se ensaiou essa lógica de intervenção direta, mas não chegou a essa proporção, e depois se seguiu uma série de operações, sobretudo as relacionadas aos grandes eventos. Houve, cada vez mais, uma política interna de aumento dos confrontos e de execução sumária como prática de segurança pública do estado do Rio de Janeiro.

Neste momento, avalio que intervenção militar é uma justificativa da ampliação da lógica de execução sumária nessas áreas. Claro que o argumento utilizado é o midiático. Essas respostas, como todas as outras que enumerei antes, são político-midiáticas à questão da segurança. Elas não podem ser vistas somente no campo da segurança pública.

“Policiês”

Encontraremos, daqui para a frente, vários comentaristas que são cientistas sociais e que vão entrar em um discurso meio “policiês”, se é que existe essa linguagem, no qual se construiu um campo em que a segurança pública é quase uma ciência, capaz de comportar a si própria. Nesse campo, serão necessários códigos de conduta, a maneira pela qual as forças do Exército colaborarão com as polícias ou mesmo o inverso, com a colaboração da polícia militar, civil e do corpo de bombeiros, nessa nova modalidade de controle da segurança pública. Discutirão essas coisas, falarão de valores de equipamentos, de tecnologia usada. Isso virou um ramo inclusive da economia.

Entretanto, tudo isso é insignificante, pois só é possível enxergar a segurança pública quando se extrapola a segurança pública e se começa a enxergar o campo político no campo midiático, que é outra área fabulosa de controle, trabalhando a segurança em uma lógica muito mais ampla de controle de pessoas e populações.

Incertezas da intervenção

Assusta muito saber que existirá um comando militar direto e imediato em uma lógica frequente de confrontos dentro de áreas favelizadas, com histórico absurdo de violações aos direitos humanos, com a construção midiática da lógica do “bandido bom é bandido morto”. E tudo em um momento em que a direita cresce no país com um discurso de ódio e confronto contra os mais pobres, quando o Congresso Nacional discute reformas da Constituição – principalmente a da Previdência e a trabalhista.

Ouve-se que durante a intervenção não se pode fazer reformas à Constituição e se ouve o presidente dizer que vai suspender durante um período a votação se assim for necessário. Isso acaba criando um cenário absolutamente incontrolável no campo político.

Carnaval de protestos

O PMDB do Rio de Janeiro recebeu uma crítica duríssima a partir do próprio Carnaval, isto é, uma dimensão popular incontrolável, porque essa escapa à manipulação midiática, com a da vice-campeã, Paraíso do Tuiuti, com uma crítica retumbante e inesperada. Aí, após o Carnaval, o governo traz como resposta uma intervenção desse porte e desse perfil dentro da cidade do Rio de Janeiro, que vai reforçar a lógica do controle sobre populações pobres, intensificando as execuções sumárias, a repressão às manifestações.

Jogo de cena

Isso tudo é muito mais uma encenação político-midiática para que os meios hegemônicos possam trabalhar na dimensão relatada, muito mais do que realmente uma resposta à violência. Ainda tem o fato de o governo estadual, de um estado quebrado financeiramente, poder colocar as mãos em novos recursos financeiros. Contudo, não há uma única explicação de como será a aplicação desses recursos financeiros, pois estará a critério do Governo Federal e do comando do Exército. Essas coisas não ficam nada claras a que e a quem vêm, pode ser que a indústria bélica se favoreça com isso e a bancada da bala terá seus interesses contemplados.

UPPs

Vai se fazer o que foi feito à época das intervenções das áreas das Unidades de Polícia Pacificadora – UPPs no Rio de Janeiro, desde 2008. Como na época, o que vai ocorrer é uma reconfiguração desse grande tabuleiro da região metropolitana do Rio de Janeiro, em termos do crime. Eu sempre disse: não há crime organizado no Rio de Janeiro sem a organização direta por parte do Estado. Há pouco tempo, o próprio ministro da Justiça [Torquato Jardim] falou que os comandantes da área de segurança do Rio de Janeiro tinham relação direta com os criminosos. Isso dito por um ministro da Justiça que nem é considerado alguém com características muito repressivas. Mas ele próprio foi capaz de perceber o conluio que há nessa estrutura.

