Sandro Mezzadra dedicou as últimas duas décadas a cartografar uma mutação ainda em curso — e o faz com o rigor de um geógrafo do poder e a urgência de quem sabe que mapas nunca são neutros.
Professor de teoria política na Universidade de Bolonha e cofundador do coletivo Euronomade, é um dos pensadores marxistas mais incisivos da tradição italiana contemporânea. Ao lado de Brett Neilson, assinou em Border as Method (Duke University Press, 2013) a obra que deslocou a fronteira da condição de objeto para a de método — de linha no mapa a dispositivo de produção de subjetividades e hierarquias.
Desde então, forjou um arsenal conceitual que vai da composição de classe à logística, do extrativismo ampliado às políticas das operações do capital. Há uma sentença no Oráculo Manual (1647) de Baltasar Gracián que todo scholar jesuíta aprendia de cor e que todo analista do nosso tempo deveria entender para navegar num mundo hostil: el que sabe, puede — “quem sabe, pode”.
Gracián, aragonês de olhar implacável que navegou os labirintos do poder cortesão espanhol sem jamais se render completamente a eles, teria reconhecido de que tipo de saber falamos. Tudo escutava, tudo via, e sua mente era uma usina de processar as aparências e as dissimulações. Guardava para si o bom, despreza o resto; compreendeu a condição humana. Racionalizava, não era um cínico. É o que hoje se entenderia como um intelectual realista. Para Gracián, a discretio — o discernimento que distingue o essencial da aparência — era a virtude suprema do homem prudente. O capitalismo de plataforma é sua antítese estrutural: uma máquina de produção de aparências, construída sobre a confusão sistemática entre ser e parecer, capaz de transformar a indignação em mercadoria, o debate em audiência e a política em espetáculo perene.
Se vivesse em nossos dias, ainda sob as asas da Companhia, Padre Gracián teria feito um belo tratado sobre o que uma plataforma diz ser na aba “política de uso”, e o que ela realmente extrai do humano – e não conta.
Gracián teria dialogado com os maiores intelectuais do nosso tempo, para Mezzadra, não é difícil imaginar o conteúdo de uma carta, ou e-mail proveniente do padre:
“Não há heresia doutrinária neste negócio; há algo pior: o travamento absoluto das engrenagens humanas. As vontades políticas que orbitam esta matéria são de tal modo opostas e colossais que qualquer movimento em direção à luz produzirá, inevitavelmente, uma tempestade de sombras.”
Mezzadra diagnostica este diálogo imaginário através do mundo do trabalho, a tempestade de sombras responde por “capitalismo de plataforma”, não descreve um acidente tecnológico nem uma imperfeição de mercado, mas uma mutação estrutural no modo de acumulação.
Há genealogia própria — a revolução logística dos anos 1960 e 1970 —, conjuntura determinante — a crise financeira de 2007 — 2008 e, em seguida, a pandemia de Covid-19 — e um presente catastrófico: o alinhamento da Big Tech com as forças antidemocráticas mais virulentas do planeta, aquilo que ele nomeia sem eufemismo como tecnofascismo.
O argumento mais perturbador que percorre a entrevista é o de que esse alinhamento nada tem de conjuntural. O algoritmo não governa escolhas: governa desejos — e os governa, como Mezzadra documenta, sistematicamente em direção à direita, porque a violência da relação proprietária que organiza as grandes plataformas confere à direita uma vantagem estrutural nesse terreno.
A operação não incide apenas sobre a opinião pública; incide sobre aquilo que, com Foucault, se pode nomear como o governo das condutas, reestruturando a experiência subjetiva de bilhões de pessoas segundo uma lógica irredutível aos protocolos racionais da democracia representativa.
No centro dessa mutação há uma tendência ao monopólio que não é desvio, e sim constituição. Durante décadas o neoliberalismo ergueu a crítica ao monopólio como bandeira; o capitalismo de plataforma devorou a própria teoria que o fundava.
Não por acaso é Peter Thiel — cofundador do PayPal e da Palantir — quem teve a franqueza de abandonar o disfarce: em seus escritos, não defende a concorrência, mas o monopólio como forma natural e desejável da empresa inovadora.
