Mark Fisher contra a dormência perceptiva. Artigo de Rodrigo Gonsalves, Victor Marques e Jorge Adeodato

Foto: Charles Puaud/Unplash

14 Julho 2026

Em sua última obra, agora lançada no Brasil, autor busca conectar filosofia e cultura pop. Navegando entre o cinema de Kubrick e as páginas de Lovecraft, livro transforma os subgêneros de ficção científica e horror em ricas fontes de análise para pensar o estado de apatia social.

O artigo é de Rodrigo Gonsalves, Victor Marques e Jorge Adeodato, publicado por Outras Palavras, 10-07-2026. 

Rodrigo Gonsalves é psicanalista e professor da UFABC. Possui mestrado e doutorado em Filosofia pela EGS (Suíça), além de mestrado e doutorado em andamento em Psicologia Clínica pela USP. Pesquisador de marxismo e psicanálise lacaniana, integra laboratórios como Latesfip e Gpol (USP) e o comitê editorial da revista Continental Thought and Theory.

Vitor Marques é professor e pesquisador graduado em Ciências Biológicas (USP), com mestrado em Filosofia (UFC) e doutorado na área pela PUCRS, com período sanduíche na Universidade de Bonn (Alemanha). É editor associado da revista Jacobin Brasil e estuda filosofia da biologia, da mente, da ciência, da tecnologia e da política.

Jorge Adeodato é professor assistente de Literatura em Língua Inglesa na UVA (Ceará), mestre em Estudos da Tradução (UFC) e doutorando em Teoria da Literatura (UFPE). Tradutor de autores como Mark Fisher e Cory Doctorow, coordena projetos de pesquisa e extensão focados em literatura contemporânea, estudos de mídia e processos de adaptação.

Eis o artigo.

Há algo de sinistro em The Weird and the Eerie, último livro de Mark Fisher, que agora ganha uma edição brasileira. Em algum sentido, é como se a obra estivesse retrospectivamente assombrada pela presença da ausência do autor – Fisher faleceu no dia 13 de janeiro de 2017, poucos dias depois do lançamento do livro. Chama atenção como, aqui, o próprio tom da escrita de Fisher adquire uma espécie de “calma sinistra”, de quem caminha lentamente entre ruínas, atento aos ecos, lacunas e vestígios de algo que não está mais ali. 

Quem conhece Fisher apenas por Realismo Capitalista pode estranhar: estão ausentes não apenas a intensidade frenética de uma escrita acelerada, mas também o sentimento de urgência diante das questões políticas imediatas. Vemos um Fisher meditativo e desapegado, tateando no escuro, sem direção aparente, como se houvesse suspendido provisoriamente a necessidade de orientar ou mobilizar. Não há lições ou apelo direto à ação – nem sequer crítica, no significado estrito da palavra. Um livro soturno, deliberadamente inconcluso, redigido sob o signo do assombro, no qual o que domina é uma postura de fascinação e exploração em relação ao “Fora” [the outside].

Em boa medida, o livro é um retorno aos temas de sua tese de doutoramento Flatline Constructs: Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction (2018) [1995]. Fisher retoma, embora em registro notavelmente distinto, o materialismo gótico, o animismo anti-humanista, o interesse por agências impessoais e pela zona de indistinção entre realidade e ficção. Em ambas as obras, Fisher está obcecado com o que reside além da percepção e cognição humana ordinária. Mas trata-se de um retorno sem euforia. Se em Flatline esses motivos explodiam em chave proliferante, quase maníaca, como se o colapso do sujeito e a autonomização dos circuitos técnicos e narrativos pudessem ser explorados como vetores de ruptura, aqui reaparecem desencantados, frios, privados de qualquer promessa imanente. A experimentação agressiva dá espaço à contemplação cautelosa.