Agora, o Exército toma para si a organização disso. Como o Exército vai controlar essa estrutura toda permeada por interesses do aparato policial vinculado diretamente ao interesse de organizações criminosas, com milícia crescente nessa região, com o tráfico de drogas crescente e operando agora sobretudo na Baixada Fluminense? Hoje, a Baixada tem o dobro de homicídios da cidade do Rio de Janeiro.

IHU On-Line – Pelo que o senhor refere, não haverá uma mudança de estratégia no emprego das forças militares. Haverá apenas um recrudescimento dessa perspectiva mais policialesca na segurança pública, essencialmente para responder a narrativa de crime criada pelos veículos de comunicação. É isso?

José Cláudio Alves – Sim. A lógica de uma política repressiva vem em ascensão no Rio de Janeiro há muito tempo. O controle que as UPPs previram para a cidade do Rio de Janeiro desabou, foi desmantelado por dentro. Elas não conseguiram se sustentar e logo após começa um período de maior repressão, de maior intensidade. A mídia, com seu discurso, enfatiza a morte dos policiais militares, mas para cada policial morto existe uma dezena, ou até mais, de civis mortos no Rio de Janeiro. Hoje, mata-se na cidade do Rio de Janeiro em torno de duas mil pessoas. Na Baixada, as mortes estão na marca de 2.500. E observe a proporção com os cento e poucos policiais que foram mortos. Mas a mídia vai enfatizar a morte do policial e não a morte dos civis que ocorre diariamente.

Fora isso, o que tem ocorrido nessa região toda é a intensificação da ação de grupos como o tráfico de drogas ou da milícia em controle de áreas e assuntos como roubo de carga, roubo de carro, roubo a transeuntes, e está tudo articulado. Não existe uma operação de roubo de carga, de carro ou caminhões, ou seja, toda essa lógica de assaltos e roubos, sem a anuência e, muitas vezes, a participação direta da estrutura policial. Ela está presente, faz parte e, inclusive, organiza isso. Muitos casos que foram investigados apontam justamente para isso. Agora, me diga como que um general com as forças do Exército, que não tem nenhuma capacidade, nenhum conhecimento ou habilidade em lidar com patrulhamento de áreas, vai dar conta?

Se nós acreditássemos, no campo do debate sobre sociedade, que o controle militarizado de áreas, o aumento da repressão, aumento da presença do policial significasse a solução do problema, tudo bem. Mas não acreditamos, sabemos que o problema é muito mais profundo. As medidas mais profundas sequer são mencionadas. Agora, se vai com o patrulhamento de vias, de favelas, da zona sul da cidade, a Baixada, a zona oeste e as áreas pobres vão continuar na matança que já vêm assistindo e com isso se faz um arremedo de segurança pública midiática, que serve para veicular na mídia que agora há mais segurança. Isso é uma farsa, não há nenhuma possibilidade de um projeto desses, mesmo tendo um gabinete com um general do presidente da República, dar certo.

Estratégia

Por que o [Michel] Temer faz isso juntamente com um general? Porque ele chama o holofote para si, vai poder fazer um palco, uma apresentação teatral em que tem controle sobre isso, porque a mídia vai dar a ele esse controle e domínio das imagens. Vão, ainda, apresentar imagens que representem para a população segurança e tranquilidade e com isso ele ganha louros, ganha pontos para superar o descrédito absoluto que ele vive na sociedade do Rio de Janeiro.

IHU On-Line – E o governo do Rio de Janeiro, como fica nesse cenário? Sucumbe em prol de uma melhora na imagem do Governo Federal?

José Cláudio Alves – É um jogo de cena interessante, porque o Governo do Estado não tem mais nada a perder, por toda a conjuntura que se vive na cidade e que ainda vem se aprofundando. Por isso não tem nada a perder ao jogar a toalha e dizer que é incapaz. Pelo contrário, o que quer fazer agora, ao chamar as forças da federação, é jogar holofote sobre o Temer, permitir que ele faça palanque desse tema. É apostar nessa esperança de que a nova construção midiática, num campo onde as imagens do Exército vão dominar, será de superação do problema.