O que se encontra sob monopólio, aqui, não é uma mercadoria entre outras: são as próprias condições de base da interação e da cooperação social.
O conceito de extrativismo ampliado — que Mezzadra começou a formular numa colaboração com Verónica Gago, na Argentina — é o que permite ler sob uma única lógica operações que a geografia mantém apartadas.
O data mining que converte a sociabilidade humana em matéria-prima; o entregador que cruza as capilares da metrópole carregando às costas o peso de um império logístico cujo código jamais lhe será dado ver; a mina e a monocultura latino-americanas.
A mesma operação extrativa, latitudes distintas, mesma fração do capital a presidir ambas. A logística, aqui, não é técnica neutra: é dispositivo que impõe de fora seus ritmos ao trabalho vivo e extrai valor de tudo o que toca. E é precisamente na América Latina — no Brasil em particular — que emergem hoje as formas mais avançadas de organização dos trabalhadores de plataforma.
Tudo isso se desenrola no interior do que Mezzadra, com Michael Hardt e Brett Neilson, nomeou regime de guerra. A expansão territorial — que em 2022 ainda podia passar por arcaísmo do regime de Putin — retornou ao centro das tensões internacionais, das operações de Israel em Gaza, na Cisjordânia e na Síria às ameaças de Trump ao Canadá e à Groenlândia.As fronteiras são a um só tempo endurecidas e dissolvidas, e novas hierarquias tomam forma à sua volta na névoa da guerra. É nesse mesmo horizonte que se inscreve o climate apartheid — expressão cunhada por um relatório das Nações Unidas em 2019 — que designa suas vítimas muito antes de a inundação chegar.
Diante de deslocamentos em massa de populações, não custa imaginar a violência das reações: a invocação da guerra civil já é recorrente, dos EUA à Grã-Bretanha, na boca de expoentes da extrema-direita.
Ler Mezzadra em 2026 é ler alguém que pensa na exata velocidade da catástrofe — sem confundir urgência com histeria nem rigor com indiferença. A questão que a entrevista deixa não é, no fundo, intelectual: é política. Trata-se de saber se o restante de nós — trabalhadores, pesquisadores, movimentos sociais, igrejas, intelectuais do Sul e do Norte — somos capazes de pensar e agir nessa mesma velocidade, e de erguer, a partir das lutas concretas, o novo internacionalismo de que esta conjuntura de guerra tem necessidade urgente.
A virtude que isso exige não é a eloquência. É o discernimento: a capacidade de distinguir, na névoa da guerra e do desastre climático, o que é espírito e o que é apenas ruído. O que é ilusão, e o que precisa ser combatido com realismo político.
Sandro Mezzadra (Foto: Reprodução | YouTube)
O professor Sandro Mezzadra concedeu esta entrevista, por e-mail, ao mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Gama.
Em suas análises mais recentes, o senhor conecta a reorganização autoritária em curso à crise do neoliberalismo e à ascensão das plataformas como nova infraestrutura do capital. Em 2026, enquanto o tecnofascismo se manifesta abertamente em países como o Brasil, quais são os elementos de ruptura mais profundos que o capitalismo de plataforma introduz nas formas democráticas residuais, e como se pode responder a essa mutação?
Sandro Mezzadra – Foi durante a pandemia de Covid-19 que as plataformas digitais adquiriram visibilidade e aprofundaram extraordinariamente sua penetração na vida cotidiana, afirmando-se como infraestruturas fundamentais para a gestão das condições de confinamento.
Por essa razão, no último livro que escrevi com Brett Neilson (The Rest and the West. Capital and Power in a Multipolar World, Verso: 2024), tomamos a pandemia como ponto de partida de nossa análise.
As plataformas digitais têm, evidentemente, uma história mais longa, na qual a grande crise financeira de 2007 – 2008 representa um momento de virada; ao passo que, do ponto de vista genealógico, é fundamental sublinhar suas origens na “revolução logística” dos anos 1960 e 1970.
Se quisermos compreender seu nexo com as transformações mais recentes do capitalismo, a pandemia permanece fundamental, sobretudo quando olhamos para o encadeamento entre ela e o início da guerra na Ucrânia — que acelerou a militarização das infraestruturas digitais.
