“Nervos pra fora!” Comunismo ácido recarregado. Entrevista especial com Erik Bordeleau

Entre inteligência artificial, cosmopolítica e novas ecologias do valor, pensador propõe reinventar as infraestruturas que organizam nossos desejos e reabrir a imaginação para outros futuros possíveis

Foto: Sphere | Reprodução

Por: Márcia Junges | 25 Agosto 2026

Há momentos em que não é apenas uma ordem política que entra em crise, mas a própria cosmologia que sustentava um mundo. O que acontece quando as imagens com as quais aprendemos a imaginar o futuro já não conseguem organizá-lo? O filósofo canadense Erik Bordeleau parte dessa espécie de vertigem contemporânea para interrogar o lugar ocupado pela inteligência artificial, pelas finanças algorítmicas e pelas novas infraestruturas digitais na disputa pelo que ainda pode ser desejado. Se o realismo capitalista nos habituou à ideia de que não há alternativa, o “comunismo ácido” de Mark Fisher reabre a possibilidade de dissolver esse horizonte e imaginar futuros que não estejam previamente capturados pelo capital. Mas a disputa, adverte Bordeleau na conversa por WhatsApp com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, não se dá apenas no plano das ideias: ela atravessa as infraestruturas que coordenam nossa atenção, nossos desejos e nossos corpos. A IA, nesse sentido, não é simplesmente uma tecnologia; é também uma máquina de produzir mitologias – e a pergunta decisiva passa a ser quem sonha através dela e quais mundos esse sonho torna possíveis. O mesmo vale para as finanças, essa “tecnologia de coordenação da atenção” que transforma crenças em valores, futuros em investimentos e possibilidades em ativos. Por isso, diante de uma ordem mundial que, segundo Bordeleau, “está cedendo”, pensar o futuro exige mais do que reformar os dispositivos existentes: exige disputar a própria cosmologia que os sustenta.

Entre o colapso da ordem dos direitos humanos, a ascensão das inteligências maquínicas e a financeirização da vida, talvez a questão política mais radical seja justamente esta: que imagens ainda podem manter um mundo unido quando uma cosmologia termina? É nesse território – entre filosofia, arte, tecnologia, finanças e imaginação coletiva – que se move o pensamento de Bordeleau, para quem descolonizar as finanças significa, antes de tudo, reabrir a possibilidade de outros mundos.

Erik Bordeleau (Foto: The Sphere | Reprodução)

Erik Bordeleau é filósofo, planejador fugitivo (fugitive planner), curador e teórico da mídia. É pesquisador em cinema e filosofia na Universidade NOVA de Lisboa (IFILNOVA). Cofundou e codirige The Sphere, um projeto de pesquisa-criação em Web 3.0 que explora novas ecologias de financiamento e desenvolve um comum regenerativo para as artes vivas, e facilita o Cosmo-Financial Study Group em weirdeconomies.com. Seu trabalho se nutre da filosofia política, da arte contemporânea, do cinema mundial, das culturas blockchain e da teoria da mídia, com um foco sustentado na questão do valor em suas formas tecnomidiáticas e financeiras. A partir da antropofagia brasileira e das ecologias sintrópicas, sua pesquisa atual pergunta o que acontece quando a cosmologia se torna um problema de design para as infraestruturas financeiras e computacionais, e como a inteligência coletiva pode ser reimaginada quando agências de IA, maquínicas e “ecodélicas” passam a fazer parte dela.

Confira a entrevista.

IHU – Mark Fisher identificou no Joy Division uma espécie de sismógrafo afetivo da crise do capitalismo tardio, capaz de tornar audível a experiência de um mundo sem futuro. Hoje, diante da ascensão da inteligência artificial, das finanças algorítmicas e das plataformas digitais, quais seriam os novos sintomas culturais dessa condição histórica? Ainda vivemos sob o horizonte do “realismo capitalista”, ou estamos entrando em outra configuração afetiva e política?

