Católicos ao redor do mundo não podem desfrutar de “problemas de luxo”

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29 Abril 2015

Os americanos podem ter perdido a sua supremacia em muitos setores da economia mundial neste começo de século, mas há um deles onde nós ainda somos, sem dúvida, os líderes: o da produção de polêmicas. E os católicos americanos não são exceção: esta semana uma nova controvérsia veio com o Catholic Relief ServicesCRS, órgão dos bispos americanos para a ajuda internacional. O que aconteceu foi que a CRS tem um funcionário não católico trabalhando em um cargo técnico – nada a ver com a fé ou com costumes – e ele está envolvido num casamento homoafetivo.

Algumas pessoas, como era de se esperar, se irritaram com o caso e fizeram questão de dizer isso ao mundo.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 25-04-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Aqui faço uma observação que não encontramos na maioria dos debates travados neste país: para os católicos em muitas outras partes do mundo, esta situação toda parece um grande exemplo de um “problema de luxo”, quer dizer, um tipo de discussão que somente culturas e igrejas afluentes podem se dar ao luxo de ter.

No Quênia, por exemplo, Dom Anthony Muheria, de Kitui, relatou esta semana que pastores cristãos estão pensando em ensinar aos fiéis a recitarem trechos do Alcorão em árabe, de forma que, na próxima vez que um terrorista islâmico apontar uma AK-47 para suas cabeças, eles poderão passar como se fossem muçulmanos e continuar vivos.

Esta ideia surge após um ataque, em 2 de abril deste ano, contra uma universidade em Garissa, no Quênia, próximo da fronteira com a Somália, onde homens armados separaram alunos cristãos e muçulmanos, matando os primeiros e deixando ilesos os segundos. No todo, 150 pessoas morreram e 80 ficaram feridas, sendo pouco provável que algo desse tipo tenha acontecido uma única vez.

“Estamos sob ameaça por sermos cristãos, e as nossas instituições não estão nos defendendo”, disse Muheria na segunda-feira passada durante uma viagem a Roma.

Peguemos também o exemplo de Dom Jean-Clément Jeanbart, arcebispo greco-católico melquita de Aleppo, na Síria. (Os greco-melquitas, concentrados na Síria e no Líbano, fazem parte de 22 igrejas orientais que estão em plena comunhão com a Igreja Católica.).

Jeanbart se encontra nos EUA, e o Crux se encontrou com ele na Igreja da Virigem Maria, no Brooklyn, Nova York. Esta sua viagem está sendo promovida pela organização católica de apoio aos cristãos perseguidos chamada Ajuda à Igreja que Sofre.

As cidades de Aleppo e Homs, na Síria, viram algumas das lutas mais intensas durante o conflito civil, o que faz de Jeanbart o bispo representante de uma zona de guerra.

Eis o tipo de preocupação que este prelado está obrigado a enfrentar: O que aconteceria se ele ou um de seus sacerdotes fosse sequestrado?

Sequestrar religiosos cristãos tornou-se algo comum entre certas facções armadas na Síria. Em fevereiro de 2013, o sítio eletrônico “Ora Pro Siria”, administrado por missionários italianos, informou que o preço atual para um sacerdote sequestrado no país estava na casa dos 200 mil dólares.

Jeanbart disse que, até agora, apenas um de seus sacerdotes havia sido levado, não tendo havido um pedido de resgate. Ele sabe que há uma possibilidade real de que isto aconteça a ele; dois bispos ortodoxos de Aleppo foram levados em 2013 e ainda estão desaparecidos.

Perguntei a Jeanbart o que ele gostaria que a Igreja fizesse, caso ele fosse levado e os sequestradores exigissem dinheiro para soltá-lo. Após pensar sobre a pergunta, ele disse que a verdade nua e crua é que ele angaria dinheiro, de todo o mundo, o suficiente para manter vários trabalhos sociais (cestas básicas, bolsas escolares, serviços de saúde). Portanto seria um bom investimento pagarem por seu resgate.

Jeanbart está, obviamente, preocupado com o futuro do seu rebanho.

“Estamos correndo um sério perigo; podemos desaparecer em breve”, disse. Qualquer esperança de uma oposição moderada na Síria foi levada por “facções islâmicas radicais, que buscam criar uma espécie de apartheid para todos os não muçulmanos”.

Em termos de política externa americana, ele falou que o que a atual situação requer é menos soldados enviados à guerra e mais os EUA usando a sua influência para pressionar outros países da região, especialmente a Turquia, para estancar a entrada de armas e mercenários na Síria. O que ele espera é que os EUA façam isso, e a Síria dará conta do resto.