Antes disso, as plataformas haviam produzido efeitos de desestruturação das lógicas democráticas — penso, por exemplo, no caso Cambridge Analytica, em 2018, mas também nas eleições brasileiras daquele mesmo ano.
No entanto, é nas novas condições de militarização da política e da economia determinadas pela guerra na Ucrânia — as condições que, em meu trabalho com Brett Neilson e com Michael Hardt, procurei definir por meio da categoria de regime de guerra — que o alinhamento da Big Tech com a direita mais ou menos radical e antidemocrática tornou-se evidente.
O conceito de tecnofascismo capta esse alinhamento, numa situação que, do ponto de vista tecnológico, mudou ainda mais com a irrupção da inteligência artificial generativa no cotidiano.
Perguntam-me quais são os elementos de ruptura mais profundos introduzidos pelo capitalismo de plataforma em relação às formas e às lógicas da democracia. São evidentes os efeitos de poderosa manipulação da opinião que as grandes plataformas permitem produzir.
A lógica mimética que caracteriza as redes sociais — a agregação de grandes massas de usuários em torno de conteúdos que se tornam virais — lembra de perto o funcionamento dos mercados financeiros segundo a clássica análise de Keynes, fundada na antecipação das expectativas alheias.
Não faltam, naturalmente, usos eficazes dessa lógica por parte dos movimentos sociais, mas a violência da relação proprietária que organiza as grandes plataformas faz com que a direita tenha uma enorme vantagem nesse terreno.
Há ainda outras duas coisas importantes a dizer. A primeira é que as próprias operações das plataformas digitais têm efeitos políticos: incidem diretamente sobre o plano que, com Michel Foucault, podemos definir como o governo das condutas, organizando a experiência subjetiva segundo lógicas irredutíveis às da democracia representativa racional.
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A segunda me remete à crise do neoliberalismo a que você alude na pergunta: desde o início, os estudos sobre o capitalismo de plataforma evidenciaram seu nexo estreitíssimo com a tendência à formação de monopólios.
Ora, se há um ponto em que todas as correntes neoliberais concordam, é precisamente a crítica ao monopólio. Não é por acaso que Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, propõe, ao contrário, em seus escritos uma apologia do monopólio.
Nos anos que se seguiram à pandemia, condições de oligopólio e monopólio emergiram de forma cada vez mais evidente, em particular no que se refere à Big Tech e à sua relação cada vez mais estreita com os aparatos militares. Oligopólios e monopólios não são, naturalmente, novidades em si mesmos na história do capitalismo — basta pensar no grande debate sobre o imperialismo do início do século XX.
Creio que seja essencial insistir nos caracteres de novidade da situação que temos diante de nós: de um lado, pelas condições estruturais de dependência que as grandes plataformas infraestruturais determinam nos usuários (mesmo quando se trata de grandes aparatos estatais); de outro, porque o monopólio a que elas tendem diz respeito a nada menos que as condições de base da interação e da cooperação social.
Imaginar lutas e políticas capazes de romper esse monopólio e de determinar uma reapropriação dessas condições é uma tarefa essencial para todos nós, em toda latitude. Limito-me a indicar alguns eixos fundamentais em torno dos quais já há muitos e muitas trabalhando: as lutas do trabalho digital e de plataforma, o uso antagonista das redes, o desenvolvimento de infraestruturas digitais comuns e o conflito em torno da autonomia digital.
Seu trabalho com Brett Neilson, Border as Method, transformou o modo como pensamos a fronteira — não como objeto, mas como método de produção de subjetividades e hierarquias. No contexto atual, como se rearticula o regime de fronteiras diante da aceleração da crise climática, que tornará vastas áreas do Sul Global inabitáveis? Estamos entrando numa nova era de climate apartheid?
Sandro Mezzadra – As tendências que descrevi ao responder às suas primeiras perguntas se desenvolveram não apenas num contexto de crise da democracia liberal, mas também — como disse — no interior de um regime global de guerra.