A tese de doutorado aglutinou interesses que orbitavam o grupo de pesquisa CCRU (Unidade de Pesquisa em Cultura Cibernética), do qual Fisher participara ao longo de seus anos de pós-graduação em Warwick, investigando o cyberpunk e filosofias anti-humanistas sob forte influência de Donna Haraway, Deleuze, Baudrillard, Lyotard e Espinosa. Foi ali que Fisher aprendeu a teorizar sobre a cultura, não ao estilo da “crítica cultural” clássica, mas a pensar por meio da ficção, em meio a e com a cultura pop – engajando-se teoricamente com contos e romances da literatura de língua inglesa e cinema hollywoodiano, dedicando-se especialmente aos gêneros do horror e da ficção científica. As noções centrais na tese são o “materialismo gótico”, desenvolvido de uma perspectiva deleuze-guattariana, e a “teoria-ficção”, inspirada na hiperficção de Baudrillard. O curioso é que já ali se pode perceber a preocupação com o Unheimliche [1] freudiano, em um diálogo tenso com o fundador da psicanálise.

De cara, Fisher anuncia que este livro que o leitor agora tem em mãos é uma espécie de acerto de contas com um compromisso por anos adiado. Poder-se-ia dizer que, de maneira tácita, o Unheimliche – aquilo que “deveria ter permanecido em segredo, mas veio à superfície”, na definição que Freud recolhe de Schelling – sempre rondou o pensamento de Fisher: um certo assombro persistente, que atravessa suas reflexões sobre cultura, tecnologia e capitalismo, mas que só aqui ganha um tratamento sistemático. Esse peculiar afeto, como diz Dunker, tem por dimensão a experiência subjetiva de uma espécie de “alteração”, expressa no sentimento de uma mudança perturbadora entre o cômodo e o incômodo, familiar e infamiliar, deixando fronteiras desconfortavelmente borradas; trata-se, portanto, de uma manifestação peculiar da experiência de angústia. O retorno, contudo, está longe de ser mera repetição.

Em Flatline Constructs, o Unheimliche aparece sobretudo como um campo de batalha: FisherFreud como alguém que se aproxima da agência do inanimado, da falha na distinção entre sujeito e objeto – apenas para, no último instante, recuar e reinscrever o estranho no interior da economia psíquica, neutralizando sua ameaça ontológica por meio da psicologização. O Unheimliche surgia ali como sintoma de uma repressão filosófica mais ampla: a tentativa de conter, no registro do dentro, aquilo que apontava para um fora material, impessoal e inassimilável. Daí a necessidade de ir “além” do Unheimliche. Em O estranho e o sinistro, Fisher está interessado, como Freud, em um tratamento do “estranho”, mas recusa a ideia de reduzi-lo à forma do “familiar perturbado” – e resiste a qualquer tentativa de reconduzir o fora ao drama doméstico, à casa, à família. Trata-se, ao contrário, de explorar modos de estranhamento que não se deixem absorver pelo lar humano.

Dois momentos do Unheimlich em Fisher

Em Flatline Constructs, Fisher já declarava que Das Unheimliche havia sido uma espécie de “oportunidade desperdiçada” em relação à potência do conceito, e chega a nomear como “decepcionante” a postura de Freud diante da dimensão de seu achado. A frustração de Fisher reside no fato de que Freud parece meramente “flertar” com o tema fundamentalmente gótico pelo qual ele mesmo se aproximou, central à formulação do materialismo gótico, a partícula negativa que está à frente do incômodo, do infamiliar, do unheimliche. É essa negatividade que introduz uma fissura na experiência, estrangeirizando a relação do sujeito com sua própria realidade e produzindo o estranhamento não como simples conteúdo, mas como forma negativa da experiência.

Fisher nota no recuo de Freud um ponto fascinante: há algo na dimensão do perturbador, do infamiliar, que acena ao horror. Freud encontra, na partícula negativa, um caminho para outra forma de oposição: que encara os opostos vivo/morto, convidando-nos a uma outra dimensão de negatividade, um continuum presente em figuras como a dos mortos-vivos (des-mortos). No entanto, denuncia Fisher, ao se deparar com a radicalidade gótica desta dimensão inumana, Freud hesita.