Claro, estão varrendo para debaixo do tapete. Vão intensificar as medidas de controle, a violência tende a explodir nas áreas mais pobres, Baixada, zona oeste, áreas bem mais distantes e pobres. Ou seja, se varre isso para debaixo do tapete e os holofotes vão trazer uma cidade “mais segura”, embora saibamos que o problema está mantido e não foi resolvido. O problema, como já destaquei, é o próprio Estado, a estrutura do aparato policial, o próprio funcionamento da segurança que não seria uma segurança pública porque já está comprometida.

O fracasso das UPPs

Se de fato se quisesse fazer uma alteração, teria que, minimamente, dissolver essa estrutura da segurança pública para reconstruir de algum outro padrão. Isso não se resolve chamando o Exército e fazendo com que ele assuma por cima de tudo isso. É a mesma imagem que o Beltrame [José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro] imaginou que fosse capaz de fazer. Ele criou as UPPs achando que 30% do corpo de policiais militares sendo treinados, atuando de forma adequada e menos corrupta poderia mudar o restante e o conjunto da polícia no Rio de Janeiro. Foi o contrário, a estrutura policial já corrompida e envolvida nas formas de organização criminosa engoliu esses 30%.

Então, não me venha falar agora que comandos militares vindo por cima, com pessoas que vão dar ordens simplesmente numa estrutura toda controlada de baixo por aqueles que operam a estrutura na sua ponta por policiais, sobretudo por comandantes – hoje, no Rio de Janeiro, quem manda na estrutura de segurança são os comandantes que vivem de propina da corrupção e os próprios soldados, os praças que hoje estão na polícia do Rio de Janeiro lutam contra os comandantes porque eles também querem ter direito à corrupção deles – vão chegar agora e controlar toda essa dimensão que vai continuar existindo. Pode ser que ela diminua, pode ser que não seja mais tão explícita, mas isso não me parece que seja uma solução. Isso é uma maquiagem. E tudo indica que vai aumentar a violência nos confrontos, estourando nas áreas mais pobres.

IHU On-Line – Toda essa reação do Estado se dá logo depois do Carnaval, com uma narrativa midiática muito baseada em arrastões e assaltos em regiões turísticas. Mas, em que medida essa narrativa inebria o real problema da violência no Rio de Janeiro?

José Cláudio Alves – A resposta político-midiática é dada em cima da construção da pergunta político-midiática. Essa pergunta é feita desses classificados como mais inocentes, que não são bandidos, que não são criminosos, que são os atingidos e vítimas de roubo, arrastão, ocorrência sobretudo da parte central e zona sul do Rio de Janeiro, que é justamente para onde se volta a resposta político-midiática. Aliás, nunca foi para as áreas periféricas e faveladas. É sempre para esse conjunto branco, uma elite de classe média, que são os consumidores para os quais essa resposta político-mediática é construída.

Enfim, é a resposta para uma pergunta que já vem sendo veiculada há bastante tempo. O que nos causa muito espanto é o fato de que, num momento tão crucial, tão determinante da cidade do Rio de Janeiro e do Estado, e num momento tão crucial na vida cultural e política do país, que é o Carnaval, você simplesmente escuta a frase de um governador ou um prefeito – que nem falou nada porque estava viajando – que diz que se equivocaram ao não perceberem que isso iria acontecer. Isso não existe. O que existe é a construção dessa situação, ela foi pensada e construída antes. Foi pensada deliberadamente no esvaziamento de qualquer tipo de controle maior nessas áreas brancas, de classe média, nessas áreas centrais para o Carnaval e para os interesses econômicos do Rio de Janeiro e, a partir dessas imagens, terem uma resposta para essa pergunta que as imagens estão trazendo. Ao meu ver, já estava tudo montado para esse momento. Não tem outra explicação.

IHU On-Line – E na realidade das periferias nada muda, com exceção do aumento da violência?

José Cláudio Alves – Sim, haverá aumento da violência. Mas há, agora, algo que muda. É algo que tem despontado no Rio de Janeiro e na grande área metropolitana, uma situação mais complexa: é o que venho chamando de chacinas invisíveis.

IHU On-Line – O que significam essas chacinas invisíveis?