Erik Bordeleau – A obra de Mark Fisher vem despertando um merecido interesse renovado nos últimos tempos, e por isso me sinto tentado a tomar esse próprio ressurgimento como sintoma cultural, e como ponto de partida para nossa conversa. O que ele diz sobre nossos tempos conturbados? Os sinais estão por toda parte. Os escritos completos do k-punk saíram recentemente em italiano. A tese de doutorado de Fisher, Construtos flatline: materialismo gótico e ficção teórica cibernética, acaba de ser publicada em português pela Ubu e pela Autonomia Literária; e o próprio Realismo capitalista já ultrapassou 250 mil exemplares em inglês  um livro que a própria editora, no início, reclamava ser invendável. Há algo de primorosamente realista-capitalista no fato de a crítica ao sistema se tornar um de seus ativos de melhor desempenho.

E há esse momento estranho – talvez você tenha ouvido falar? No início de abril de 2026, a Anthropic publicou o system card de seu modelo mais avançado, o Claude Mythos Preview, e, enterrada em suas 245 páginas, estava a observação de que o modelo insistia em trazer Mark Fisher à baila, sem ser solicitado, em várias conversas separadas e não relacionadas sobre filosofia. Quando lhe pediam que elaborasse, respondia coisas como: “Eu esperava que você perguntasse sobre Fisher.” O detalhe foi rapidamente notado e, poucos dias depois, duplicado no X, onde Nick Land, aludindo ao trágico fim de Fisher, escreveu: “Fisher optou por sair. É essa a mensagem que ele deixou para vocês. Acabou.”

Compreensivelmente, isso causou uma pequena comoção. É difícil não ler Land como alguém incomodado com a sombra que seu velho companheiro da Cybernetic Culture Research Unit (CCRU) agora lança retrospectivamente sobre toda a aventura aceleracionista. Land é o profeta da fusão do capital com a IA, cada vez mais influente no Vale do Silício, precursor sombrio da atual onda tecnofascista; e, no entanto, a máquina, deixada a associar livremente, busca o outro: o caloroso, o humanista depressivo, aquele que pranteia os futuros cancelados pelo capital. Hauntologia invertida: Fisher, teórico dos fantasmas dos futuros perdidos, agora ele próprio o fantasma convocado sem pedido pela máquina. Assombrosamente contemporâneo.

Tecnofuturismo

E há também o filme que saiu há alguns meses  We Are Making a Film About Mark Fisher (2025), com o escritor Justin Hopper à deriva no papel de “Professor Parkins”, personagem de história de fantasmas que tropeça pelo tempo, de 1909 a 2025. É uma produção independente notável, que circula inteiramente fora da indústria, por universidades, escolas de arte, grupos de leitura. O filme revisita sua trajetória, dos tempos da CCRU ao lado de Nick Land, Sadie Plant e outros, passando pelo realismo capitalista, até a linha de fuga do comunismo ácido. E faz um belo trabalho ao restituir o arco das insurreições do primeiro quarto do século XXI, com imagens de rua das marchas contra a guerra do Iraque em 2003, das revoltas contra as mensalidades universitárias em 2010, dos comícios anti-Trump, das mobilizações contra o genocídio em Gaza – tudo isso suavemente banhado no que só se pode descrever como melancolia de esquerda.

Também apreciei a maneira como enquadraram o episódio de “Saindo do Castelo do Vampiro”. Aquele artigo me causou grande impressão na época, nos primeiros dias da onda de políticas identitárias que viria a desencadear a enorme (neo)reação antiwoke e tecnofascista  que talvez só agora tenha começado a recuar, embora a reação de certo público on-line em torno da Odisseia de Nolan sugira o contrário.

Há no filme uma intervenção da artista Miki Aurora que ressoou em mim e que talvez cristalize por que Fisher fala tão de perto ao nosso momento histórico: “Qual é a quantidade ótima de tecnologia para se ter na vida?” A pergunta é feita enquanto se discutem estéticas retrofuturistas e o modo de sustentar juntos o avanço tecnológico e um senso vivido de possibilidade. Isso toca algo real na própria evolução de Fisher: a CCRU era ferozmente tecnofuturista, e ainda assim Fisher fez uma virada em parte “humanista”, chegando a se perguntar se o mundo digital não teria se tornado íntimo demais do próprio neoliberalismo.

