Metaverso? Uma solução em busca de um problema. Entrevista com Luciano Floridi

Foto: Pexels

06 Dezembro 2021

 

Pensar no digital como parte da nossa vida cotidiana parece hoje algo óbvio, um fato evidente. Não era assim há 10 anos, quando a Comissão Europeia financiou um projeto para compreender e avaliar como a transição digital influenciava nas expectativas da sociedade e no seu desenvolvimento, constituindo um grupo de trabalho composto por 15 estudiosos de matérias humanísticas (da sociologia à psicologia e filosofia) e daquelas mais ligadas aos desenvolvimentos da tecnologia, como a física, a informática, a engenharia.

 

O grupo era coordenado por Luciano Floridi, filósofo, professor titular de Filosofia e Ética da Informação na Universidade de Oxford.

 

O resultado desse projeto foi o “Onlife Manifesto” (ebook em inglês para download gratuito aqui), um documento que continha as avaliações e os resultados dos estudos de cada setor examinado, considerando o impacto das tecnologias sobre todos os aspectos da vida humana e a significativa perda de sentido da distinção entre os conceitos de “real” (life) e “virtual” (online), chegando ao novo paradigma conceitual do “onlife”.

 

Parece que passou um século ou talvez até mais. Não somos mais capazes de distinguir a nossa vida nas duas formas originais, separadas por fronteiras evidentes e claras.

 

Habitamos um mundo onde o fluxo das nossas comunicações e da nossa vida flui indistintamente entre as ruas das cidades e os bits dos chats e das plataformas sociais.

 

No entanto, parece que uma nova revolução está prestes a mudar as nossas vidas, os paradigmas e as referências da realidade. Revolução determinada pelo advento da inteligência artificial e pelo anunciado nascimento do metaverso, uma evolução, impregnada de realidade virtual, do Facebook e anunciada há poucas semanas pelo seu artífice, Mark Zuckerberg.

 

Se, por um lado, o anúncio de Zuckerberg parece ser uma plausível evolução também tecnológica da sua plataforma, por sua vez, permanecem obscuros os limites e os significados dessa mudança: será um mundo diferente? Que leis e algoritmos vão governá-lo? Viveremos em uma dimensão completamente virtual?

 

Luciano Floridi, o filósofo do “onlife”, é a pessoa mais apta e competente para nos ajudar a entender esse novo mundo ao qual nos encaminhamos e, por isso, fizemos algumas perguntas a ele.

 

A entrevista foi concedida a Antonio Rossano e publicada em Media Studies, 28-11-2021. A tradução é de Anne Ledur Machado.

 

Eis a entrevista.

 

Até pouco tempo atrás, vivíamos em um “mundo real”, aquele de sempre, de carne e osso... E depois havia o “mundo virtual”, a internet e afins. Depois, tudo se tornou “onlife”. Hoje, Zuckerberg nos diz que está transformando o Facebook em um “metaverso”, um lugar, como ele afirmou, “onde, em vez de visualizar os conteúdos, você está dentro deles”. Será um mundo onde talvez sintamos os perfumes criados por uma máquina, veremos panoramas virtuais, teremos sensações transferidas por sensores... Como o filósofo Floridi o imagina?

 

Eu fiquei surpreso com essa ideia, não porque já não estivesse por aí. Zuckerberg insiste na realidade virtual e na realidade aumentada há muitíssimo tempo, desde que o Facebook comprou a Oculus, uma empresa que produz visores para a realidade virtual.

 

Eu vejo essa operação com muito ceticismo, não pela tecnologia, mas pela estratégia por trás dela: é uma bela cópia daquilo que já temos, jogos de realidade virtual, museus para visitar e lugares para experimentar... Quem de nós, com alguns anos a mais, não se lembra do Second Life?

 

Em suma, coisas que já conhecemos. Como se diria em inglês, é quase uma espécie de “solução em busca de um problema”, coisas que sabemos fazer, mas não nos interessam tanto. Zuckerberg chega e tenta mais uma vez nos convencer a entrar nesse metaverso, essa realidade tridimensional onde a “verdadeira realidade” será a realidade virtual, e podemos deixar o resto em casa.

