Porque o ataque dos rabinos italianos ao Papa Francisco expõe um nervo exposto. Artigo de Marco Politi

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28 Novembro 2023

"A nota que a Assembleia Rabínica da Itália publicou dias atrás, atacando o Papa Francisco, representa a crise mais grave entre um pontífice e o judaísmo italiano desde a época do Concílio até hoje", escreve Marco Politi, jornalista e escritor italiano, especializado em notícias e política do Vaticano, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 27-11-2023.

Eis o artigo.

A nota que a Assembleia Rabínica da Itália publicou dias atrás, atacando o Papa Francisco, representa a crise mais grave entre um pontífice e o judaísmo italiano desde a época do Concílio até hoje. Imaginar que você está menosprezando não faz sentido. Mesmo num passado não muito distante houve tensões. Com Bento XVI, surgiram fortes críticas no caso da beatificação de Pio XII. Outra fase de tensão ocorreu quando o Papa Ratzinger retirou a excomunhão imposta ao cismático bispo lefebvriano Richard Williamson, um notório negacionista.

Mas em ambos os casos foram criticados alguns atos governamentais do pontificado. Agora, porém, o próprio Francisco está a ser atacado frontalmente, pondo em causa o diálogo judaico-católico que se desenvolveu aqui.

“Perguntamo-nos – afirma o documento – para que serviram décadas de diálogo judaico-cristão para falar de amizade e fraternidade se, na realidade, quando há quem tente exterminar os judeus em vez de receber expressões de proximidade e compreensão a resposta é a da acrobacia diplomática, do equilíbrio e da fria equidistância, que é certamente distância mas não é justa”. Palavras são pedras. Não há dúvida de que o documento expõe um ponto nevrálgico na ação da Santa Sé neste momento histórico. Precisamente em relação à guerra russo-ucraniana e ao conflito Israel - Palestina.

Teria sido um sinal poderoso se, no rescaldo da invasão russa, o Papa Bergoglio, além de exortar o embaixador de Moscou a parar a ação de Putin, tivesse ido à igreja greco-católica ucraniana de Hagia Sophia, em Roma, para uma oração solene pela Ucrânia. Da mesma forma, há quem pense que o Papa Francisco, que imediatamente após o bárbaro ataque do Hamas no dia 7 de outubro manifestou solidariedade às famílias e àqueles “que vivem horas de terror e angústia”, poderia ter acompanhado a sua proximidade com um gesto simbólico imediato dirigido às famílias das vítimas. Em todo caso, Bergoglio denunciou imediatamente a “violência que explodiu ferozmente, causando centenas de mortos e feridos”.

O fato é que depois de Pio XII a Santa Sé optou por nunca mais se alinhar com um Estado ou com um bloco, mas colocar-se rigorosamente acima dos partidos. Única forma de ter uma voz credível a nível internacional. Especialmente porque a história mostrou que os terroristas de ontem foram mais tarde aclamados como estadistas. E os não mencionáveis, com quem nunca se deve negociar, tornaram-se frequentemente parceiros em acordos abertos ao longo do tempo.

Contudo, será que tudo isto tem a ver com o diálogo judaico-cristão? É difícil argumentar. Em todas estas décadas, o diálogo judaico-cristão estimulou a superação do intolerável antijudaísmo que as confissões cristãs arrastaram consigo durante séculos, alimentando também pogroms ferozes. O diálogo, de Paulo VI a João Paulo II, de Bento XVI a Francisco, também serviu para trazer cada vez mais à luz o temperamento judaico de Jesus de Nazaré e o vínculo estreito entre os cristãos e aqueles que o Cardeal Ratzinger chamou de “nossos pais na fé”. Tudo isto nada tem a ver com a avaliação dos acontecimentos históricos e políticos em que o Estado de Israel está envolvido. Mesmo Bento XVI, tal como o Papa Wojtyla, sempre manteve a Santa Sé ancorada numa posição secular.

Há uma falsificação na nota divulgada nos últimos dias. A afirmação de que entre os prisioneiros palestinos libertados pelo governo israelense (e que Bergoglio colocaria no mesmo nível de “inocentes arrancados de suas famílias”) há pessoas “frequentemente detidas por atos de terrorismo muito graves”. Até agora, de acordo com a vontade expressa do governo Netanyahu, não houve uma única pessoa condenada por homicídio. No entanto, há menores presos sem julgamento, apenas por atirarem pedras contra soldados israelitas.

Há também uma lacuna na nota. Uma reflexão mínima sobre o massacre de quinze mil civis em Gaza, não surpreendentemente no centro das atenções da opinião pública internacional. Surge a questão: será esta poeira morta sob os cascos dos cavalos dos carros de guerra de Israel – para usar uma imagem antiga – ou seres humanos cuja matança é insustentável?

São questões que vão além das controvérsias de baixa cunhagem. Israel, os palestinos e os estados árabes vizinhos enfrentam um importante ponto de viragem histórico. Cada protagonista é chamado a responder pelos seus comportamentos. E os líderes religiosos podem ou não dar uma contribuição importante para a abertura de uma nova página. Aplica-se também à diáspora judaica, cujo peso não é insignificante.

A questão é se ele pretende dar o seu apoio à estratégia clarividente de Biden, presidente do aliado de ferro do país, Israel, expressando-se abertamente a favor do nascimento de um Estado palestino pacificamente ao lado do Estado israelense ou se pretende abençoar a estratégia do cínico Netanyahu que favoreceu o Hamas para apagar a questão palestina. Victor Magiar, membro da Uniãos Comunidades Judaicas Italianas, escreveu há poucos dias que a fórmula de dois estados, dois povos seria o “triunfo de Israel”, a paz como a “coroação da sua conquista histórica”.

Um documento neste sentido ajudaria a bloquear definitivamente o caminho ao extremismo nacionalista e ao fanatismo religioso messiânico que Netanyahu – mas não só ele – tem representado com efeitos desastrosos. Também no domingo, Francisco exortou-nos a quebrar a espiral do ódio e o ciclo da vingança. Salientando que “o diálogo é a única forma de se ter paz”.

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