Fisher problematiza a compreensão das crenças animistas freudianas, presentes em Totem e Tabu [1913], que “se referem às camadas mais primitivas da mente, um equivalente ontogenético ao estágio filogenético dos ‘primitivos’”, referindo-se à dimensão das almas, espíritos, daquilo que anima o inanimado e subjaz como acúmulo reminiscente da nossa compreensão humana acerca de nós mesmos. Fisher interroga como Freud não manteve “o problema do animismo em cheque” valendo-se da contraposição crítica de Baudrillard, que indica que a divisão freudiana entre o que pertence ao “primitivo” e aquilo que estaria ao lado da “civilização” são aproximações problemáticas; soam como sintoma do excesso psicologizante que impera a partir de marcas pós-vitorianas de Freud.

Fisher, por seu lado, simplesmente abandona a ideia de “animismo” como um traço arcaico ou infantil, algo que deveria ter sido subsumido no desenvolvimento normal, mas não foi. Mais especificamente, Fisher aponta para o “retorno do animismo em uma era cibernética”, ilustrando com uma análise do filme Toy Story a realidade anímica da organização social capitalista em seus produtos culturais, em que objetos (brinquedos-mercadorias) ganham “vida”: “a ficcionalidade possui aqui um novo sentido, já não tem nada a ver com qualquer intangibilidade fantástica; muito pelo contrário, os brinquedos na tela estão imediatamente disponíveis enquanto objetos de consumo, assim que se sai do cinema.” Fisher, assim, desloca o problema para uma zona mais profunda, em que a distinção interno-externo se embaralha, revelando como os modos de subjetivização contemporâneos se reorganizam precisamente neste curto-circuito entre exterioridade e interioridade, sob formas renovadas de alienação e de interpassividade.

Em “O estranho e o sinistro”, testemunhamos, enfim, a segunda investida de Fisher sobre o território do Unheimliche. Fisher não retorna a Freud para reiterar o problema, mas para desambiguá-lo. O mesmo campo de experiências inquietantes deixa de ser tratado como dominado por um afeto unitário e passa a ser decomposto em duas modalidades distintas: o weird (o estranho fisheriano) e o eerie (aqui traduzido por sinistro). Ambas dizem respeito ao strange [estranho], e nisso se aproximam do Unheimliche freudiano.

Fisher sugere, no entanto, que Freud, apesar de tocar algo radicalmente estrangeiro, alienígena, no Unheimliche, acaba por recuar, reinscrevendo essa estranheza no interior da economia psíquica humana e no drama familiar. É o estranho no interior do familiar, da dinâmica do doméstica: “o estranhamente familiar, o familiar como estranho”. O que seria verdadeiramente estranho – no sentido de exterior ao humano – tende, assim, a ser neutralizado. “Já o estranho e o sinistro”, nos conta Fisher, “fazem o movimento oposto: permitem-nos ver o interior da perspectiva do exterior”.

O estranho fisheriano é justamente aquilo que não pertence, que está além do familiar e que, portanto, não tem como ser abarcado ou conciliado com o “caseiro”/“doméstico” [homely], nem mesmo por meio da sua negação. O estranho é o fora, o incomensurável em relação às categorias humanas, índice do encontro não mediado com o desconhecido, que só é experimentado como anomalia: a sensação talvez aterrorizante ou mesmo enlouquecedora de que “algo está terrivelmente errado”, de que o mundo não é como esperávamos que fosse. Há aqui uma recusa clara e deliberada a qualquer humanismo reconfortante.

