“O Estado brasileiro é o que promove a violação de direitos, a começar pelo Presidente da República”, afirma D. Roque Paloschi, presidente do CIMI

Foto: Sesai | Flickr CC

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Agosto 2021

 

Em 9 de agosto é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas. A data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) tem como objetivo a garantia das condições de existência minimamente dignas aos povos indígenas de todo o planeta, com destaque aos direitos à autodeterminação de suas condições de vida e cultura, bem como a garantia aos Direitos Humanos. Por ocasião dessa data, o Portal da CNBB entrevistou o arcebispo de Porto Velho (RO) e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dom Roque Paloschi.

O arcebispo convida a Igreja para a solidariedade e o apoio aos povos originários do Brasil, diante do cenário “de total violação aos direitos e violência que ocorre de diversas formas”. Segundo dom Roque, são 521 anos de luta contra o genocídio, o extermínio, as violações de direitos e as violências físicas, culturais e territoriais.

A data de ontem também marcou a apresentação, por parte da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), de uma denúncia no Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o presidente da República, Jair Bolsonaro, por genocídio. A organização indígena solicita que a procuradoria do tribunal de Haia examine os crimes praticados contra os povos indígenas pelo presidente do Brasil, desde o início do seu mandato, janeiro de 2019, com atenção ao período da pandemia da Covid-19. São citados no comunicado “crimes contra a humanidade (art. 7. b, h. k Estatuto de Roma – extermínio, perseguição e outros atos desumanos) e genocídio (art. 6. B e c do Estatuto de Roma – causar severos danos físicos e mentais e deliberadamente infligir condições com vistas à destruição dos povos indígenas)”.

A entrevista com dom Roque Paloschi é publicada por Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 10-08-2021.

 

Eis a entrevista.

 

A instituição da data pela ONU, pretende garantir “condições de existência minimamente dignas aos povos indígenas de todo o planeta, principalmente no que se refere aos seus direitos à autodeterminação de suas condições de vida e cultura”. Como podemos destacar esses direitos dos povos indígenas num cenário de tantas violações?

Infelizmente o cenário que temos no Brasil é de total violação aos direitos dos povos indígenas e violência que ocorre de diversas formas. São 521 anos de luta contra o genocídio, o extermínio, as violações de direitos e as violências físicas, culturais e territoriais. A violência e a violação de direitos contra os povos indígenas são sistêmicas. Entra governo e sai governo, sempre se busca uma forma de reduzir e ou desconstituir os direitos dos povos originários.

Temos atualmente um cenário muito crítico, os povos originários são atacados no seu direito de viver e existir, na sua integridade física, cultural e territorial, por todos os lados. O Estado brasileiro é o que promove a violação de direitos, a começar pelo Presidente da República. Quando falo do Estado brasileiro, falo dos poderes constituídos, para manter a democracia e o bem comum de todos os povos. Temos o Estado brasileiro atacando os direitos dos povos originários, comunidades tradicionais, periferias e do povo brasileiro menos favorecido.

Há uma rejeição de parte da sociedade brasileira à autodeterminação das condições de vida e cultura dos povos indígenas em nossa sociedade. Isso impede a garantia dos direitos?

Há no Brasil uma sociedade que promove a intolerância e a discriminação, sobretudo quando nos deparamos com povos, culturas do modelo homogeneizador, predominante na sociedade. Isso vem crescendo com a conjuntura politica atual, de desgoverno e de desconstituição da Constituição Federal, no que diz respeito aos direitos fundamentais, como: o direito à vida, o direito de ir e vir e, no caso dos povos indígenas, os artigos 231 e 232, que garantem aos povos indígenas o direito ao território tradicional, aos usos, costumes e tradições, o direito à diversidade.

Temos uma parcela da sociedade que se conscientiza e se sensibiliza com a luta dos povos originários, no seu direito à vida, à terra e aos direitos a educação, saúde e outros.

Qual mensagem o senhor destaca para a Igreja nesta data?

Os povos originários são povos da alteridade, da reciprocidade e da integralidade. Devemos respeitá-los em seus direitos conquistados com muita luta e resistência. Os povos indígenas se mantiveram e mantém em luta permanente na defesa da terra, da vida e dos direitos. O ‘levante pela terra’ representa a luta dos povos indígenas, em manter seus direitos. Muitas são as ameaças, vem do executivo, do legislativo e do judiciário. Temos uma grande mobilização em Brasília, denominado levante pela terra, que é a voz dos povos originários contra o PL 490 e o Marco Temporal.

Sejamos solidários, apoiemos a luta dos povos indígenas. Estes são os primeiros habitantes deste grande continente, denominado pelos povos originários de Abya yala. A causa indígena é de todos nós.

 

 

Leia mais