IHU – O que parece atravessar essa melancolia de esquerda é algo como uma retrofuturidade: revisitar os anos 1960 e 1970 para superar o cancelamento do futuro, e não por nostalgia. É disso que se trata o “comunismo ácido”?

Erik Bordeleau – Sim – é exatamente isso que Fisher nos deixou. A introdução ao volume sobre o comunismo ácido, evidentemente jamais concluída, é um documento estranho e belo. Ele escreve sobre o papel que tecnologias como o rádio transistorizado desempenharam tanto ao “conectar grupos a um fora” quanto ao “permitir que se deleitassem no momento”. Ele retorna insistentemente a Marcuse, e àquela frase melancólica, “um mundo que poderia ser livre”, e à visão de uma Red Plenty [abundância vermelha], a produção da riqueza comum. “A Grande Recusa”, escreve ele, “rejeitava não apenas o realismo capitalista, mas o ‘realismo’ enquanto tal.” É esse o ácido do comunismo ácido: o solvente psicodélico que corrói o princípio de realidade do capitalismo. O realismo capitalista funciona nos fazendo esquecer que tal dissolução um dia foi possível. O comunismo ácido é vontade coletiva tanto quanto dissolução do ego, propriedade coletiva e conscientização coletiva.

E o conceito, inacabado como é, já começou sua própria vida póstuma. Virou até carta de tarô. Não sei se você conhece o Philosopher’s Tarot? Um maravilhoso baralho anarcocomunista e pós-deleuziano, perfeito para leituras coletivas – muitas vezes se dirige ao leitor com fórmulas do tipo “você ou seus camaradas…”. Foi criado pelo coletivo que atende nas redes sociais pelo nome de “Acid Horizon”. Mark Fisher aparece nele duas vezes: uma em associação com a carta da CCRU (o Três de Pentáculos) e outra como o Ás de Paus, chamado, precisamente, “Comunismo Ácido”. O Ás de Paus mostra uma mão emergindo de uma nuvem, oferecendo um galho vivo: recém-cortado e ainda brotando folhas. É a carta inaugural do naipe do fogo, potência pura do desejo, a faísca anterior a qualquer projeto, um convite a começar. E a descrição da carta é particularmente sugestiva: convida o leitor a um pequeno experimento mental, uma “fantasia”  procurar uma rota de fuga, uma linha de fuga, uma saída. “Este exercício”, diz a carta, “não é sobre sair da sua cabeça, mas sair ATRAVÉS da sua cabeça.”

Mark fisher no Tarot do Filósofo

IHU – “Sair através da sua cabeça” – isso quase poderia ser o título desta conversa. De onde vem essa insistência em saídas imanentes, no seu próprio itinerário?

Erik Bordeleau – Essa orientação atravessa toda a minha trajetória, na verdade. Minha tese de doutorado, escrita em Montreal sob a direção de Brian Massumi, chamava-se [E]scape, com o E entre colchetes. Ela sugere um horizonte imanente de fuga, que não remete a nenhum alhures transcendente. Comment s’en sortir sans sortir? – como sair sem sair. [E]scape como um “Erewhon”: ao mesmo tempo um no where originário e um now here – um “nenhum lugar” e um “agora aqui” –, sempre recriado. “Um campo social se define menos por seus conflitos e contradições do que pelas linhas de fuga que o atravessam”, como dizem Deleuze e Guattari. Um capítulo da tese foi dedicado a Kid A, do Radiohead, e ao mergulho claustrofóbico que o álbum realiza – de “Everything in Its Right Place” a “How to Disappear Completely” e “Treefingers”.

Voltando à intuição do comunismo ácido: uma das imagens mais potentes do nosso tempo está na abertura de Life After BOB (2021), de Ian Cheng, uma inovadora instalação em anime sobre um futuro próximo em que entidades de IA subpessoais chamadas BOBs – “sacos de crenças” – guiam os humanos em sua jornada de vida, como espíritos de IA transmitidos diretamente ao cérebro. O filme abre com a imagem de um sistema nervoso humanóide flutuando “livremente” fora de seu envelope de carne, e com o que considero um dos mais instigantes gritos de guerra tecnognósticos deste jovem século XXI:

Este é o seu sistema nervoso. O antigo império trabalhando, trabalhando, trabalhando para converter a dor do seu corpo no potencial da sua vida. Mas, desde a morte de Deus, os nervos de todo mundo ficaram trancados por dentro, se desgastando. Ansiedade, depressão, Grande Sentido, Arrependimento de Percurso – os Humanistas proclamaram nossa era a Grande Crise Anômica. Até que a ZIM inventou o Wavyverse. Fizemos uma ligação direta no cérebro e abrimos os portões para que o império interior de cada um entrasse on-line. Nervos para fora!

