Padres despedaçados. Artigo de Pietro Parolin

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02 Dezembro 2021

 

“Um padre aos pedaços pode ser considerado como um espelho quebrado, que não reflete mais uma imagem inteira e não é mais capaz de desempenhar a sua tarefa natural; por outro lado, mesmo um único pedaço desse espelho, se for recuperado, limpo e colocado na posição certa, pode voltar a prestar um serviço precioso de uma forma nova.”

 

O sítio Settimana News, 01-12-2021, publicou o prefácio do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, ao livro “Preti spezzati”, de Dom Gérard Daucourt, bispo emérito de Nanterre, França.

 

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O Papa Francisco afirmou que, no mundo, muitos padres são os autores das “mais belas páginas da vida sacerdotal”, apesar dos “momentos de dificuldade, de fragilidade” (Carta aos sacerdotes por ocasião do 160º aniversário da morte do Santo Cura d’Ars, 4 de agosto de 2019). E, ao mesmo tempo, também recordou as inevitáveis “amarguras do padre” (Discurso aos párocos de Roma, 27 de fevereiro de 2020), expressando-se em termos afins à leitura de “Preti spezzati”, que Dom Gérard Daucourt, bispo emérito de Nanterre, oferece no presente livro, que aceitei de bom grado apresentar.

“Padres despedaçados”, em tradução livre, de autoria de Dom Gérard Daucourt (Foto: Divulgação)

 

Trata-se do fruto “maduro” da experiência pessoal e direta de um Pastor, que serviu a três dioceses como bispo por mais de 20 anos, que não pretende “dar lições”, mas “chamar a atenção para certos aspectos da vida dos padres”, pelos quais se percebem afeto e solicitude pastorais".

 

Em seu ágil volume, composto por capítulos temáticos únicos e de fácil leitura, o autor identifica, acima de tudo, as três causas do mal-estar ou dos dramas de certos padres, a partir de uma pesquisa realizada em 2020 pela Conferência dos Bispos da França: a sobrecarga de trabalho, as incertezas acerca da identidade sacerdotal e, enfim, a ausência da fé em muitos batizados. Com razão, pode-se dizer que tais circunstâncias podem “fazer em pedaços” a vida e a própria vocação do padre, mas também provocar uma forte reação em nível espiritual.

 

Dom Daucourt, de fato, ao lado das causas da “crise”, não deixa de apresentar também a “cura”, que a maioria dos sacerdotes – nem todos, infelizmente – que ele conhece encontra, em nível pessoal, no aprofundamento da vida espiritual e, em nível comunitário, na união com o bispo, em uma efetiva “fraternidade sacramental” com os coirmãos, assim como na partilha das responsabilidades pastorais com diáconos, leigos e leigas.

 

Com grande concretude, depois, o autor aborda o tema da sexualidade, sublinhando que o dom do celibato não é dado ao presbítero de uma vez por todas no momento da ordenação, mas é uma dimensão “sempre a caminho”, a ser cultivada todos os dias por meio de uma séria formação permanente na dimensão humana e afetiva, tratando-se de um “carisma” que deve ser alimentado e revivido constantemente ao longo da vida.

 

Como um fator a mais de perseverança para os padres, Dom Daucourt dedica uma atenção específica à corresponsabilidade mútua entre padres, leigos e leigas, descrevendo a Igreja como “um lava-pés recíproco e permanente”, do qual deriva “um enriquecimento mútuo essencial” que protege das “múltiplas derivas do clericalismo”. É essa a “conversão pastoral” solicitada pelo Papa Francisco (Discurso aos párocos de Roma, 16 de setembro de 2013), na qual se prevê a solidariedade e a subsidiariedade entre todos os fiéis na vida eclesial, no respeito da diversidade dos carismas.

 

Pode-se deduzir do pensamento do autor que um padre capaz de boas e saudáveis relações de amizade e de cooperação pastoral se encontrará mais bem preparado contra desvios de vários tipos, como o fato de se refugiar no mundo “idealista” e desencarnado do clericalismo, concentrado na mera celebração de ritos, incluindo os sacramentos, ou o fato de sofrer na solidão os fracassos e as desilusões, que inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, chegarão.

 

Quando tal equilíbrio nas relações desaparece, para enfrentar a já mencionada crise de identidade sacerdotal, Dom Daucourt observa que, às vezes, os sacerdotes correm o risco de se tornar “mais gestores do que servidores da comunhão” – um papel social e eclesialmente aceito – e, consequentemente, “as relações com os fiéis habituais tornam-se mais raras, enquanto se multiplicam as reuniões de todos os tipos”.

 

Nesse sentido, Dom Daucourt também adverte os padres contra o risco de uma “dedicação sem tréguas”, que poderia “ser uma astúcia do demônio”, enquanto os sacerdotes terão que “aceitar que não podem fazer tudo”, lembrando o “primado da graça”, na consciência de que “sem Cristo nada podemos fazer” (cf. Jo 15,5), percebendo a si mesmos como “servidores”, sem se sentirem, impropriamente, “salvadores do mundo”.

