O sindicalismo está superando a crise. Entrevista especial com Marco Santana

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21 Setembro 2008

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor Marco Santana diz que a crise do sindicalismo já foi superada e que, aos poucos, no mundo todo, ele irá recuperar seu espaço. “Os sindicatos foram duramente ameaçados pelas mudanças das últimas décadas. Agora, creio, há a possibilidade para que o cenário mais positivo seja construído, e os sindicatos continuem importando em nossa sociedade”, afirma. Nesta entrevista, Santana analisa a formação sindical e a atual estrutura das escolas sindicais, além da própria organização dessas organizações hoje. Ele recupera dados da formação dos sindicalistas e relata que, desde a década de 1980, as forças políticas ligadas aos trabalhadores “visavam imprimir certo tipo de orientação mais particular, e muitos foram os grupos de formação que se desenvolveram com metodologias e conteúdos às vezes em choque, ou na construção de alternativas, com os demais”.

Marco Aurélio Santana é cientista social, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursou o mestrado e doutorado em Sociologia e Antropologia. É pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. É, atualmente, professor na UFRJ. Escreveu Trabalho e Educação: centrais sindicais e reestruração produtiva no Brasil (Rio de Janeiro: Quartet, 1999), Homens partidos: comunistas e sindicatos no Brasil (São Paulo/Rio de Janeiro: Boitempo, 2001) e Sociologia do trabalho no mundo contemporâneo (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004), além de ter organizado outras obras que tratam o tema do trabalho.

Marco Aurélio Santana publicou o artigo "O  mundo do trabalho em mutação. As reconfigurações e os seus impactos", nos Cadernos IHU Idéias no. 34 e o artigo "Trabalhadores e política nos anos 1950: a idéia de `sindicalismo populista` em questão", nos Cadernos IHU Idéias no. 82. As publicações estão disponíveis nesta página para download.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor vê o desenvolvimento da formação sindical e como ela está hoje?

Marco Santana – A idéia de cursos, políticos ou não, para trabalhadores, têm sido uma atividade muito corrente na história do movimento operário e sindical desde suas origens. Isso tem sido praticado pelas mais diferentes organizações sociais, políticas e sindicais. Cada uma, e dentro delas há muita diversidade também, busca “orientar” os trabalhadores naqueles que seriam os “melhores” caminhos e orientações. No período recente, nos anos de 1980, tínhamos, entre outras, as Ongs, mas já tínhamos também um investimento dos próprios sindicatos, assessorados por elas ou não, no sentido de formular políticas de formação sindical. Para um movimento que ressurgia com força, após longos anos de ditadura militar, esses cursos, que se espraiaram para os mais diferentes setores e tamanhos de sindicatos, viraram uma verdadeira coqueluche, sob a qual se jogou muito peso e responsabilidade. Era como se a partir desse tipo de projeto pudéssemos contribuir para a superação de um fosso político, formativo e identitário, causado pelos anos de ditadura. Muita energia e recursos foram carreados para esse tipo de projeto.

A CUT, sem sombra de dúvida, foi aquela que mais investiu nessa linha, desenvolvendo inclusive uma rede de escolas através do país. Ocorre que essa formação de corte mais político sofreu certa inflexão nos anos de 1990, tanto por fatores internos como pelos impactos causados pelas mudanças no mundo do trabalho, que impuseram uma agenda de qualificação e formação profissional, que era marginal nos anos 1980, onde o que contava era a formação político-sindical. Muito dos esforços, então, passaram à discussão e implementação de projetos de qualificação, os quais, também como uma coqueluche, pareciam que iam resolver ou ao menos mitigar o massacre do desemprego e das agruras do mercado de trabalho. Com os recursos advindos do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT), em meados dos anos 1990, a balança pendeu fortemente, abrindo enorme polêmica sobre essa questão.

IHU On-Line – A CUT surgiu à margem da estrutura sindical oficial e se propunha a mudá-la radicalmente. Hoje, porém, parece estar contente com a mesma estrutura que tanto criticava. Em sua opinião, o que aconteceu?

Marco Santana –
A CUT é, sem demérito dos demais, que são outros tantos importantes, o projeto sindical mais sólido e duradouro na história dos trabalhadores brasileiros. Em seu nascedouro, que foi fruto do trabalho incansável dos militantes de muitas tendências, portava o signo identitário do chamado “novo sindicalismo”, que supostamente, em tudo e por tudo, seria caracterizado por uma ruptura com as práticas sindicais do passado. Embora seja um ponto de vista rico, tomar os atores sociais apenas pela representação que fazem de si mesmos pode incorrer em limitações. Mesmo assinalada sua importância, deve-se dizer que a CUT era portadora de ruptura, mas também de continuidades. Apesar de seus valorosos avanços, ela seguiu o fio de continuidade de outras gerações que propugnaram uma forma mais democrática, inclusiva e mobilizadora de se fazer sindicalismo em nosso país.