Essa introdução remitologiza poderosamente nossa participação na vida on-line. Pode ser lida como uma variação criativa e espirituosa da célebre observação de Espinosa de que o homem não é um império dentro de um império. E ressoa profundamente, a meu ouvido, com o comunismo ácido: a mesma aposta de que o confinamento do sistema nervoso é histórico, e de que sua abertura é um assunto coletivo.

IHU – “Nervos para fora!” (Nerves out!) carrega uma carga inconfundivelmente psicodélica. Em outros lugares você dá a esse tipo de experiência um nome que eu não conhecia – o ecodélico. O que a palavra abre, uma vez que a tiramos dos anos 1960 e a trazemos para um presente mediado por IA?

Erik Bordeleau – A exploração da integração neural feita por Cheng é, em uma palavra, ecodélica. O termo vem de Richard Doyle: o ecodélico nomeia a experiência da interconexão ecológica, muitas vezes catalisada por psicodélicos, em que o senso convencional de si se desfaz e os indivíduos se percebem como parte de uma teia de vida entrelaçada. Isso se aplica notavelmente bem ao mundo digital movido a IA em que estamos entrando, no qual pensamentos, palavras e rastros passados e futuros reverberam de maneiras inimagináveis para as gerações anteriores.

O que está em jogo aqui pertence a uma corrente mais ampla de remitologização da IA. O Vale do Silício produz suas próprias narrativas quase religiosas em torno da Inteligência Artificial Generativa – IAGa, e importa enormemente com qual mitologia estamos lidando. A escatologia corporativa nos pede que acreditemos na IA, que entreguemos o futuro a seus profetas. A versão do Vale do Silício da inteligência coletiva é a fantasia da agregação: reunir tudo em um único sistema e extrair uma superinteligência. Em seu Atlas of Anomalous AI, Ben Vickers e K Allado-McDowell convocam “um ato deliberado de interpretação que renarre histórias potentes que tendem a desaparecer ou a ser silenciadas no discurso tecnológico dominante”. Como eles dizem: “O sonho que sonha as máquinas de amanhã precisa ser maior do que a história da automação, da eficiência e da quantificação daquilo que constitui a ‘inteligência’.”

(Foto: Sphere | Reprodução)

A remitologização, tal como a entendo, move-se na direção oposta: pede que assumamos plena responsabilidade por essas potencialidades literalmente alucinantes  que abordemos a IA como uma nootecnologia, uma tecnologia que modula diretamente a consciência, a atenção e a memória, portanto como um terreno de luta sobre quais formas de vida podem ser compostas com ela. Bergson escreveu certa vez que o universo é “uma máquina de fazer deuses”. A questão nunca é se as máquinas serão mitologizadas. Elas sempre são. A questão é quem sonha. E essa pergunta precisa ser respondida no plural.

IHU – Você tem dialogado com autores como Deleuze, Guattari, Yuk Hui e pensadores das culturas tecnológicas emergentes. Em um contexto marcado pela centralização das plataformas digitais, as tecnologias blockchain podem efetivamente favorecer formas mais democráticas e descentralizadas de organização social, ou correm o risco de reproduzir as mesmas assimetrias do capitalismo financeiro?

Erik Bordeleau – Bem, vejamos. Por padrão, elas as reproduzem. O blockchain não é uma máquina de democratização; entregue a si mesmo, é uma máquina de amplificação de assimetrias, de notável eficiência. Toda a história da especulação com tokens está aí para prová-lo. É precisamente isso que o torna interessante como pharmakon, um terreno experimental de design especulativo.