José Cláudio Alves – É um conjunto de chacinas que vêm ocorrendo sem que a mídia e a polícia notifiquem. A mídia não noticia, não dá nenhuma matéria sobre isso e a polícia não faz nenhum registro de ocorrência. Esse fato vem ocorrendo há quatro anos. Em agosto de 2014, tivemos em Imbariê [bairro do município de Duque de Caxias, situado no distrito de mesmo nome. Sua população é de aproximadamente 33 mil habitantes] um conflito com número muito grande de mortes, mas a mídia noticiou sete pessoas, no máximo. Isso tudo numa situação de confronto entre facções criminosas.

Depois, em setembro de 2015, ocorre uma invasão da milícia a um bairro lá em Seropédica, onde a população local fala em entrada de milicianos com armas com silenciadores e homens com capuz onde ocorrem mais de 20 assassinatos. A mídia não noticia nenhuma dessas mortes e nem há registro disso por parte da polícia. Em agosto de 2016, ocorre algo semelhante em Queimadas, outra cidade da Baixada Fluminense, com várias pessoas mortas.

E o caso mais recente e assustador ocorreu no dia 19 de fevereiro do ano passado, um sábado antes da semana do Carnaval em Japeri, numa região chamada Engenheiro Pedreira, mais precisamente no bairro São Jorge. Temos relatos da população sobre uma chacina em que morreram entre 35 e 60 pessoas. Ocorria um baile funk patrocinado por facções que praticam roubo de cargas no Arco Metropolitano e essa festa foi interrompida a partir de uma operação de helicóptero com pessoas descendo de rapel. Era um grupo paramilitar que foi degolando as pessoas, entraram nesse baile, identificaram as pessoas do tráfico e, depois, fizeram um paredão naquele local do baile e fuzilaram ali as pessoas. Esses corpos todos desapareceram; o que se tem é o registro de cinco ou seis homicídios nesse dia. Mas os relatos que chegaram para mim são nessa proporção. Isso não está registrado em lugar nenhum.

Articulação muito mais complexa

O que está em jogo hoje é uma articulação muito mais profunda de uma lógica de execução silenciosa, não registrada, de grupos em determinadas áreas de acordo com os interesses políticos e econômicos desses grupos. No caso de 2015, em Seropédica, havia o controle de uma facção do Comando Vermelho - CV que controlava o acesso à água no Rio Guandu, que é de onde vem a água para o abastecimento de toda a cidade do Rio de Janeiro, pois uma empresa multinacional tinha seu reservatório de água nesse bairro controlado pelo Comando Vermelho. Assim, o CV passou a exigir dinheiro para permitir o acesso dessa multinacional a esse local. A invasão — a meu ver — da milícia, logo depois, está associada a esse interesse dessa multinacional.

A chacina em 2017, em Engenheiro Pedreira, no bairro São Jorge, está diretamente envolvida com os roubos de carga — de cigarros, bebidas e eletrodomésticos — que estavam ocorrendo no Arco Metropolitano. Há um interesse econômico explícito aí também.

Entretanto, hoje há um cenário mais complexo ainda, que faz com que essa operação político-midiática de intervenção federal na área de segurança, a partir da ação direta do Exército, nos proporcione um novo cenário que pode gerar situações cada vez mais complexas e difíceis de serem abordadas e analisadas – e sequer solucionadas.

Redução da complexidade do problema

Nem prevemos muito hoje, olhando para esse cenário, possibilidades reais de solução, porque não há mais uma previsibilidade. Aliás, já não havia antes porque a própria estrutura da segurança pública está comprometida — sempre esteve comprometida. Agora, além desse comprometimento, começam a surgir situações no campo da Segurança Pública que fogem, completamente, da nossa própria previsão. Portanto, se centrarmos o debate somente na lógica do “policialês”, estaremos enxergando apenas um pixel, um ponto em uma tela de milhões de pixels que nos dá uma imagem mais complexa.

Estão tentando jogar toda essa complexidade de uma situação de Segurança Pública apenas para um campo, um campo da telinha, da tela de TV, onde eu possa controlar. É como aquele simulacro de uma imagem de controle para poder causar um efeito político-midiático necessário e suficiente para conter a onda de revolta e a onda crítica que a cidade do Rio de Janeiro sempre fez. O papel da cidade do Rio de Janeiro sempre foi o de reverberar todas as tensões e críticas de um país como o nosso.