Houve certos equívocos e exageros em algumas críticas ao passado do movimento, que perduram até hoje como representação de sindicalistas e pesquisadores, embora a historiografia já tenha avançado muito nesse ponto. Mesmo com sua pujança, como em outros momentos, ela demonstrou também o que para muitos significa sua limitação, mas pode-se ser visto como a força e maleabilidade da Estrutura Sindical Corporativa, que é um verdadeiro fenômeno de durabilidade. A estrutura que serviu impávida a ditaduras e democracias serviu também para os mais diversos grupos políticos que dela se assenhorearam. Para eles, ela é um bom meio de empreender sua política. Assim, não é só a estrutura que tem força, mas também os atores atuam ativamente em sua manutenção. Há ali um canal de acesso a recursos, ao debate político mais geral, à representação de interesses, a uma proteção contra disputas desfavoráveis etc., que a tornam atrativa.

Salvo raras exceções que acabaram ficando muito minoritárias, espremidas pela força desse sindicalismo, pressões e repressões do Estado etc., as forças políticas como um todo acabavam, até as mais progressistas, fazendo um discurso quando fora dela...e um outro quando nela entravam. A CUT passou por um processo duro de institucionalização, o que lhe deu mais estrutura e vértebra, mas pode também ter-lhe roubado parte de sua vitalidade e complexidade interna. Isso já estava indicado pela disputa interna de fins dos anos 1980, mas foi a avalanche dos anos 1990, a chamada “década neoliberal”, que desenvolveu e deu forma acabada a uma série de alterações de rumo, orientação, práticas e formas de organização.

IHU On-Line – Do ponto de vista ideológico, o que aconteceu com a atual geração de sindicalistas?

Marco Santana – Além das muitas mudanças ocorridas no mundo do trabalho, ocorreram alterações com as formas de trabalho e produção, de regulação, bem como com o perfil da classe trabalhadora. Os trabalhadores e suas organizações tiveram de enfrentar uma crise ao nível do ideológico. Desde a viragem dos anos 1980 e em parte da década de 1990, vivemos em plena era da crise do Leste europeu, a chamada “crise do socialismo”. Alguns dos pilares até então considerados sólidas referências em termos dos projetos de transformação acabaram virando pó. Isso diluiu em muito o horizonte ideológico das ações sindicais. Operou-se a abertura de mais e mais espaços para um certo pragmatismo imediatista. De todo modo, e deve-se lembrar bem disso, o ambiente social, político e econômico onde a geração dos 1990 teve de operar é bastante diferente daquele vivido nos anos 1980.

Há uma certa visão esquemática que só vê coisas boas no sindicalismo da década de 1980, demonizando integralmente aquele dos anos 1990. Creio que as importantes conquistas da década de 1980 acabaram por obscurecer muitas das limitações daquele sindicalismo, assim como as derrotas dos anos 1990 acabaram por obscurecer a identificação de positividades. Não é a primeira vez que isso ocorre em termos da história do movimento dos trabalhadores no Brasil: marcar uma década como perfeita, sem erros e outra como um “anjo caído”. Felizmente ou infelizmente, a realidade é muito mais complexa que isso. Há que se fazer uma leitura menos esquemática para o bem das análises e das práticas sindicais.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a autonomia das escolas sindicais?

Marco Santana – O trabalho de formação foi, é e será sempre importantíssimo. Porém, vive sempre no fio da navalha. E isso acontece há muito tempo. Não é fácil desenvolver esse trabalho dadas as dificuldades aí presentes. Todo monolitismo é ruim. Assim como o é todo sectarismo. Isso implica em perda de democracia, participação, vitalidade, abrindo espaço para práticas redutivas e de exclusão que, em uma medida mais ampla, são contrárias aos processos de ampliação da discussão que podem ser facilitados pelo trabalho de formação. A autonomia é um princípio interessante, que deve ser estimulado. Mas tem sido constantemente atropelado. Já desde os anos 1980 vivemos muitas experiências em que quase todas as forças políticas, ao se envolverem nesse trabalho, quando o faziam, visavam a imprimir certo tipo de orientação mais particular, e muitos foram os grupos de formação que se desenvolveram com metodologias e conteúdos às vezes em choque, ou na construção de alternativas, com os demais.