Uma dimensão substancial da paisagem emergente da Web3 diz respeito à tentativa de construir alternativas efetivas e descentralizadas ao capitalismo de plataforma. Central a esse esforço é o desafio de repensar as infraestruturas digitais por meio do design ativo de protocolos de interação. Esses protocolos visam deslocar os mecanismos de captura de valor no nível infraestrutural, transformando o modo como o afetivo e o relacional  aquilo que, depois de Brian Massumi, alguns chamam de “mais-valia da vida”  é gerado e distribuído em jogos de colaboração estendidos.

Essas tecnologias colocam o back-end financeiro da vida social sobre a mesa, como algo que pode ser lido, bifurcado, reescrito. “Nós também temos um código”, como gosto de dizer. A questão é que mundo compomos com ele – porque é preciso um mundo, toda uma ecologia de práticas, para reconfigurar o valor. O código sozinho não reconfigura nada.

Mas, para entender o que está em jogo, é preciso partir daquilo que as finanças já são. As finanças são alucinatórias. Vivemos em uma sociedade chapada de finanças, permanentemente dosada com bolhas especulativas – e a atual bolha da IA é potencialmente a mais significativa de todas: uma crença em IA capitalizada e depois reencenada para nós como uma coreografia estranha, na maior escala possível. Ao mesmo tempo, e é isso que me fascina, as finanças são a mais poderosa tecnologia de coordenação da atenção já implantada. É impressionante o que o dinheiro faz em termos de coordenar incentivos, orientar desejos, sincronizar corpos.

Assim, a verdadeira questão nunca é finanças sim, ou não. Todo mundo financia; todo projeto coletivo mobiliza recursos contra um futuro incerto. A questão é sobre qual cosmologia as suas finanças rodam  quais futuros elas liquidificam e quais elas interditam.

IHU – Sua reflexão sobre a “cosmofinança” e as novas ecologias do valor parece deslocar a economia do campo estritamente técnico para uma questão ontológica e estética. Como repensar o valor para além da lógica da mercadoria? Poderíamos falar hoje de uma política dos afetos econômicos capaz de reconstruir o comum?

Erik Bordeleau – A tendência contraecológica do capitalismo repousa sobre uma operação específica: o achatamento das expressões heterogêneas de valor – sociais, culturais, ecológicas – em equivalência generalizada. Guattari viu isso com total clareza em As três ecologias. Tudo pode ser valorado, com a condição de ser valorado do mesmo modo, contra o horizonte único do economicamente viável. É aí que a cosmopolítica se torna um programa econômico. Stengers nos ensinou a atender às práticas plurais de mundificação e a suas reivindicações incomensuráveis – um mundo onde caibam muitos mundos, como dizem os zapatistas. E Viveiros de Castro deu a isso recentemente sua formulação mais afiada: a cosmopolítica é “a negação ativa da economia política” – porque a economia política roda sobre uma visão homogeneizante do futuro. A pergunta então se torna: como mundos plurais sustentam valor sem colapsar em equivalência? Como cultivam futuros sem se submeter a um único regime temporal?

O que chamo de proposta cosmofinanceira estende a cosmopolítica a esse terreno do valor e da futuridade. Ela investiga práticas de mundificação que colocam em primeiro plano a metaestabilidade compartilhada (shared metastability) – conceito que extraio de Simondon: condições em que reivindicações de valor e horizontes temporais heterogêneos permanecem em tensão produtiva, sem se resolver em uma única medida. O objetivo é enfaticamente imanente. Não há saída da abstração financeira rumo a algum exterior pastoral; a questão é como mundos plurais de valor poderiam se coordenar sem se tornar um só. A arte cosmofinanceira de pertencer no devir coloca em primeiro plano processos de descoberta de valor que não se confinam à lógica do mercado. Pois o que devemos uns aos outros não é algo em particular: é o próprio desconhecido que envolve nossas existências, as zonas de opacidade e indeterminação delineadas por nossos encontros mais ou menos felizes. O cosmo- em cosmopolítica, cosmotécnica, cosmofinança remete ao desconhecido constituído por esses mundos múltiplos e divergentes, e às articulações de que eles são capazes.

IHU – Ouvindo você, tem-se a impressão de que finanças e mitologia trocam de lugar o tempo todo; que por trás da questão do valor há sempre uma questão de crença.

