Vattimo, cristianismo, a verdade. Artigo de Flavio Lazzarin

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04 Dezembro 2023

"Vattimo nos repete que (...) o cristianismo não é uma religião, mas é intimamente o desconstrutor da religião. Para Vattimo, Jesus é a Verdade como pessoa, evento e Evangelho, mas não se identifica com a verdade que herdamos da tradição filosófica. Jesus nos libertou dessa verdade".

O comentário é de Flavio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em artigo publicado por Settimana News, 24-11-2023.

Eis o artigo.

"Eu sustentei um cristianismo sem verdade. Fraco, com certeza. A ponto de, tendo que escolher entre Jesus e a verdade, eu escolheria ele. É uma bela frase de Dostoiévski" (Gianni Vattimo) [i]

A atual crise da Igreja Católica, caracterizada pelo agravamento das tensões e conflitos entre diferentes setores e alternativas, apresenta aspectos filosóficos interessantes. Quais são as influências da filosofia contemporânea sobre a crise que, na modernidade, impacta os regimes da cristandade europeia e colonial? Quais temas filosóficos poderíamos destacar no conflito entre os tradicionalistas e os mentores do Vaticano II?

Cristianismo e verdade

Como ponto de partida, escolhi Gianni Vattimo, o filósofo que lidou extensivamente – também em colaboração com René Girard – com questões especificamente teológicas, relacionadas à tradição judaico-cristã. Ele, juntamente com Lyotard, conseguiu interpretar a nova maneira de abordar a vida e a história das sociedades ocidentais, sintetizando a percepção da mudança profunda no pensamento que chamamos de pós-moderno. Em resumo, é a crítica radical de todas as grandes narrativas, incluindo as narrativas iluministas e as de origem metafísica.

Vattimo, com o "pensamento fraco", revelou a distância que a modernidade estabelecia em relação a todas as ideologias, desmascarando a presunção e a violência do Aufklärung, juntamente com a irrelevância e a violência da metafísica. Ele radicaliza o tema da "morte de Deus" de Nietzsche e da "metafísica da superação" de Heidegger. E incorpora em seu pensamento o único aspecto para ele inalienável do cristianismo: a kenosis, o divino, o extremo esvaziamento da humanidade de Jesus, que nos apresenta um Deus fraco, impotente, indefeso, sem onipotência e sem autoridade.

Kenosis que se identifica com a ágape, caritas, revelada em plenitude pela crucificação: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 26,34). Agape, que derrota, definitivamente e sem violência, a violência inerente ao "sagrado natural" (René Girard) das religiões. Ágape que, para ele, se caracteriza como diálogo com todas as escolhas ideológicas e morais, com a exclusão categórica das ideologias violentas.

É importante notar que a proposta de um diálogo tolerante e aberto se choca frontalmente com a concepção de uma verdade absoluta, que não pode aceitar falsidade e erro. Em resumo, este pensamento enfrenta aqueles que têm a paranoia do relativismo – e da perda de identidade – e o vício da autorreferencialidade.

Identidade doutrinária

É importante destacar que toda vez que, no âmbito católico, insistimos rigidamente na identidade doutrinária e nas tradições com "T" maiúsculo, aqueles que pensam de maneira diferente são as primeiras vítimas. Sem esquecer que, em nome da verdade, semeamos vítimas humanas ao longo da história. Somos protagonistas e cúmplices de genocídios e etnocídios, da colonização – aqui no Brasil – da Abya Ayala, sem esquecer a violência que caracterizou ao longo dos séculos a ação das Igrejas europeias.

Entrar em conflito com a filosofia neotomista e neoescolástica, criticar radicalmente a teologia e os teólogos magisteriais ou aqueles alinhados ao status quo, significa confrontar explicitamente aqueles que não podem renunciar, na exteriorização de sua fé, ao "ser" grego, de matriz parmenídea.

Encontramos essa posição nos frequentes discursos do Papa Bento XVI, que defendeu como tradição católica constitutiva e indispensável a presença do "ser" na reflexão teológica. Uma posição tão radical que o teólogo-papa chega a afirmar que não pode haver teologia sem metafísica. Foi também – e talvez principalmente – com base nesse critério que, durante os trinta anos dos pontificados de São João Paulo II e Bento XVI, muitos teólogos, cerca de duzentos, foram condenados ou investigados pela Congregação para a Doutrina da Fé.

É interessante e quase divertido notar que nesta lista de inqueridos não há biblistas. E por quê? Eles não são considerados teólogos em todos os aspectos? Na minha opinião, porque os biblistas simplesmente ignoram, em sua abordagem hermenêutica, qualquer referência crítica explícita à metafísica ou a qualquer outro sistema filosófico.

Isso diz respeito especialmente aos biblistas engajados na pastoral da libertação, que continuam a ter a liberdade de apresentar a figura de Jesus Messias sem reprovações e condenações por parte de Roma. Por exemplo: Carlos Mesters, Sandro Gallazzi e o ecumênico CEBI foram poupados pela Congregação para a Doutrina da Fé. E isso, mais uma vez, demonstra à escola de Francisco e Chiara que a Palavra de Deus é suficiente para alimentar e sustentar a fé dos discípulos.