 

Mesmo de um ponto de vista tecnológico, portanto, isso me deixa perplexo: não porque hoje não haja as capacidades de realizar coisas de grande efeito, de um ponto de vista visual ou acústico, mas porque é algo um pouco velho, que já testamos e que não teve muito sucesso.

 

Voltamos sempre à ideia de que temos cinco sentidos, mas na realidade o ser humano tem muitos mais sensores: por exemplo, o sentido do equilíbrio, ligado ao da audição. Mas, mesmo que pensemos apenas no quente e no frio, mesmo que nos limitemos aos cinco sentidos, a realidade virtual de que Zuckerberg fala é uma realidade bidimensional: é visual e acústica.

 

No momento não é imaginável, embora tecnologicamente viável, que cada um de nós possa ter em casa uma “impressora de perfumes”, e, toda vez que se visualize um ambiente de realidade virtual, surja o seu perfume.

 

Para sintetizar, conceitualmente, a realidade, aquela de todos os dias, vence de cinco a dois.

 

Tudo o que é vivido pelo nosso corpo é realidade para nós, seja ela biológica ou eletrônica... ou existe uma diferença? De significado, de valor, de propósito...

 

O que é real para nós é uma questão que nos fascina desde sempre. Um famoso filósofo dizia: “A pedra existe porque eu posso chutá-la”. Há algo de verdadeiro nisso, isto é, o fato de que eu posso interagir com a pedra. Imaginemos ir até a cozinha virtual e pegar um copo: você não consegue pegá-lo, não consegue enchê-lo de água, porque é um holograma, seria apenas um experimento visual.

 

É a nossa capacidade de interação com algo, por exemplo o botão vermelho com o qual posso interromper esta videochamada, que determina o senso de realidade desse algo para nós. É a capacidade de reação com aquilo que se faz ou se deixa de fazer que determina a nossa percepção da realidade. Mesmo pegando o holograma daquele copo na nossa cozinha virtual com uma luva eletrônica, a realidade física é insuperável em relação à interatividade que, mesmo em um contexto 3D estruturalmente impecável, eu poderia experimentar amanhã.

 

No entanto, também gostaria de falar bem de tudo isso. Imaginemos os contextos bélicos: talvez seja melhor que eles não existam, não interagir com a periculosidade de uma mina. Ou em contextos em que é necessária a máxima atenção, um contexto médico ou o engenheiro que deve aprender o funcionamento de um motor, observando de perto o seu mecanismo, sem riscos.

 

Tudo isso certamente não esperou por Zuckerberg. Isso já existe há décadas, basta pensar em como os pilotos de caça das Forças Armadas italianas treinam hoje: eles o fazem em modalidade virtual.

 

Para concluir, voltando à pergunta, eu diria que é a interatividade de algo que o torna real para nós.

 

Viveremos em mundos virtuais como imensos depósitos de humanidade, porque o mundo atual já é pequeno e inóspito demais para 10 bilhões de pessoas?

 

Infelizmente, é um grande risco, uma possibilidade especialmente para quem consegue obter essa tecnologia a custos muito baixos em contextos em que a vida é verdadeiramente miserável.

 

Portanto, não para as pessoas que têm grandes possibilidades econômicas, porque estas sempre poderão ir à Costa Smeralda, nem para quem não tem nenhum meio, porque estas não terão a possibilidade de comprar o computador de que precisam para entrar na realidade virtual.

 

Mas será um risco para toda aquela faixa intermediária em que a vida é desagradável: talvez você tenha um emprego ruim, more em poucos metros quadrados, tenha uma vida falimentar, não seja ninguém, tenha pouco dinheiro. Pouco, mas o suficiente para adquirir a tecnologia, ser habilidoso e ter papéis nessa realidade virtual: essa é a vasta gama de pessoas que mais correm risco em relação ao “escapismo”, ou seja, a fuga da realidade, daquela de todos os dias, daquela de que falávamos antes, da pedra a ser chutada, em relação a uma realidade virtual onde o mundo se adapta a você, você não se choca com o virtual, o virtual lhe quer bem, você não sente frio e não tem fome no virtual.