Em alguns casos, impõe-se restrições aos projetos e aos formadores em termos de linha a ser seguida, temas, conteúdos. São muito freqüentes os abalos e alterações de rota causados pela sucessão de dirigentes nem sempre identificados da mesma forma com perspectivas mais abertas de formação. Não há formação no vácuo; ela acaba estando inserida na disputa das correntes. Também não creio que as restrições sejam apanágio dessa ou daquela tendência militante. Isso parece simplista. As forças políticas, quando são majoritárias, podem e devem ser cobradas pelo papel que deveriam cumprir como “majoritárias”. Mas posso não ser “majoritário” em um fórum e ser em outro. Será que quando sou “o majoritário” tenho práticas diferentes daquele que critico quando não sou “o majoritário”? O dado aí é de uma cultura sindical de esquerda que poderia desenvolver sua trajetória em bases menos fratricidas e sectárias, e a formação poderia ajudar nesse quesito, mas pode também, como em muitos casos, reforçá-lo.

IHU On-Line – Como o senhor explica a fragmentação e desarticulação que tem se dado dentro do movimento sindical? De que forma isso prejudica as reivindicações do trabalhador?

Marco Santana –
Apesar de talvez mais agudas hoje, a fragmentação e a divisão entre diferentes tendências e orientações também não é novidade no movimento dos trabalhadores. Dependendo de como se veja, pode ser sinal de vitalidade, pluralismo, diversidade, participação etc. A questão é quando isso não consegue ser associado pela via de um projeto unitário. Aí, sim, pode trazer impactos em termos da efetividade e força do movimento e de suas reivindicações. Não creio que estejamos vivendo um período de desarticulação, mas, sim, como em outras épocas, de re-ordenamento político-organizacional. Por um lado, isso se deve aos desacordos e tensões já históricos entre algumas de suas forças internas. Por outro, tendo em vista a reorganização sindical, proposta pelo governo a partir do Fórum Nacional do Trabalho (FNT), pela via da chamada “Reforma Sindical”, venha ela no atacado como era a proposta original, ou no varejo, como parece ser a estratégia recente, muitas forças buscaram se adequar.

Nesse sentido, variam posicionamentos que vão desde o ideológico até o mais negocial que mira apenas acesso a recursos. Ao longo de nossa história recente, sempre existiram várias centrais, sendo algumas de peso, outras de pouca expressão. E isso se repete de certa forma hoje, quando vemos que setores que antes eram representativos de algumas das grandes confederações, em busca de ocupar esse novo espaço, se articula como uma central sindical, se credenciando ao acesso de recursos que serão destinados em breve às centrais. Um dado novo é que a CUT vai sofrendo defecções. Alguns setores foram se alinhar na Conlutas, que não tem participado desse processo de reconhecimento das centrais, criticando-o. Agora, sai a CSC. Cada uma a sua maneira, ambas acusam a CUT de certa paralisia frente ao que seriam políticas contrárias aos interesses dos trabalhadores.

IHU On-Line – Em sua opinião, como podemos tornar os sindicatos mais ativos na conjuntura atual?

Marco Santana – Aí está toda a questão! Creio que superamos a chamada “crise do sindicalismo”. Os sindicatos vão aos poucos, no Brasil e no mundo, retomando seu espaço em muito diminuído no período recente. Os sindicatos foram duramente ameaçados pelas mudanças das últimas décadas. Agora, creio, há a possibilidade para que o cenário mais positivo seja construído, e os sindicatos continuem importando em nossa sociedade. Não há receita de bolo, mas, se tomarmos as experiências vividas pelos sindicatos ao nível global, vemos despontar, entre outras, algumas pistas: permanecer próximos das demandas mais imediatas dos trabalhadores, lembrando sempre que são órgãos de representação de classe; operar no sentido da conformação e desenvolvimento de uma identidade de classe, atuando fortemente em termos de práticas culturais; manter sua história, mas ter abertura para reformular sua cultura político-organizativa; ter aptidão para incorporar temas e questões emergentes do processo social; estimular formas horizontais de organização e ação, e a participação efetiva de suas bases; ampliar suas bases de sustentação política e econômica, incorporando “incluídos” e “excluídos” do mercado de trabalho; promover a articulação efetiva com outros setores local, nacional e internacionalmente, visando ao transnacionalismo. Isso tudo associado à luta por uma sociedade igualitária e justa. Enfim, tarefas de monta.


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