Para que ninguém pense que situações como estas do Quênia e da Síria são exceções, lembramos que dois terços do 1,2 bilhão de católicos do mundo vivem, hoje, fora do eixo Europa e América do Norte, muitos dos quais em regiões de conflitos violentos.

Mesmo quando estes católicos não estão enfrentando perseguição religiosa ou em guerra, muitos deles ainda convivem com as realidades da pobreza opressiva, da má governança e de situações políticas e sociais instáveis.

Não faz muito tempo que estes dois terços do mundo assistiram, com espanto, os católicos americanos passando mais de uma década debatendo a tradução de expressões a serem usadas na missa – por exemplo, discutindo se as pessoas deveriam dizer “E também convosco” ou “E com o vosso espírito” quando o sacerdote diz: “O Senhor esteja convosco”.

Muitos se surpreenderam ao saber que nós, aparentemente, temos tempo de sobra em nossas mãos, e tão pouca urgência em ocupar este tempo com situações onde a vida está em jogo.

Perguntemos a prelados como Muheria e Jeanbart, hoje, o que eles pensam sobre assuntos tais como a polêmica envolvendo a CRS, e veremos o que eles dizem. O que provavelmente iremos perceber, não obstante, é uma irritação com o fato de que situações mais dramáticas ocorrendo ao redor do mundo, nas quais os EUA estão inegavelmente envolvidos, não parecem incitar uma paixão semelhante.

Por que demorou tanto a renúncia de Dom Robert Finn

Agora que a história de Dom Robert Finn, da Diocese de Kansas City-St. Joseph, chegou ao seu desfecho inevitável com sua renúncia, a principal curiosidade que fica é: Por que demorou tanto para isso acontecer?

O Vaticano anunciou a renúncia do bispo na terça-feira passada (21), dois anos e meio depois de ele se tornar o único bispo americano a ser condenado criminalmente (uma acusação de contravenção) por não informar às autoridades civis sobre uma acusação de abuso infantil em sua diocese. Para a maioria das pessoas, o inexplicável é por que se passaram 28 meses para um bispo, nestas condições, perder o seu cargo.

Eu estava em Roma quando surgiu a notícia da renúncia, e um colega de imprensa aí sugeriu que a manchete fosse: “Finn… almente!”.

Provavelmente, a melhor forma de explicar esta demora é que ela ilustra o dilema que resulta quando a ampla significação de um caso e os seus detalhes individuais não se encontram em perfeito alinhamento.

Antes de falar sobre isso, vejamos algumas explicações que cobrem apenas uma parte desse caso.

Alguns atribuiriam a demora para a renúncia do bispo à inércia tradicional do Vaticano, e Deus sabe que há motivos para se ter esta impressão. Por outro lado, o Vaticano é capaz de dar uma resposta rápida quando ele assim deseja. A atual reforma financeira sob a liderança do cardeal australiano George Pell, por exemplo, está se movendo à velocidade da luz pelos padrões usuais.

Outros citam a relutância do Vaticano em ver bispos deixarem seus cargos quando se encontram sob críticas, e há motivos para se pensar isso também, ainda que o princípio claramente não é absoluto. Roma aceitou a renúncia do Cardeal Bernard Law, de Boston, e de outros prelados em circunstâncias análogas, muito mais altos na hierarquia do que um simples bispo diocesano.

Alguns se perguntam se o fato de Finn ter sido pego na transição entre Bento XVI e Francisco pode ter desempenhado um papel nesta demora e, de novo, em parte, provavelmente sim. Por outro lado, Francisco encontrou tempo para remover o cardeal americano Raymond Burke de dois cargos diferentes antes de lidar com o caso de Robert Finn.

Alguns acreditam que Finn sobreviveu por tanto tempo por causa de uma falha no sistema católico, que diz que só o papa pode disciplinar um bispo – e, havendo mais de 5 mil bispos na Igreja, certamente este número está acima do que qualquer pontífice possa lidar.

Isso é verdade até certo ponto, e é um dos desafios – a responsabilização de bispos – sobre os quais alguns especialistas estão trabalhando neste momento. Mas nada disso explica a demora no caso em questão. Isso porque, mesmo à luz da carga horária de trabalho de um papa, dois anos e meio é tempo demais.

Então, o que houve de errado?

Com base em horas de diálogos com pessoas conhecedores do sistema católico, tanto em Roma quanto nos EUA, eu creio que a principal razão é a dissonância entre o geral e o específico relativo à situação de Finn.

Em termos gerais, o caso de Finn estava dado; era claro demais. Dificilmente veremos algo igual.