A configuração das fronteiras não pode deixar de ser profundamente abalada por tal situação, dado o nexo historicamente muito estreito entre guerra e fronteiras. Em 2022, podia-se pensar que a pretensão de expansão territorial da Rússia sobre o território ucraniano era um sinal de atraso, de natureza por assim dizer arcaica do regime de Putin.
Hoje não é mais possível. A expansão territorial voltou a ocupar o centro do confronto e das tensões internacionais: nas operações de um Estado genocida como Israel na Cisjordânia, em Gaza, na Síria, no Líbano; como também nas ameaças de Trump ao Canadá ou à Groenlândia.
A estabilidade das fronteiras está em discussão, e novas hierarquias tomam forma ao seu redor na névoa da guerra. Parece-me, no entanto, que há algo mais a observar. Em Border as Method, Brett Neilson e eu retomávamos a afirmação de Étienne Balibar segundo a qual as fronteiras são sempre sobredeterminadas: nenhuma fronteira política é jamais a simples linha de separação entre dois Estados, mas é sempre sancionada, reduplicada e relativizada por outras divisões geopolíticas.
Cada fronteira se insere no interior de um esquema, de um modelo global de configuração do mundo. Creio que se pode dizer que o atual regime global de guerra registra a desarticulação desse modelo. O que está em jogo, portanto, não são apenas as fronteiras entre os Estados, mas também o que podemos definir como meta-fronteiras — as linhas que circunscrevem regiões, esferas de influência, blocos.
Se esse raciocínio lhe parece abstrato, basta ler a Estratégia de Segurança Nacional divulgada pela administração Trump em novembro do ano passado: nesse documento, que lançou as bases para a operação militar extraordinária na Venezuela e para a atual tentativa de estrangulamento de Cuba, o hemisfério ocidental é descrito precisamente como região, esfera de influência, bloco. E insiste-se na necessidade de tornar impermeáveis suas fronteiras à penetração de atores estrangeiros — ou seja, a China —, enquanto políticas violentas de controle das migrações são apresentadas como critério geral de organização do espaço político.
A violência contra os migrantes é, de resto, uma característica do nosso tempo e uma condição fundamental do crescimento de velhas e novas forças de direita — nos EUA como na África do Sul, na Índia como na América Latina (penso, por exemplo, na recente campanha eleitoral de Kast no Chile).
Na Europa, uma palavra de ordem como Remigração, por muito tempo agitada apenas pela extrema-direita identitária e neofascista, já entrou no mainstream e condiciona — operando como instrumento de pressão — governos nacionais e a União Europeia.
Os regimes de fronteira se redefinem em consequência, endurecendo-se e tornando cada vez mais arriscada a travessia para refugiados e migrantes. Seria preciso perguntar por que outros canais se pretendem recrutar o trabalho migrante de que o capital necessita: vêm à mente programas de recrutamento seletivo e temporário, segundo a lógica da migration choisie enunciada por Nicolas Sarkozy em 2005. Mas o ponto é que, nos Estados Unidos como na Europa, a violência contra os e as migrantes se desdobra em condições nas quais os territórios metropolitanos são constitutivamente marcados pela migração.
Não é por acaso que tanto nos EUA quanto na Grã-Bretanha tornou-se recorrente, por parte de expoentes das extremas-direitas, a referência à guerra civil. Numa situação dessa natureza, é fácil imaginar quais podem ser as reações a deslocamentos em massa de populações determinados pela aceleração da crise climática.
A expressão climate apartheid, introduzida por um relatório das Nações Unidas em 2019, capta perfeitamente a tendência em curso. Não podemos aceitá-la passivamente! Em torno das fronteiras, em todos os sentidos que mencionei, jogam-se novamente partidas fundamentais para o nosso futuro; as lutas dos e das migrantes, articulando-se com outros movimentos sociais, podem lançar as bases para uma política diferente das fronteiras.
O senhor explorou o nexo entre logística, extração e exploração nos territórios do Sul Global. Como forjar uma resistência transnacional que conecte as lutas dos entregadores por aplicativo nas metrópoles europeias com as lutas contra o extrativismo na América Latina, reconhecendo que se trata de duas faces da mesma operação capitalista?
Sandro Mezzadra – É outro tema que abordei em particular em meu trabalho com Brett Neilson, num livro intitulado The Politics of Operations. Excavating Contemporary Capitalism (Duke University Press: 2019).