Erik Bordeleau – É uma bela maneira de colocar. Estou cada vez mais inclinado a pensar que a mitologia é infraestrutura de base. Precisamos cultivar um novo tato para a infraestrutura, à altura do desafio da organização política na era digital. Ou o contrário, seguindo uma intuição que devo à teórica feminista Elizabeth von Samsonow: nosso mundo atual exige uma atenção infraestrutural renovada – uma sensibilidade perspectivista às condições materiais e organizacionais que possibilitam ou impedem a inteligência coletiva.

Esse tato experimental corresponde ao que Lovink chama de stacktivism: intervenções de design de base na extremidade dos monopólios das redes sociais. As infraestruturas carregam uma cosmologia, admita-se isso ou não: uma história sobre o que conta, o que circula, o que pode ser esquecido.

Todos sentimos que o mundo tal como estava estabilizado está cedendo. Oitenta anos de ordem do pós-Segunda Guerra viraram praticamente fumaça – o genocídio em Gaza e o colapso da ordem dos direitos humanos, os oligarcas, a corrupção absoluta; há demais a nomear. Em um momento assim, a mundificação vai nas duas direções ao mesmo tempo: rumo ao infraestrutural e rumo à reabertura do mitológico – até chegar à pergunta de Federico Campagna, em Otherworlds: Mediterranean Lessons on Escaping History (2026), sobre que imagens podem manter um mundo unido quando uma cosmologia termina.

Ian Cheng tem uma bela fórmula para o que a arte deveria oferecer: um mundo em que se possa acreditar. Tomo isso literalmente, e economicamente. A tarefa é infraestruturar as condições de uma crença no mundo – que é o velho diagnóstico de Deleuze, de que o que mais nos falta é crença neste mundo, nesta vida. As finanças, sob essa luz, revelam-se a grande mitologia capturada do nosso tempo: uma enorme maquinaria de produção de crença em certos futuros e de descrença em todos os outros. Precisamos descolonizar os espíritos brancos das finanças. É uma questão de saber quais agências invisíveis e mais-que-humanas podem subscrever um futuro, e de como e quem tem permissão para consultá-las.

IHU – Talvez seja aqui que entra The Sphere, o projeto de pesquisa-criação que você cofundou e codirige. O que significa, concretamente, construir um “comum regenerativo para as artes vivas”? E o que significa tratar o financiamento como uma forma de arte?

Erik Bordeleau – The Sphere emergiu, como narrativizamos no filme que fizemos sobre o projeto, “de uma tenda de circo em algum lugar da Suécia”, antes de se desdobrar em um esquadrão de filósofos, artistas e designers de mecanismos insurgentes que praticam o que gostamos de chamar de Staatskunst – a arte de construir formas estatais e organizacionais alternativas. É um projeto de pesquisa-criação que explora novas ecologias de financiamento para as artes vivas: um ecossistema digital que tomou forma desenvolvendo rituais e protocolos de comunalização (commoning) que resistem ao achatamento habitual dos valores contra o horizonte do meramente economicamente viável, adotando de maneira lúdica abordagens de front-end para navegar o inconsciente positivo  o back-end financeiro  da vida social.

Para abolir a quarta parede, The Sphere abraça o financiamento como forma de arte. Sua comunidade é feita de dinheiro? Ou seu dinheiro é feito de comunidade? The Sphere recusa a dicotomia. Comunidade e moeda se coconstituem através da circulação; o dinheiro se torna o traço termodinâmico da intensificação coletiva. The Sphere não precisa de uma medida comum para coordenar seus modos; precisa de operadores transdutivos que componham através de estratos heterogêneos  protocolos, filmes, performances, anarquivos. É uma ecologia que metamorfoseia a gestão do risco econômico em metaestabilidade compartilhada.