Em primeiro lugar, não há nada que questionar sobre a sua condenação criminal por demorar vários meses antes de informar a descoberta de imagens pornográficas de crianças em um computador que pertencia a um de seus sacerdotes, Shawn Ratigan.

O veredito de culpa foi dado pelo juiz John M. Torrence, no Condado de Jackson County, em 6 de setembro de 2012, após um julgamento que durou pouco mais de uma hora. (Para constar, Robert Finn foi absolvido de uma outra acusação parecida, com Torrence citando falta de provas suficientes para condenação.).

O catolicismo não pode ficar insistindo que está comprometido em colaborar, plenamente, com o sistema judiciário criminal, e depois não impor consequências internas quando este sistema considera alguém culpado.

Em segundo lugar, há também o fato de que o erro de Finn não data de décadas atrás, como muitas vezes é o caso nos escândalos de abuso sexual. Com este bispo, o problema é de 2012. São 10 anos depois que os bispos americanos adotaram a “tolerância zero” durante um encontro tumultuado em Dallas.

Como resultado, não havia jeito de manter Finn no cargo sem parecer estar em contradição com a afirmação de que a Igreja Católica está, hoje, complemente comprometida com protocolos para evitar abusos sexuais na instituição.

Qualquer um destes elementos seriam suficientes para tornar insustentável a permanência de Robert Finn; juntos, eles tornam esta situação impensável.

No nível do detalhe, no entanto, a conduta de Finn não era, com razão, tão condenável quanto aquelas de outros bispos e superiores católicos pegos em outros escândalos, a maioria dos quais nunca receberam uma punição parecida.

Por um lado, o crime cometido por Ratigan, que foi condenado a 50 anos de prisão e expulso do sacerdócio em janeiro de 2014, não envolvia abuso sexual. O crime foi tirar e manter fotos indecentes de meninas com idade de 3 a 12 anos.

Ainda que desprezível e criminoso, este comportamento poderia ser interpretado por muitas pessoas como não estando no mesmo nível de gravidade em relação àqueles de John Geoghan, de Boston, que foi acusado de molestar mais de 130 meninos durante 30 anos, ou de Lawrence Murphy, de Milwaukee (Wisconsin), acusado de abusar cerca de 200 meninos surdos entre as décadas de 1950 e 1970.

Os bispos e superiores que falharam em agir rapidamente nestes casos eram, com razão, culpados de omissão ou negligência até piores.

Em segundo lugar, a demora no caso de Finn em informar às autoridades civis foi menor do que a demora em vários outros casos que vieram à luz durante o auge dos escândalos sexuais no país, e alguns acreditam que havia circunstâncias extenuantes no caso ora analisado.

Depois de primeiramente saber das imagens encontradas no computador pessoal de Ratigan, um representante diocesano de Kansas contatou um advogado e um amigo que era da polícia. Os dois disseram que as fotos não constituíram pornografia infantil e, portanto, não havia crime algum a relatar.

Alguns amigos de Finn sugeriram que a verdadeira falha foi cometida por outras autoridades diocesanas, que erraram ao seguir esse conselho inicial, e que Finn foi a julgamento e aceitou o veredito de culpa para poupá-los de serem eles processados.

Em 2014, o Papa Francisco nomeou Dom Terrence Prendergast, de Ottawa, no Canadá, para realizar uma investigação sobre a situação de Dom Robert Finn. Conhecido como um jesuíta justo, Prendergast enviou um relatório à Congregação para os Bispos que nunca foi publicado, mas uma fonte conhecedora de seu conteúdo disse ao Crux que ele apresentava uma avaliação mista e não recomendava, diretamente, a remoção do bispo.

O contexto da falha em que incorreu Dom Robert Finn, detalhado acima, pode ajudar a explicar como Prendergast chegou a esta conclusão, dado que a ordem recebida por ele não era a de decidir o que seria melhor para a Igreja Católica em sua abordagem para com os casos de abuso, mas examinar os méritos das queixas específicas contra Finn.

Em outras palavras, a sensação de algumas pessoas pode ter sido a de que, se alguém precisava se tornar um garoto-propaganda para representar os fracassos da Igreja, Finn não era o candidato certo – não porque ele não fosse culpado, mas porque a acusação não é tão terrível quanto outros casos bem conhecidos.

Para ficar claro: esta é uma explicação, não uma desculpa. Nada disso exime Dom Robert Finn, porque até mesmo uma leve sugestão de abuso infantil deve ser o bastante para se relatar à polícia imediatamente. Da mesma forma, nada disso quer dizer que ele deveria continuar no cargo.