É precisamente esse resto não assimilado que Fisher decide perseguir. O “estranho” e o “sinistro” operam o movimento inverso ao do Unheimliche: em vez de reconduzir o estranho ao familiar, à experiência subjetiva, trata-se de estar aberto para que o exterior desestabilize o interior, sem reabsorção doméstica possível. O weird [estranho] designa a intrusão do que deveria permanecer fora e não pode ser encaixado no já familiar. O eerie [sinistro], por sua vez, emerge quando a ausência ou a presença de agência se torna perturbadora – quando algo age sem que possamos identificar um agente, ou quando um vazio se impõe onde esperávamos ação humana. Em ambos os casos, não se trata de um mero desconforto psicológico, mas de uma falha ontológica: o mundo deixa de confirmar nossas pressuposições e expectativas mais básicas.

Com isso, Fisher não apenas reinsere o infamiliar na conversa entre psicanálise e filosofia, mas pretende avançar para além de Freud, radicalizando a intuição que o próprio Freud, ao menos segundo Fisher, manteve sob controle. Ancorado nos marcos prévios do materialismo gótico, Fisher parece arriscar algo como um Das Unheimliche com esta chave gótica, privilegiando a particularidade da negação radical que ele próprio identifica em Freud, buscando não suprimi-la diante do horror, do absurdismo cósmico, da dimensão do exterior sobre o interior que enfrenta a “onipotência do pensamento” diante da dimensão de um Real, de um ponto de escapatória do passível de ser imaginado ou simbolizado, que invade a experiência subjetiva exigindo uma nova reconfiguração.

Fiel à estratégia ensaística de Freud, Fisher atravessa uma vasta constelação de exemplos culturais – filmes, romances, séries, músicas – mas o faz agora com outro objetivo: não ilustrar um afeto já dado, e sim cartografar modos distintos de estranhamento. O estranho e o sinistro tornam-se, assim, categorias críticas capazes de organizar experiências contemporâneas em que o familiar se torna obsoleto, em que o humano perde centralidade e em que forças impessoais passam a estruturar o mundo social. Ao formalizar essa desambiguação, Fisher sela uma de suas contribuições mais duráveis: oferecer instrumentos conceituais para pensar como o Real irrompe – e assombra – em um contexto marcado pelos avanços brutais e despersonalizantes do realismo capitalista.

Por uma estética nada reconfortante

O que Fisher avança em relação a Freud no que diz respeito ao tratamento teórico da estética do horror e do grotesco? Weird [estranho], eerie [sinistro] e Unheimlich [infamiliar] são todos modos do estranho, do inquietante, do que é ao mesmo tempo desconfortável e fascinante, do que simultaneamente angustia e seduz. O movimento de Fisher é decididamente xenofílico: onde antes se podia ver um ponto de paralisia perante o assombro, ressalta-se agora precisamente como o local onde a emergência criativa deve se dar. Xenofílico, portanto, não no sentido de celebrar o estranho como fantasia ou fetichizar a alteridade, mas no sentido mais austero de manter aberta a possibilidade do fora – do Real que não se deixa traduzir em experiência, identidade ou narrativa de reconciliação. O fora aqui não é transcendência mística, nem promessa redentora; é aquilo que resiste ao nosso enquadramento simbólico e que, justamente por isso, permanece como condição da novidade. Em vez de um ponto de silenciamento, Fisher encontra o local onde o pensamento é desafiado – por assim dizer, retirado de sua “zona de conforto”.

Não é novidade que a composição do pensamento de Mark Fisher, desde seu envolvimento com a CCRU, se organiza como um esforço sistemático de diagramar uma “alça estranha” entre filosofia e crítica cultural, imanentizadas em um mesmo circuito. Em “O estranho e o sinistro”, esse gesto se intensifica: a atenção de Fisher se volta de modo deliberado para a ficção científica, o horror, as séries e o cinema, tratados não como simples sintomas culturais ou objetos a serem interpretados, mas como artefatos já carregados de teoria. Ao investigar aquilo que nos assusta, nos perturba ou nos desestabiliza, Fisher mostra como essas produções culturais conseguem expressar algo decisivo sobre a nossa própria configuração social diante do diferente. O grotesco, o monstruoso, o temerário não são apenas objetos de medo: eles funcionam como espelhos invertidos de nossas disposições conservadoras frente à alteridade e dos limites estruturais impostos à imaginação radical.