 

Esse mundo que se molda ao seu redor, que não lhe ensina a brutalidade dos fatos, mas que, na realidade, acomoda tudo um pouco como uma sereia, é um risco muito sério.

 

Já vemos isso em alguns contextos de addiction (dependência), isto é, de apego excessivo de tipo lúdico, em que meninas e meninos encontram aí algo que não conseguem mais encontrar na realidade de todos os dias. Esse é um risco sério.

 

Obviamente, tudo isso será fruto de sistemas tecnológicos cada vez mais avançados e baseados na inteligência artificial. Haverá novas regras que terão que regular a relação entre a inteligência humana e a inteligência artificial?

 

Hoje, na Europa, está em andamento a legislação que diz respeito ao contexto da inteligência artificial e ao que diz respeito ao reconhecimento facial. Basta ler a proposta de legislação sobre a inteligência artificial da Comissão Europeia que veta muitos usos do reconhecimento facial, como aqueles feitos para fins comerciais.

 

Quando o Facebook diz que “não usaremos o reconhecimento facial no metaverso”, por exemplo, ele está fazendo uma operação muito simples, ou seja, não está fazendo algo que a lei vai impedir que se faça e, ao mesmo tempo, que não é útil: em uma realidade 3D em que eu sei tudo sobre você, de que serve o reconhecimento facial?

 

Atenção, portanto, para o fato de que a inteligência artificial, que vem sendo cada vez mais legislada e controlada normativamente, pode se deslocar para setores tecnológicos ainda não mapeados pela lei, o que seria também uma manobra econômico-jurídica um tanto astuta.

 

Eu acho que esse é um setor em risco, mas também um pouco neutro. É como a eletricidade: nós somos totalmente dependentes dela. Imaginemos o que pode ocorrer quando houver um apagão na cidade e nada funcionar mais. Eletricidade também perigosa: se você colocar dois dedos na tomada, você põe a sua vida em risco. Mas também é uma tecnologia positiva que usamos com boas finalidades.

 

Portanto, existem riscos, mas vestimos os salva-vidas. Com essa analogia, questionado se vamos depender cada vez mais da inteligência artificial, eu diria que sim.

 

Com o aprendizado de máquina, haverá uma instrumentação cada vez mais potente para fazer qualquer coisa funcionar: um dia desses, a lava-louças também aprenderá a lavar a louça.

 

Essa nossa dependência apresenta perigos? Absolutamente sim. Então, são necessários “salva-vidas”, elementos que, quando houver algum risco excessivo, o fusível queime, a tomada seja desligada, não se chegue a consequências mais graves. É isso que a nova legislação está prestes a fazer.

 

Essa dependência deve ser estritamente regulada para garantir toda a parte “boa”, que é aquela necessária para gerir a complexidade com instrumentos cada vez mais complexos, mas, ao mesmo tempo, para eliminar ao máximo os riscos de tecnologias muito poderosas, que, se usadas mal, pouco demais ou de forma exagerada, no contexto errado, podem causar danos.

 

Para resumir, eu veria a inteligência artificial como uma enorme capacidade de resolver problemas que, nas mãos certas, sob as condições certas, pode fazer muito bem. Mais uma vez, é preciso a legislação adequada. E ela está chegando.

 

Hoje, fala-se de inteligência artificial, de aprendizado de máquina e da possibilidade de que máquinas “pensem”, primeiros gérmens de uma potencial consciência. Parece-me que você, também no seu livro “Intelligenza artificiale. L’uso delle nuove macchine”, não tem a mesma opinião...