Buscamos dar substância ao conceito de extrativismo ampliado, que eu havia começado a definir no contexto de uma colaboração com Verónica Gago, na Argentina. Parecia-nos que o significado literal do termo extração — referido às minas, ao petróleo, à agricultura extensiva — era, sim, importante, até crucial em muitas partes da América Latina e do mundo.
Ao mesmo tempo, parecia-nos igualmente importante vincular esses significados a outras operações do capital — em particular, operações logísticas e financeiras — que também têm, embora de modos muito distintos, caráter extrativo.
A logística, enquanto técnica de coordenação e sincronização da mobilidade das mercadorias, impõe externamente seus ritmos e seus parâmetros a um conjunto de atividades produtivas das quais extrai valor. A finança, por sua vez, visa a capturar o conjunto da cooperação social, disseminando em seu interior uma lógica — a do débito e do crédito — que impõe a mobilização de energias e de trabalho em função da criação de um valor que os dispositivos financeiros extraem de seu exterior.
São, naturalmente, poucas palavras sobre temas extremamente complexos; espero, no entanto, que sejam suficientes para dar uma ideia do significado que atribuímos ao extrativismo ampliado.
Um aspecto crucial da valorização do capital investido nas plataformas é, de fato, a extração e a manipulação de dados, por meio de técnicas que, não por acaso, se denominam data mining. E a inteligência artificial generativa impõe que se atualize e aprofunde a análise, diante daquilo que Matteo Pasquinelli chama de automação do general intellect.
Em geral, trata-se de reconhecer que, no capitalismo contemporâneo, operações extrativas — e as frações do capital, para usar a expressão de Marx, que presidem a essas operações — desempenham um papel cada vez mais importante.
Uma das consequências disso é o peso crescente de formas velhas e novas de renda, o que levou recentemente diversos estudiosos a falar em neofeudalismo ou em tecnofeudalismo. Creio que essa referência ao feudalismo não seja particularmente útil para compreender as características do nosso presente, mas a difusão dessas fórmulas pode ser entendida como um sintoma da importância crescente daquilo que chamo de operações extrativas do capital.
Identificar características e qualidades comuns em diversas operações do capital — ou, mais concretamente, evidenciar o nexo entre as operações das plataformas para as quais trabalham os entregadores e o aprofundamento do extrativismo em sentido literal — não resolve, de resto, o problema da convergência das lutas que se opõem a essas operações.
Uma primeira coisa que me ocorre, ao pensar no exemplo que você apresenta, é que as lutas dos entregadores não são uma especificidade da Europa ou do Norte global. Ao contrário: os entregadores são protagonistas de lutas e de processos de organização que justamente na América Latina — e no Brasil em particular — assumem formas particularmente avançadas.
Participei de muitas reuniões e assembleias sobre esses temas, nas quais pesquisadores e ativistas latino-americanos e europeus discutiam no mesmo terreno e sobre os mesmos problemas.
Diria, então, que a questão é como fazer avançar uma espécie de triangulação: em que a construção de redes transnacionais e transcontinentais a partir da condição dos entregadores permita fazer emergir as condições para a convergência entre diferentes lutas em contextos que permanecem distintos — e aprofundar a crítica da economia de plataforma na direção de novos horizontes gerais de libertação. É, no fundo, um exemplo do novo internacionalismo de que há urgente necessidade nestes tempos sombrios, nesta conjuntura de guerra.
Seu artigo Politica di classe reativalizou o problema marxiano da composição de classe. Diante de um capital que fragmenta e dissolve as identidades de classe tradicionais por meio do trabalho de plataforma, da precariedade e da heterogeneidade das formas de exploração, que estratégia política pode, hoje, recompor uma multidão capaz de se tornar sujeito político antagonista?
Sandro Mezzadra – Nesse artigo, assim como em muitos outros textos dos últimos anos, procuro de fato recolocar no centro da discussão o tema marxiano da classe, sublinhando ao mesmo tempo sua importância e sua problematicidade.