Nesse cenário, a noção de hiperstição – ainda que aqui apenas implícita – ganha novo relevo. O fluxo acelerado e excessivo do desenvolvimento técnico-capitalista, ao impor o consumo como regra de pertencimento e sociabilidade, não “desencanta” o mundo; ao contrário, lança novos feitiços e engendra agências não-humanas. A delegação sistemática de desejos, satisfações e decisões a circuitos maquínicos e digitais altera profundamente o tecido das interações humanas – ou melhor, das interações já parcialmente inumanizadas, convertidas em “poder alienígena” sobre os humanos. O estranho e o sinistro funcionam aqui como operadores críticos que nos obrigam a conceber outros espaços para o estrangeiro e o diferente, abrindo pontos de inflexão a partir dos quais se tornam possíveis estéticas-políticas da alteridade menos domesticáveis.

O derradeiro livro de Fisher nos implica em uma travessia por literaturas e imagens que interrompem a dormência perceptiva, forçando-nos a perguntar por que certas estéticas da estranheza nos incomodam tanto. O percurso de Fisher pelo alienígena, pelo mágico, pelo insólito e pelo esquisito convida a repensar aquilo que fomos ideologicamente treinados a receber com receio, com incômodo e com repulsa. Trata-se de uma tentativa de abrir espaço para outros modos de estar no mundo. Para Fisher, um dos antídotos mais potentes contra a nostalgia repetitiva que estrutura a experiência capitalista tardia está na desobstrução de potenciais de liberdade que já circularam no passado, mas foram bloqueados, esquecidos ou neutralizados. É nesse sentido que o refinamento estético entre o estranho e o sinistro não se reduz a uma tipologia afetiva, mas tem consequências metafísicas. De alguma maneira, é como se esse livro fosse a contribuição tardia de Fisher ao chamado “realismo especulativo”.

Se a criatividade arquitetônica de conceitos é uma das característica mais evidentes de Fisher enquanto pensador, este livro então evidência de maneira cabal esse traço. Um dos casos mais evidentes é sua discussão em torno das passagens [egress] que refere-se à sensibilidade ficcional apontada para abertura de portais e caminhos para outros mundos. Fisher defende que uma das consequências da discussão do estranho e do sinistro está intimamente vinculada às suas condições de conduzir o pensamento às saídas para outros mundos. E, muito embora a sua atenção aos bolsões temporais, as interdimensões, ao liminal integrem seu pensamento desde a CCRU (em meio aos lêmures e aos fantasmas), nesta obra encontramos sua apresentação das passagens [2]. Como se esbarrássemos em algo do Real por meio dessas passagens implicando numa transformação subjetiva inevitável de invenção de novas simbolizações e novos imaginários, pois nada mais pode ser o mesmo.

E a política nisso tudo? Trata-se de um livro apenas indiretamente político. O próprio Fisher esteve, até o último momento de sua vida, como demonstram as aulas reunidas em Desejo Pós-Capitalista e os rascunhos de sua grande obra não-escrita, Acid Communism, interessado na “política a quente”. Não é segredo que Fisher estava ativamente envolvido com coletivos militantes, empenhado em fazer “análise de conjuntura” no calor do momento, engajado em processos de massa “populistas” e disputa do senso comum. Mas nada disso transparece, sequer minimamente, em O estranho e o sinistro, onde reina o “desprendimento das urgências do cotidiano” e uma serenidade sinistra, como um calafrio ao pé da nuca.