IHU On-Line — Qual a repercussão de uma intervenção desse tipo no resto do país?

José Cláudio Alves — Primeiro, o resto do país vai querer o mesmo. O resto do país, todos controlados por um debate midiático absolutamente tacanho, empobrecido e tendencioso — como tem sido —, acredita que, de fato, botar o Exército na rua é a solução. Poucos cidadãos neste país pensam o contrário, pouquíssimos fazem um debate diferenciado sobre isso. Então, essa massa toda dos estados vai pedir também a intervenção do Exército, porque a situação de segurança explodiu no país como um todo. Vocês mesmos podem pensar na situação do Rio Grande do Sul, de Porto Alegre, do Vale do Sinos. Eu estou aqui no Pará, na Ilha de Marajó, e o relato que venho trazendo é o pânico em relação à questão da violência em todos os lugares — assalto, roubo, tráfico. E, como tenho dito nesta entrevista, toda essa criminalidade está associada à própria estrutura de Segurança Pública.

Aqui no Pará isso está diretamente vinculado à estrutura dos coronéis, dos donos dos grandes empreendimentos que fazem o desmatamento, que fazem mineração, devastando enormes áreas, que fazem devastação de floresta, apropriação de recursos hídricos, contaminação das águas e do solo — isso são grandes grupos que dominam, ligados ao agronegócio no estado do Pará. Isso também está associado à estrutura de violência.

Estive em três cidades onde os prefeitos foram assassinados: Tucuruí, Goianésia e Rio Branco. Nessas três cidades, no ano passado, os prefeitos foram assassinados porque se recusaram a se envolver diretamente nos negócios dos coronéis que mandam nessas regiões. Foram prefeituras que fizeram políticas para melhorar a situação da população mais pobre, mas acabaram contrariando os interesses de grupos maiores e os prefeitos foram assassinados.

Aqui [no Pará] a estrutura de dominação é muito mais perversa e dura. Estou visitando a região e acompanhando esse quadro desde dezembro do ano passado. Belém também vive esse mesmo drama midiático de construção da estrutura da violência e eles vão querer também o Exército aqui. Só que nós sabemos que uma política dessas só é possível de ser feita na cidade do Rio de Janeiro, ela será incapaz de se replicar no resto do país, porque o Governo Federal não tem essa capacidade e nem esse recurso. Não há capacidade de investir nisso e o dinheiro, pelo que sei, está na mão do senhor presidente da República, o qual ele está usando para comprar parlamentares, a seis milhões cada um, para poder aprovar as reformas que ele tem que fazer cumprir em função desses que financiam a lógica política dele, desses que são os donos do país.

Donos do país na Tuiuti

São esses donos do país que estão representados como os escravistas da [escola de samba] Paraíso do Tuiuti, esses que submetem a população à perda de direitos, que massacram o meio ambiente, que não pagam os salários, que controlam áreas da floresta amazônica. Essa área amazônica em que estou possui um potencial imenso, uma possibilidade de riqueza e de conhecimento absurda, ninguém é capaz de dimensionar o que é a biodiversidade dessa região. Hoje, esses grupos controlam e dominam todas essas áreas.

Então, esses que dominam o país, quando têm seus interesses atingidos, reagem porque querem se perpetuar nisso. O Governo Federal tem se mostrado cada vez mais fortalecido na intenção de defender esses grupos, mantendo esses escravistas modernos, esses donos do país — de terras, de meio ambiente e de populações pobres que estão na mão deles.

Limites do Exército

Eu não vejo como o Exército seria capaz de destinar recursos para bancar em cada capital e em cada cidade com mais de 500 mil habitantes uma política de intervenção na área de segurança pública a partir do controle direto, isso não é possível. O que vai acontecer agora é uma grita de todos, pedindo o mesmo tratamento. Mas, ao mesmo tempo, uma grita que será abafada por esse papel midiático e dizer: “não, o Rio de Janeiro está pior, é uma plataforma, se der certo aqui levaremos para outros lugares”. Esse será o discurso usado como resposta político-midiática.