Para dizê-lo brevemente: a dimensão objetiva da classe — ou seja, o posicionamento estrutural dos sujeitos — não garante de modo algum, e Marx tinha plena consciência disso, a constituição política de um sujeito antagonista capaz de subverter a relação de capital.
Desse ponto de vista, o conceito forjado pelo operaísmo italiano nos anos 1960 — o de composição de classe, que distinguia uma dimensão técnica e uma dimensão política —, permanece uma contribuição preciosa, que se trata naturalmente de atualizar diante de condições completamente transformadas.
Há muitos anos, o uso da categoria de multidão insiste no relevo essencial da multiplicidade — das figuras, das formas e das experiências de exploração, das reivindicações e dos movimentos de insurreição — como elemento constitutivo da composição de classe contemporânea. Em Border as Method, Brett Neilson e eu propusemos o conceito de multiplicação do trabalho para captar esse aspecto, sublinhando como — do ponto de vista formal — estamos diante de uma questão que tem validade geral, para além da própria divisão entre Norte e Sul globais.
É um ponto para mim muito importante, que representa uma significativa novidade em relação ao operaísmo dos anos 1960, para o qual — em polêmica com o terceiro-mundismo e com as teses sobre a integração da classe operária nos países centrais — era preciso voltar a atenção para o ponto mais alto do desenvolvimento capitalista, porque era justamente lá que era mais forte a ameaça da luta de classe operária.
Hoje as coisas são muito diferentes, e muitos e muitas — ainda que continuando a trabalhar no rastro da tradição operaísta — já há muito nos despedimos dessa tese.
O que significa, em termos gerais, assumir a multiplicidade como base para pensar a constituição de um sujeito político antagonista? Essa pergunta não pode deixar de ser inserida no interior de condições materiais específicas.
Creio que algumas coisas gerais podem ser ditas. Em primeiro lugar, o próprio conceito de trabalho se apresenta hoje como ao mesmo tempo alargado e elusivo — no sentido de que a fronteira entre tempo de trabalho e tempo de vida é cada vez mais indeterminada na experiência social.
Esse é um dos aspectos em que mais têm insistido, nos últimos anos, os estudos sobre o trabalho de plataforma; mas essencial para mim é a história já longa do feminismo marxista, hoje retomada pelas teorias da reprodução social.
Por trás dessa história há uma extraordinária continuidade de lutas que, em diversas partes do mundo — penso, por exemplo, na América Latina dos últimos dez anos —, subverteram politicamente o nexo entre produção e reprodução, determinando a irrupção de uma série de novas figuras ligadas, em sentido amplo, ao trabalho de cuidado.
A classe não pode ser pensada prescindindo dessas rupturas — e, mais amplamente, de dimensões como o gênero, a sexualidade e a raça que a configuram como interseccional. Em torno dessas dimensões formaram-se, apenas aparentemente sem ligação direta com o trabalho, alguns dos movimentos mais poderosos dos últimos anos — penso, por exemplo, no movimento pelas vidas negras nos EUA após o assassinato de George Floyd em 2020.
É evidente que não tenho uma resposta satisfatória para a sua pergunta, que configura antes uma tarefa fundamental para uma pesquisa, para uma grande investigação coletiva enraizada nos movimentos de luta.
Articular as muitas formas de resistência no interior das relações de trabalho com movimentos mais amplos, nos quais se expressam seções essenciais da composição de classe contemporânea, pode ser uma indicação de método — na perspectiva de definir um programa, um horizonte positivo de libertação para além das misérias do presente. Estou convencido de que, nesse sentido, a classe permanece um critério essencial — teórico e político — de identificação da unidade dos movimentos e das lutas das exploradas e dos explorados.
Num momento histórico em que, Bolsonaro governou o Brasil, a Hungria esteve durante longo tempo sob o jugo de Orbán, e a Argentina está sob o governo Milei, as políticas reacionárias miram o saber crítico e as ciências humanas. Que papel pode desempenhar a universidade pública como espaço de elaboração teórica e, ao mesmo tempo, de organização política de base?