Lento e reflexivo, O Estranho e o sinistro – voltamos a enfatizar – é um texto sinistro no sentido rigoroso do termo, seja no estilo, seja no conteúdo. E não porque trate do macabro ou do aterrorizante, mas por parecer estar embebido em uma letargia crepuscular, fantasmática, espectral. Fixado em agências etéreas, não por acaso o capital desponta como entidade eminentemente “sinistra”: conjurado do nada, gozando de uma existência não substancial, e ainda assim dotado de mais eficácia causal do que qualquer objeto material alegadamente sólido. Um verdadeiro “escândalo metafísico”. Como pensar a agência do capital, essa Coisa que não existe de nenhum modo palpável, mas causa tantas consequências? À maneira de Fredric Jameson, Fisher mobiliza a estética do sinistro para esboçar um mapeamento cognitivo do capitalismo contemporâneo, apontando para sua arquitetura invisível e os fantasmas que operam em seu sistema operacional, com efeitos bastante concretos.

Mas o sinistro, como nos lembra Fisher, também tem sua ética. Esse caráter assombrado não implica resignação, muito menos desespero. Ao comentar o filme Stalker, de Andrei Tarkovsky, Fisher fala de uma “ética do sinistro”: uma ética fundada na humildade diante do desconhecido e na dedicação paciente à sua exploração. Não se trata de conquistar o fora, de domesticá-lo, mas, bem diferente, de aprender a mover-se nele sem fingir controle – explorar improvisadamente espaços que oferecem tanto aberturas, possibilidades, quanto perigos. Uma ética do limite: o Real não tem nenhuma obrigação de cooperar com nossas expectativas. À sua maneira, o livro acaba encarnando também uma estranha pedagogia: ensina por exposição estética, por treinamento da sensibilidade mais do que por doutrina explícita, a suportar a exterioridade sem pressa de assimilação, a navegar sem dominar. Trata-se de uma fidelidade ao alienígena enquanto tal, em sua indomesticável irredutibilidade – uma recusa obstinada de reduzir o fora ao familiar perturbado, de aquecer o mundo com providências fáceis.

Construir uma teoria da “providência material”, aliás, era algo que Fisher estava tateando nos seus últimos anos. A obsessão por destino e dobras temporais fica evidente nas páginas que se seguem. Ao lembrar que o sentido arcaico de weird é “destino” [fate], Fisher comenta que o conceito de destino é “estranho” porque envolve formas distorcidas de tempo e causalidade (alças estranhas, paradoxos, retroação do futuro sobre o passado), mas também é “sinistro” porque suscita a questão da agência, sem contudo resolvê-la – quem, afinal, é o sujeito que tece a trama do destino? A providência material de Fisher não promete redenção, nem sentido último. Ou seja, não garante nada, mas rompe com uma concepção linear de tempo para manter aberto o campo do possível, mesmo em um mundo governado por sistemas maquínicos impessoais e sujeitos automáticos. Politicamente, inclui a recusa tanto do fatalismo quanto do voluntarismo: agir não é cumprir um destino já traçado, mas intervir em circuitos temporais incertos, produzindo as condições pelas quais outros futuros possam tornar-se causalmente eficazes no presente. Em outras palavras, destino não é o que simplesmente acontecerá, mas aquilo que só pode acontecer na medida em que já começou – de forma virtual, espectral – a operar.

Um livro anti-populista, portanto. Politicamente desconcertante: não oferece estratégias, não personaliza o poder, não aquece antagonismos. Quem quiser uma teoria que funcione como abrigo, se decepcionará. Certamente, não se sentirá em casa. Sua intervenção é, mais que nada, negativa: coloca em questão qualquer política que precise reduzir a complexidade Impessoal do mundo a narrativas reconfortantes. O estranhamento que ele produz não paralisa, ou, pelo menos, não deveria; sinaliza, e isso sim é crucial, que velhas fórmulas falharam e que novas formas de organização exigem um pensamento capaz de permanecer no incômodo, aturá-lo, alimentar-se dele. Em suma, o que temos é um escrito com aparência de inacabado, que aceita não concluir, como se tivesse sido interrompido no meio, sem síntese, suspenso num espaço liminar – e convidando o leitor a fazer o mesmo.

Referências

Badiou, Alain. 2018. Lacan: anti-philosophy 3. Nova York: Columbia University Press.