 

Não, absolutamente não. Às vezes, somos um pouco presas da má publicidade e do ótimo marketing, isto é, do fato de que essas empresas têm que superestimar, até mesmo de forma enganosa, as capacidades dos equipamentos que estamos construindo.

 

A realidade, no entanto, é diferente: conforme vamos encontrando áreas cada vez mais amplas nas quais a inteligência artificial pode fazer a diferença, o limite é a nossa inteligência em identificar onde e como adaptar essas instrumentações e a quais problemas.

 

O fato de se falar, ainda que vagamente, em sentido metafórico, de “pensamento”, “criação”, “consciência” é uma tolice, como se falássemos com a geladeira: seria um pouco estranho...

 

Pensemos, por exemplo, nas solas dos calçados: há alguns anos, elas vêm passando por uma revolução fundamental, com a inserção de sensores que você pode conectar a um aplicativo no seu celular, e, inicialmente desenvolvidos para fins esportivos, hoje elas têm aplicativos no contexto do bem-estar e da saúde extraordinários.

 

Imaginemos, por exemplo, se a sola do sapato muda repentinamente de posição: se as duas solas não estão mais na horizontal, essa pessoa caiu, e o aplicativo envia um alerta, porque talvez a vovó não esteja mais de pé... Isso é a inteligência artificial. Esse é o mundo em que vivemos, e esse é o tipo de mundo que devemos entender, e entender os problemas que a inteligência artificial está gerando. Deixamos o resto para Hollywood.

 

E essas novas normas poderão ser opacas e incompreensíveis, assim como os algoritmos que hoje governam as principais plataformas tecnológicas?

 

As normas nos permitem entender, de um ponto de vista contextual, quando usar ou não certos algoritmos, certas soluções ou não. Esses algoritmos têm a sua própria opacidade, mas, aqui também, precisamos entender exatamente do que estamos falando: não é que não saibamos o que eles fazem, mas um algoritmo que resolve um problema é composto por muitíssimos nós conectados entre si. E, como os equilíbrios entre esses nós que permitem o aprendizado, no caso do aprendizado de máquina, são muito sensíveis a qualquer mudança, é muito difícil poder determinar o que cada nó faz a qualquer momento.

 

Para dar um exemplo, é um pouco como o tráfego: explicar por que 10 mil pessoas estão paradas no trânsito é impossível para cada indivíduo, mas, macroscopicamente, podemos afirmar que, sendo segunda-feira, às 8h da manhã, chovendo e com as escolas abertas, há tráfego. Não poderemos saber de forma granular por que cada pessoa se pôs em movimento para gerar o tráfego, mas isso não significa que, em geral, não saibamos por que o tráfego foi gerado.

 

Esse é o modo certo de falar sobre a opacidade dos algoritmos. Caso contrário, parece que estamos falando de Harry Potter, de magia, com a varinha mágica...

 

Que poder estará nas mãos das pouquíssimas pessoas que administrarão as empresas que governarão o mundo em que viveremos?

 

Enorme. Em outros contextos, eu dizia que lhes demos as chaves da casa, e, portanto, agora, se você quiser entrar em casa, você tem que pedir a elas. Em outras palavras, elas controlam realmente esse mundo onlife onde tudo já se mistura, real e virtual, e há uma parte dessa mistura que está no controle completo dessas empresas.

 

A legislação às vezes chega um pouco tarde, mas chega. O poder do legislador é tamanho a ponto de ele poder fechar essas empresas hoje, mas nós a usamos com muita cautela. Por exemplo, veja o que ocorreu com a energia nuclear depois do incidente no Japão: na Alemanha, o setor nuclear fechou da noite para o dia, por causa desse poder.

 

Portanto, a resposta à pergunta é: sim, elas têm um poder enorme, mas, como está ocorrendo tanto nos Estados Unidos com o governo Biden quanto na Europa, está se chegando a uma legislação que limitará ou direcionará esse poder de forma não perigosa.

 

Esse é o futuro que vemos. E ele já está a caminho.

 

 

 

 

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