Fim da religião

"Jesus Cristo veio ao mundo para revelar que a religiosidade não consiste em sacrifícios, mas em amar a Deus e o próximo. Todo aspecto na Igreja que não se reduz a esta única verdade não será, talvez mais uma vez, uma religião natural e vítima?" [ii]

A perspectiva de Vattimo, que na entrevista de fevereiro deste ano se declarava novamente e serenamente católico, é "a religião do fim da religião" [iii]. Juntamente com Girard, Vattimo nos repete que, como revelador dos aspectos constitutivos vitimizantes e sacrificiais das religiões arcaicas, o cristianismo não é uma religião, mas é intimamente o desconstrutor da religião. Para Vattimo, Jesus é a Verdade como pessoa, evento e Evangelho, mas não se identifica com a verdade que herdamos da tradição filosófica. Jesus nos libertou dessa verdade.

Hoje vivemos muitas tensões, e quem conhece a história sabe que elas não são novas. Novidade é a amplitude do ataque diário fornecido por publicações controversas e agressivas nas redes sociais.

Também é nova a composição teológica das duas partes do conflito: não há mais, como no século passado, a hegemonia dos teólogos alemães, holandeses e franceses; não há mais figuras emblemáticas que concentrem o debate como nos tempos de Hans Küng e Joseph Ratzinger, e a dialética entre duas revistas alternativas como Concilium e Communio perdeu prestígio.

Tudo está globalizado e diluído. Talvez seja nova a posição revanchista no lado conservador, com setores estatisticamente significativos do clero e dos leigos lutando para recuperar o espaço perdido. A ruptura é ampla e variada, muito mais complexa do que a desobediência no tempo de Lefebvre e da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Insurreição tradicionalista

O tradicionalismo católico de hoje difere do tradicionalismo lefebvriano e também difere do conservadorismo da teologia romana na época dos cardeais Ottaviani e Siri. Estes últimos aceitaram a dialética conciliar e optaram – eles também – por uma solução pacífica, que se manifesta claramente em muitos documentos do Concílio, onde encontramos a composição, teologicamente não resolvida, das contribuições dos conservadores e dos reformistas.

Massimo Faggioli nos ajuda a entender melhor:

"Uma maneira simples de decifrar o rosto da atual revanche católica é olhar para o mapa da oposição ao Papa Francisco. Existem três tipos principais de oposição ao pontificado atual. Há uma oposição teológica nostálgica do paradigma de João Paulo II e Bento XVI; há uma oposição institucional que busca defender o status quo eclesiástico e clerical; e, finalmente, há uma oposição político-social, preocupada com a sustentabilidade político-econômica de um pontificado que está radicalmente ao lado dos pobres" [iv].

Hoje, o neotradicionalismo se radicalizou: abandonou os tons moderados para assumir posturas extremistas, que – em minha opinião, algo mais preocupante – se aliaram ao extremismo de direita, não apenas nos Estados Unidos e no Brasil, mas infelizmente em cada canto do mundo ocidental. Novamente, Faggioli:

"É uma cultura católica tradicionalista que não é mais verdadeiramente conservadora. Pelo contrário, é uma insurreição. Para manter o catolicismo como antes, a atual instituição eclesiástica deve ser completamente destruída [v]. Este momento faz parte do caminho já tortuoso da recepção dos concílios ecumênicos. Ao julgar pelo que aconteceu com a recepção do Concílio de Trento, pode-se dizer que a recepção do Concílio Vaticano II está apenas começando.

Independentemente do que os católicos do Vaticano II pensam sobre a coerência entre o Concílio e a Igreja pós-conciliar e a traição do Concílio Vaticano II pela Igreja institucional, é difícil negar que a teologia conciliar se tornou o estabelecimento cultural e teológico católico. Agora é o momento de considerar a insurreição neotradicionalista contra esse estabelecimento e tentar imaginar para onde estamos indo a partir dessas premissas. O clima dos anos 1950 ou 1850 não volta, mas também não voltamos ao clima dos anos 60 ou 70" [vi].

Notas 

[i] "Eu sustentei um cristianismo sem verdade" de Gianni Vattimo, organizado por Antonio Gnoli para Robinson, inserido na La Repubblica, de 25 de fevereiro de 2023.

[ii] René Girard e Gianni Vattimo, Cristianismo e relativismo. Aparecida/SP, Santuário, 2010, p. 29.

[iii] Entrevista de Antonio Gnoli.

[iv] Massimo Faggioli, professor de teologia e ciências religiosas na Universidade de Villanova, em um artigo publicado pela Commonweal, citado pela La Croix International, 22 de janeiro de 2018 (na tradução para o português de Luisa Flores Somavilla, IHU). Disponível no link

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