Colquhoun, Matt. 2020. Egress: On Mourning, Melancholy and the Fisher-Function. Londres: Repeater.

Fisher, Mark. 2018. Flatline Constructs: Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction. Nova York: Exmilitary Press.

Fisher, Mark. 2020. Realismo Capitalista. São Paulo: Autonomia Literária.

Danto, Elizabeth. 2018. As clínicas públicas de Freud: Psicanálise e Justiça Social, 1918-1938. São Paulo: Editora Perspectiva.

Dunker, Christian. Nova York: “Animismo e Indeterminação em “Das Unheimliche”” em Obras Incompletas de Sigmund Freud: O Infamiliar. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019, pp. 199-2018.

Freud, Sigmund. 2019 [1919] O infamiliar. Minas Gerais: Editora Autêntica.

Gonsalves, Rodrigo. (2021b). Groundwork for Monstrous Materialism: (in)humanity and the uncanniness of our everyday life.

Tese de doutoramento em Filosofia pela European Graduate School [no prelo para publicação pela Editora Routledge em 2025].

Lacan, Jacques. 1986. Seminário: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar.

Marques, Victor; Gonsalves, Rodrigo. 2020. Contra o cancelamento do futuro: a atualidade de Mark Fisher na crise do neoliberalismo em Capitalismo Realista. São Paulo: Autonomia Literária.

Parker, Ian; Pavón-Cuéllar, David. 2024. Psicanálise e Revolução. Minas Gerais: Editora Autêntica.

Safatle, Vladimir. 2020. Maneiras de inventar mundos. Belo Horizonte: Editora Autêntica.

Schelling, Friedrich. 1841. Philosophie der Mythologie, in Ausgewählte Schriften, hg. v. Manfred Frank (Frankfurt/Main: Suhrkamp, 1985), VI, S. 661.

Notas

[1] O unheimlich é um operador psicanalítico profundamente profícuo ao pensamento crítico. Optamos por não traduzir o termo em alemão ao longo do livro – não por um elitismo academicista, mas para sustentar o texto original de Fisher, que o mantém também em sua forma original, e em respeito às muitas traduções já consagradas em português. Em 1919, Freud escreve Das Unheimliche, dedicado ao sentimento de “incômodo” (2020), “infamiliaridade” (2019), “inquietação” (2010), “estranheza”, entre outras versões em língua portuguesa.

Para além da falta de consenso tradutório claro, o operador unheimlich atua na psicanálise como contribuição metodológica, versando sobre as dimensões dialéticas dentro/fora, escondido/revelado, público/privado (entre tantas outras modalidades de sua expressão) nas experiências humanas, que incidem em variadas dimensões e variados graus de angústia.

O unheimlich é um método de organização da escuta clínica diante do que carece de simbolização (Dunker, C. I. L. Animismo e indeterminação em “Das Unheimliche”. Em: Obras incompletas de Sigmund Freud: o infamiliar. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019, p. 199–218; Gonsalves, R. Os desdobramentos do infamiliar em Freud e Lacan. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021; Gonsalves, R. Groundwork for monstrous materialism: (in)humanity and the uncanniness of our everyday life. Tese (Doutorado em Filosofia) – European Graduate School, SaasFee, Suíça, 2021).

Ver mais em: Gonsalves, R. O unheimlich e o paradigma estético-político contemporâneo: metodologia e reflexões acerca das implicações inumanas da vida cotidiana: the unheimlich and the contemporary aesthetic-political paradigm: methodology and thoughts on the inhuman implications of our everyday life.
Simbiótica: Revista Eletrônica, v. 11, n. 1, p. 92–110, 2024. Disponível aqui.

[2] Matt Colquhoun (2020) dedicou-se à continuar essa discussão iniciada por Fisher em sua obra Passagens: sobre luto, melancolia e a função-Fisher [Egress: On Mourning, Melancholy and the Fisher-Function], selando o compromisso de prosseguir a formulação presente no pensamento fisheriano. 

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