Sandro Mezzadra – Você identifica uma tendência geral em sua pergunta, que se manifesta, no entanto, de modos distintos. Nos Estados Unidos, o ataque ao saber crítico — à Critical Race Theory, às teorias de gênero, mas também, de modo mais geral, às correntes historiográficas que evidenciam o papel da escravidão e do genocídio indígena nos EUA — começa muito antes da segunda administração Trump, essencialmente em âmbito estadual: na Flórida, no Texas, no Idaho.
Penso na Europa, o papel da Hungria de Orbán foi certamente relevante, mas em países como a França e, sobretudo, a Alemanha foi o genocídio em Gaza após o 7 de outubro que determinou um salto de qualidade, com ataques violentíssimos a estudantes e docentes que de muitas formas expressaram solidariedade à Palestina.
Em todo caso, a pressão em direção a uma homologação da universidade representa indubitavelmente uma tendência geral — mas é uma tendência que encontra resistências fortes, apoiadas materialmente na acumulação de saber crítico — de métodos, estilos de trabalho, experiências de partilha — nas últimas décadas.
Na Itália, se por um lado o ataque à universidade se dá também por meio de uma política recorrente de cortes de recursos que aumenta a precariedade e dificulta a estabilização de jovens pesquisadoras e pesquisadores, por outro existe uma longa tradição de trabalho na fronteira entre o mundo acadêmico e as dinâmicas sociais mais amplas.
Pessoalmente, sempre procurei trabalhar nessa fronteira, construindo combinações variáveis de intercâmbio entre trabalho de pesquisa, ensino e participação nas lutas sociais.
Creio que seja um método análogo ao seguido por muitos e muitas em outras partes do mundo, e em minha tentativa de construir redes transnacionais e transcontinentais procuro sempre privilegiar a relação com quem — em condições distintas e com base em tradições diversas — está engajado em projetos e práticas que ressoam com o que acabei de indicar.
Em relação à universidade, no entanto, gostaria de acrescentar uma coisa. Certamente sentimos o ataque ao saber crítico no interior das ciências humanas. E resistimos a esse ataque afirmando a especificidade das ciências humanas.
Isto, contudo, não é suficiente: no tempo das plataformas digitais e da inteligência artificial generativa de que discutimos no início desta entrevista, é fundamental construir alianças com outras ciências, as chamadas “ciências duras”.
Precisamos de engenheiros, de cientistas da computação, de matemáticos dispostos a trabalhar em projetos de reapropriação das tecnologias digitais numa perspectiva de libertação! É uma questão que posso apenas esboçar aqui, acrescentando, no entanto, que na construção da solidariedade com Gaza na Universidade de Bolonha desempenharam um papel importante químicos e geólogos, agrônomos e engenheiros, há anos ativos na cooperação com a Palestina. Meu desejo é que seja apenas um começo.
Edições em português — Brasil:
FUMAGALLI, Andrea; MEZZADRA, Sandro (Orgs.). A crise da economia global: mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
MEZZADRA, Sandro. A condição pós-colonial: história e política no presente global. Tradução de Gilson de Marchi. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2020. (Título original: La condizione postcoloniale: storia e politica nel presente globale.)
MEZZADRA, Sandro; NEILSON, Brett. Border as Method, or, the Multiplication of Labor. Durham: Duke University Press, 2013.
MEZZADRA, Sandro; NEILSON, Brett. The Politics of Operations: Excavating Contemporary Capitalism. Durham: Duke University Press, 2019.
MEZZADRA, Sandro; NEILSON, Brett. The Rest and the West: Capital and Power in a Multipolar World. London/ New York: Verso, 2024.
MEZZADRA, Sandro; NEUMANN, Mario. “Al di là dell’opposizione tra interesse e identità. Per una politica di classe all’altezza dei tempi”. EuroNomade, 2019.
MEZZADRA, Sandro. “Intersezionalità, identità e l’enigma della classe”. EuroNomade, 2021.
MEZZADRA, Sandro; HARDT, Michael; NEILSON, Brett. “War Regime”. South Atlantic Quarterly, vol. 123, n. 2, 2024.
Esta entrevista não poderia terminar sem mencionar o profundo pesar pelo trágico sismo que assola a Venezuela. Diante da dor humana e das fraturas da nossa própria geografia, que o internacionalismo e a solidariedade do Sul se ergam de forma urgente para além de qualquer fronteira.