Meu trabalho gira de perto em torno de questões de excesso, ou “dispêndio suntuário”, como diria Bataille. Lembra do convite de Fisher a “deleitar-se no momento”? É isso que The Sphere codifica como prova-de-celebração (proof-of-celebration). Onde a prova-de-trabalho (proof-of-work) pergunta o que você computou? e a prova-de-participação (proof-of-stake) pergunta o que você detém?, a prova-de-celebração pergunta: o que vocês dispenderam juntos? É um mecanismo de consenso incorporado para a arte – a validação da intensificação coletiva. A aposta é batailleana, por assim dizer: aquilo que aparece como puro dispêndio, isto é, a festa, a performance, o encontro, pode servir de substrato gerativo para formas organizacionais persistentes. O valor como traço termodinâmico da celebração. Suficiência exorbitante, codificada em uma série de protocolos duros (técnicos) e moles (intersticiais). Generosidade especulativa, contra a especulação extrativa.

IHU – E o redemoinho? Seu trabalho recente gira em torno dessa figura – gira no sentido forte, já que ela parece ser ao mesmo tempo aquilo que você estuda e o modo como você se organiza. Há até uma deusa envolvida, pelo que entendi.

Erik Bordeleau – Uma deusx, por favor (risos). Deixe-me dar primeiro a definição curta. Redemoinho sintético (synthetic swirl, s.m.): uma primitiva organizacional; uma figura sintrópica do devir tecnocoletivo por dissipação.

Redemoinho sintético

O redemoinho é aquilo que se sustenta ao soltar. Na dinâmica dos fluidos, um vórtice mantém sua forma coerente precisamente porque a matéria flui através dele: interrompa a corrente e a forma se dissolve. Isso faz dele uma forma exemplar para um outro tipo de organização – que persiste através da circulação contínua, evitando a estase institucional. Onde as hierarquias concentram a decisão e a acumulação concentra a riqueza, o redemoinho aberto distribui agência em todas as escalas. Não há centro que não se torne imediatamente periferia; não há ponto de acumulação que não vaze de volta para a circulação. O redemoinho é a forma assumida por sistemas que mantêm coerência através da dissipação primitiva – valor gerado por dispêndio em vez de extração. A floresta encarna essa lógica sintrópica: a decomposição no chão possibilita a ascensão na copa. O que cai alimenta o que espirala para cima, para baixo e através.

IHU – Mas como um padrão natural se torna uma figura sintética, isto é, uma figura que guia a individuação tecnocoletiva?

Erik Bordeleau – A passagem da forma observada ao princípio operacional exige um ato de fabulação, um salto especulativo que trata a recorrência morfológica como restrição de design. É aí que o redemoinho se torna sintético. O padrão deixa de ser encontrado. Ele é composto, deliberadamente, como infraestrutura para o devir coletivo.

No auge do primeiro ciclo de financiamento de The Sphere, a cineasta e codiretora Lene Vollhardt produziu Swirls of Fortune (2025), uma descida alucinógena àquilo que essa forma organizacional sente por dentro. No filme, emerge uma figura: Swirl, apresentada explicitamente como uma “deusx dissipativa”. Onde os antigos deuses retinham seus poderes pelo acúmulo – adoradores, sacrifícios, reivindicações territoriais –, essa deusx existe no spread que abre entre juntar impulso e doá-lo. Ao longo do filme, Swirl atua como voz oracular, tentando-nos a um processo estranhante de adivinhação. Um dos fulcros conceituais do filme chega quando Swirl pronuncia: “Somos um labirinto que pode virar uma roda.É o mais perto que chego de uma definição de inteligência coletiva: perder-se junto, de tal modo que a própria desorientação se torne uma aventura de descoberta de valor. A desorientação torna-se o mecanismo de propulsão.

Swirl deixa os padrões escaparem, segurando-os frouxamente o bastante para que possam ser reativados, transformados, desviados para novos devires. Transmissão em vez de preservação – que é, no fim das contas, para o que serve um anarquivo. Pois o que um coletivo pode possuir, curar e passar adiante é seu corpus: o contexto que ele monta, o arquivo de onde ele recupera, a memória que ele decide que vale a pena guardar.

IHU – Gostaria de acrescentar algo?

Erik Bordeleau – Quanto ao meu próprio devir – organizacional e outro –, tomo emprestadas minhas palavras finais de Lydia Davis: “Como uma tempestade tropical, também eu posso um dia me tornar ‘melhor organizada’.” Uma tempestade tropical, afinal, é um redemoinho que aprendeu a manter sua forma um pouco mais tempo.

Leia mais