Por fim, a reação vaticana ao caso de Finn também demonstra como as coisas mudaram na Igreja. Ainda que possa ter levado certo tempo para que a sua saída fosse posta em prática, ninguém no Vaticano saiu em defesa do prelado. Isso está em forte contraste com uma situação de 2001, quando Dom Pierre Pican, de Bayeux, na França, foi condenado criminalmente por não informar às autoridades civis uma acusação de abuso infantil. Ele recebeu uma carta de apoio do cardeal colombiano Dario Castrillon Hoyos, na época o prefeito da Congregação para o Clero, em que cumprimentava Pican por se recusar a entregar um de seus sacerdotes. E Pican continuou a trabalhar como bispo de Bayeux até a idade normal de aposentadoria, 75 anos.

Mudanças climáticas: um confronto final

Por falar em indústria de polêmicas, uma forma de sabermos se um encontro é importante é quando grupos ativistas começam a organizar “contraeventos”, eventos rivais. Nesse sentido, uma conferência sobre as mudanças climáticas, organizada em conjunto pela Pontifícia Academia de Ciências e pela ONU, a acontecer em Roma na próxima terça-feira e intitulada “Proteger a Terra, Dignificar a Humanidade”, já é um sucesso.

O evento, que terá a participação do secretário-geral da ONU Ban Ki-moon e do Cardeal Peter Turkson, vai reunir cientistas e líderes religiosos do mundo todo visando construir um movimento global no sentido de frear as mudanças climáticas. Ele acontece na dianteira de uma encíclica, há muito esperada, sobre o meio ambiente que o Papa Francisco deve publicar nos próximos meses.

Na sexta-feira (24), o Heartland Institute, sediado em Chicago – “a principal organização americana na divulgação do ceticismo relativo às mudanças climáticas” –, anunciou que está mandando uma equipe de cientistas a Roma para organizar um evento próprio, cujo objetivo é persuadir o papa de que ele está sendo usado.

Numa sacada inteligente, o descreveu a iniciativa como uma “refutação” à conferência do Vaticano. Na segunda-feira e na terça-feira serão realizados eventos públicos no Hotel Columbus e no Palazzo Cesi, em Roma. Estes dois lugares ficam a aproximadamente uma quadra de distância da Praça de São Pedro.

“O Santo Padre está sendo enganado por ‘especialistas’ das Nações Unidas que se mostraram não merecedores de sua confiança”, disse Joseph Bast, presidente do Heartland Institute, em nota divulgada na sexta-feira.

“Os humanos não estão causando a crise climática – na verdade, eles estão cumprindo do dever bíblico de proteger e usá-la para o benefício da humanidade”, disse Bast. “Ainda que o Papa Francisco tenha a melhor das intenções, ele estará fazendo um desserviço ao seu rebanho e ao mundo ao ancorar a sua autoridade moral na pauta não científica das Nações Unidas sobre o clima”.

Resta saber se o Heartland Institute terá sucesso em sua iniciativa, principalmente porque a premissa defendida pelo grupo parece aberta à discussão. Os seus defensores parecem supor que as Nações Unidas estão pressionando o Papa Francisco na questão das mudanças climáticas, quando na verdade parece ser exatamente o contrário.

Em janeiro, durante uma viagem do Sri Lanka às Filipinas, os jornalistas perguntaram ao pontífice se ele acreditava que as mudanças no clima resultam da atividade humana. Ele respondeu que acha que as mudanças climáticas são “na maior parte” feitas pelo homem.

“Eu não sei se ela (a atividade humana) é a única causa, mas, principalmente, em grande parte, é o homem que tem dado um tapa na cara da natureza”, disse ele. “Em certo sentido, tomamos o controle sobre a natureza”.

Ele também disse querer que sua encíclica sobre o meio ambiente saísse em junho ou julho, de forma que poderia influenciar uma cúpula da ONU sobre as mudanças climáticas a acontecer em Paris no começo de dezembro. O papa se queixou, dizendo que a última rodada de negociações no Peru foi decepcionante, e disse esperar que o encontro de Paris produza escolhas “mais corajosas”.  

A questão é que Francisco acha que a ONU não vem sendo corajosa o suficiente, e então ele está usando a sua autoridade moral para incentivá-la a fazer mais.

Em outras palavras, se uma parte está pressionando a outra aqui, ela parece ser o papa. Em vez de tentar persuadir Francisco para que ele não escute a Ban Ki-moon, talvez o Heartland Institute deva tentar convencer o secretário-geral a não dar ouvidos a Francisco.

Uma mudança na tática da velha guarda?