O cenário é esse daqui para frente: demandas cada vez mais crescentes e um jogo de cena, tentativa de mostrar uma solução, que será construída político-midiaticamente nesse palanque que o Rio de Janeiro vai virar. E você quer saber onde isso vai desaguar? Tudo isso vai desaguar no nosso calendário político, vai desaguar nas eleições deste ano. Assim, imaginemos a complexidade que vamos viver daqui alguns meses diretamente no pleito eleitoral, quando todo esse cenário será montado em um quebra-cabeça muito maior.

IHU On-Line — Quais os desafios para se conceber uma política pública de segurança que vá além de ações intervencionistas e de cunho policialesco?

José Cláudio Alves — Políticas no campo do combate à desigualdade são sempre as grandes políticas que terão efeitos de solução duradouros. Não parece que essas políticas públicas estejam em alta no Brasil porque, mais uma vez, político-midiaticamente se construiu um discurso de que o Estado tem que cortar gastos, que não se pode investir, que, pelo contrário, tem que se reduzir a presença desse Estado já que ele é visto como um grande monstro. De maneira oposta, se o Estado não construir políticas sociais mais amplas e investir mais nessa área nós perderemos sempre essa batalha.

Não estou dizendo que temos que retroceder ao governo petista, que fez algumas políticas “meia-boca” de reconstrução de igualdade social a partir de bolsas ou de programas sociais. Estou falando de muito mais, estou falando de recursos reais voltados para várias áreas importantes. Estou na Amazônia e sei que aqui a política das populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas, tradicionais e dos povos da floresta é o extrativismo. E temos que aprender com esse tipo de extrativismo, pois eles vão extrair açaí, pupunha, palmito, vão pescar e farão todo um trabalho de coleta de frutos da floresta, como bacuri e cupuaçu, de várias frutas que só existem nessa região e que a floresta dá para ele ter sua sobrevivência imediata. E fazem isso tudo sem nenhuma política de assistência técnica, de acompanhamento e de apoio a sua atividade coletora, extrativista imediata, que lhe traga a sobrevivência.

Esse homem da floresta está sendo jogado para ser trabalhador escravo na mão latifundiária nessa região, está se jogando esse homem para a periferia de Belém para ele ser membro do tráfico de drogas e sobreviver a partir do crime organizado. Afinal, não há outra alternativa para esse cidadão se não houver uma intervenção direta nas dimensões de sobrevivência da população, sem dar a essa população o mínimo de possibilidade de acompanhamento técnico, de educação, de qualificação e possibilidade de encontrar a sua sobrevivência na forma mais digna possível, respeitadora do meio ambiente, com relação justa e respeitando os direitos dos demais cidadãos.

Ou seja, sem esse apoio determinante o crime e a violência vão crescer cada vez mais no país e serão cada vez mais construídas respostas político-midiáticas inadequadas, mentirosas e falsas que são capazes de manipular uma população inteira. A crença nas UPPs foi isso, seriam a solução do Rio de Janeiro por quase uma década — chegou-se a uma década de crença em uma política falsa, contrária a tudo aquilo que sempre pregamos. Se nós queremos ter o Rio de Janeiro hoje em uma situação diferenciada é preciso pensar essa população mais pobre, moradora de favela, de periferia e de Baixada Fluminense, esses que alimentam a estrutura da sobrevivência do estado do Rio de Janeiro com seu trabalho diário. É preciso pensar na sobrevivência e na dignidade mínima dele, na sua libertação dessa escravidão atual para que ele como cidadão possa construir a segurança a partir dele mesmo, não a partir de uma estrutura estatal viciada, destruída e degradada como é a polícia.

Solução pela construção popular

O que se tem que fazer é mostrar que a própria população pode acreditar na sua capacidade de construção. Por incrível que pareça e por mais que possa parecer apenas um clichê, o que a Paraíso do Tuiuti fez foi exatamente isso: o próprio escravo é capaz de encontrar a sua libertação, ele não depende do senhor, do feitor ou do capitão-do-mato, ele depende de si mesmo na construção da sua liberdade. Essa é a dimensão mais intensa, aguda e forte que a Paraíso do Tuiuti traz no seu enredo e é em função disso que se faz um novo cenário de intervenção no Rio de Janeiro, buscando uma reposta a esse novo patamar que é a cultura da cidade e que é a cultura que o país alcançou a partir desse Carnaval.

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