 

Pode-se dizer que, por esse caminho, um padre entra em um clássico “círculo vicioso”, de consequências potencialmente muito perigosas: as relações com os colaboradores e com os fiéis se tornam mais fracas e mais superficiais, e, portanto, o padre se refugia no ativismo administrativo, mas, por outro lado, precisamente tal forma de “hiperatividade” ajuda a diminuir a distância entre o Pastor e o seu rebanho.

 

A esse respeito, o venerável João Paulo I já recomendava aos presbíteros a necessidade de uma “grande disciplina” e do “recolhimento”, com um saudável distanciamento das incumbências e dos compromissos cotidianos, tendo a clareza de que “eu tenho que fazer um pouco de silêncio para a minha alma; afasto-me de vocês para me unir ao meu Deus” (Discurso ao clero de Roma, 7 de setembro de 1978).

 

Da mesma forma, Dom Daucourt recorda a necessidade de uma “indispensável solidão”, como um “recurso, em que estamos a sós com nós mesmos e a sós com Cristo para acolher a misericórdia do Pai por meio do Espírito”, assim como um antídoto ao mal do ativismo.

 

Como uma variação a mais sobre o tema da vida relacional do padre, com a franqueza que lhe é congênita, o autor, em seguida, aborda o tema da relação entre os presbíteros e o bispo, afirmando que, “para confiar o ministério episcopal a um padre, o primeiro critério deveria ser o hábito à relação” e identifica como principal tarefa do bispo a de estabelecer uma relação positiva e construtiva com os sacerdotes, a fim de “acompanhar os padres com esperança e grande respeito, mas sem transigir diante da verdade e da realidade”.

 

Trata-se de um tema que é caro também ao Papa Francisco – que muitas vezes recomenda aos bispos a “pastoral do clero” –, que afirmou que “muita amargura na vida do padre vem das omissões dos Pastores” e destacou o risco de “um certo desvio autoritário soft” por parte de alguns bispos, lembrando que “os padres devem estar em comunhão com o bispo (...) e os bispos em comunhão com os padres” (Discurso aos párocos de Roma, 27 de fevereiro, 2020).

 

O autor, então, com traço firme, mas delicado, considera algumas situações-limite a que um “padre despedaçado” pode chegar, isto é, a de quem cometeu abusos contra menores ou que se suicidou, tendo ele mesmo uma experiência direta no tema da fragilidade e da recuperação. De fato, Dom Daucourt abriu “uma pequena casa de acolhida para padres feridos”, entre os quais também há alguns que foram culpados de delicta graviora contra menores, na qual se levava “uma vida comunitária de oração e de trabalho”, para tentar recompor os pedaços dolorosamente divididos da identidade cristã e sacerdotal daqueles clérigos que querem percorrer um caminho de purificação, penitência e conversão.

 

Em síntese, pode-se concluir que – na visão do autor – um padre se despedaça quando perde as suas relações essenciais: com Deus, acima de tudo, depois com o bispo e com os coirmãos, além dos colaboradores e dos amigos leigos e leigas. A ruptura, portanto, é apresentada como carência ou empobrecimento grave da dimensão relacional, em razão da qual o equilíbrio e a estabilidade humanos e espirituais do padre acabam sendo minados, às vezes com resultados dolorosos ou até dramáticos para ele mesmo e para as pessoas que estão ao seu redor.

 

O livro de Dom Daucourt pode ser considerado, assim, a colheita das reflexões de um pai que ama os seus filhos, especialmente aqueles mais sofredores e abandonados, um bispo que sente uma sincera preocupação pelas dificuldades e pelas rupturas que a vida e o ministério dos padres podem encontrar, ao lado de uma paixão alegre e incessante, mesmo nos anos da maturidade, pelo dom do sacerdócio, que ele recebeu há mais de 50 anos.

 

Permitam-me uma última imagem. Um padre aos pedaços pode ser considerado como um espelho quebrado, que não reflete mais uma imagem inteira e não é mais capaz de desempenhar a sua tarefa natural; por outro lado, mesmo um único pedaço desse espelho, se for recuperado, limpo e colocado na posição certa, pode voltar a prestar um serviço precioso de uma forma nova.

 

Com essa nota de esperança e de confiança na graça de Deus e na possibilidade de as pessoas se abrirem a ela em todos os momentos da sua vida, saúdo de bom grado a publicação deste livro, com o desejo de que bispos e presbíteros, mas também os fiéis leigos e leigas, possam valorizar a experiência de Dom Daucourt para olhar com um olhar diferente, talvez mais amoroso e atento, para os padres que compartilham a sua história eclesial, lembrando-se de que, por trás do seu serviço, há uma história humana a ser conhecida e a ser sempre apoiada.

 

- DAUCOURT, Gérard. Preti spezzati. Editado por Francesco Strazzari. Prefácio do cardeal Pietro Parolin. Posfácio de Amedeo Cencini. Bolonha: EDB, 2021, 80 páginas.

 

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