O cardeal australiano George Pell e a reforma financeira que ele está liderando em nome do papa vem, claramente, incomodando alguns da velha guarda vaticana.

Até o momento, as principais estratégias de resistência foram em dois sentidos: vazar informações embaraçosas sobre Pell para a imprensa italiana, e tentar cortar por baixo as novas estruturas financeiras criadas pelo Papa Francisco por meio de uma série de alterações em seus estatutos.

Até agora estas estratégicas não deram certo. Pell sobreviveu a algumas poucas exposições embaraçosas. Estas envolveram o seu papel na crise de abusos sexuais cometidos pelo clero na Austrália e os seus gastos financeiros desde que chegou em Roma, além de uma recente iniciativa para convencer Francisco a aparar os poderes do novo Conselho para a Economia e da Secretaria para a Economia, alterando o que Pell e sua equipe proponham inicialmente.

Uma série de artigos na imprensa italiana nos últimos dias sugere que a velha guarda pode estar, agora, mudando de tática, tentando chegar na frente das reformas em vez de ficar parado no caminho.

O jornal italiano de negócios Il Sole 24 Ore recentemente informou que está lançada a ideia de se criar um novo departamento para a “Administração de Ativos do Vaticano” que juntaria a supervisão do patrimônio imobiliário e os portfólios de investimentos dos vários dicastério vaticanos – incluindo a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, o governo do Estado da Cidade do Vaticano e o Instituto para as Obras da Religião (mais conhecido como o Banco Vaticano), porém com a condição de que o domínio continue estando nas mãos dos dicastério individuais e que a nova administração respeite a “diversidade pastoral” de cada um deles.

Segundo a reportagem do Il Sole, a proposta foi preparada com a ajuda do cardeal italiano Francesco Coccopalmerio, presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos.

Não por acaso, foi Coccopalmerio quem propôs, recentemente, uma série de ajustes aos estatutos do Conselho para a Economia e da Secretaria para a Economia. Nestes ajustes, o principal seria aparar a extensão de seus poderes. Na maior parte das mudanças propostas, o papa acabou ficando com o que Pell e sua equipe haviam proposto.

Com efeito, não é nova ideia de um departamento de gestão de ativos do Vaticano. Uma ideia assim estava entre as recomendações feitas há mais de um ano pela Pontifícia Comissão de Inquérito para a Organização Econômica e Administrativa da Santa Sé – também conhecida pela sua sigla em italiano: COSEA. (Esta Comissão foi criada pelo Papa Francisco logo depois de sua eleição para analisar algumas opções de reformas.)

A recomendação para um departamento de gestão de ativos baseava-se em três pontos:

• Garantir uma gestão profissional e a supervisão dos ativos.

• Alcançar uma economia de escala através da partilha de recursos.

• Obter um melhor retorno dos investimentos.

Visto ser difícil discordar destes objetivos, não ter um órgão para a gestão de ativos vai ser, provavelmente, algo inevitável. Um departamento como esse faz sentido, dado que o Papa Francisco decidiu, recentemente, que a gestão do patrimônio imobiliário irá continuar com a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica – APSA. Porém, muitas de suas funções foram transferidas para o departamento presidido por Pell, de maneira que a APSA está precisando de um novo sopro de vida.

A questão não é se um tal departamento irá ser criado em algum momento, mas quem irá controlá-lo. Assim, a onda de reportagens que virá esta semana vai poder ser interpretada como uma tentativa precoce, por algumas figuras da velha guarda, no sentido de emplacar aquilo que desejam.

Vai ser interessante ver como esta questão se resolverá, especialmente no que diz respeito à administração do patrimônio imobiliário. No momento, estima-se que o Vaticano tenha cerca de U$ 3,2 bilhões em ativos – divididos entre o patrimônio imobiliário e os seus investimentos. (Este número não inclui os cerca de U$ 10 bilhões controlados pelo Banco Vaticano, que em sua maior parte não é dinheiro do Vaticano, mas sim das ordens religiosas, dioceses, etc.).

No entanto, muitos especialistas acreditam que a estimativa de 3,2 bilhões de dólares é muito baixa, porque grande parte do patrimônio imobiliário do Vaticano está um tanto subvalorizado, visto que faz muito tempo desde que foi avaliado comercialmente. Alguns dizem que o verdadeiro valor de mercado pode ser quatro vezes maior do que a atual estimativa, podendo chegar a 10 bilhões.

Se for este o caso, o total de ativos em posse do Vaticano pode estar entre 10 e 20 bilhões de dólares, e a questão de quem vai controlá-lo se torna, de repente, muito mais interessante.

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