29 Junho 2026
Sob a tutela dos EUA, sem livre acesso às suas receitas e com um sistema que já opera no limite, o país sul-americano enfrenta seus momentos mais difíceis.
A reportagem Maria Martín, publicada por La Repubblica, 28-06-2026.
Era quarta-feira à noite e os três estavam na cozinha depois de um feriado na praia. William Vera, um chef de 24 anos, tinha viajado de Caracas para o litoral venezuelano para passar o dia com a namorada e a mãe dela em um apartamento à beira-mar. Eles não se conheciam há muito tempo, mas já faziam planos para o futuro. Ela estava vendendo o apartamento para se mudar para a capital, mais perto dele.
Eles tinham passado o feriado na praia e só voltaram para casa para buscar o cachorro, um filhote doente que William não queria deixar sozinho. Planejavam comer alguma coisa e depois voltar para a praia. Eram 18h03.
O primeiro tremor ocorreu pouco mais de um minuto depois. Abriu um buraco no telhado e uma geladeira inteira caiu do andar de cima sobre a sogra de William. O chão tremia. Ele e a namorada cambalearam em direção à porta, mas uma máquina de lavar bloqueou o caminho. Segundos depois — os 39 segundos que separaram o terremoto de magnitude 7,2 do de 7,5 — a parede desabou sobre eles, prendendo-os sob o prédio. A história é contada por Jhon Da Silva, de 34 anos, seu melhor amigo, o homem que o resgataria dos escombros no dia seguinte.
William e sua namorada passaram a noite de quarta-feira juntos sob os escombros. Em algum momento da madrugada, ela disse que não aguentava mais e ficou imóvel. Ele perdeu a consciência até a manhã seguinte, quando foi acordado por vozes que o procuravam. Entre elas estava a de John, que removia desesperadamente os destroços. William respondeu à sua ligação.
“Não havia autoridades”, conta Da Silva. “Então foram os amigos dele que o tiraram de lá. Usamos uma porta como maca, o amarramos, o colocamos em um carro e o levamos para o hospital”, relembra.
Essa cena — vizinhos cavando com as próprias mãos, sem capacetes ou máscaras, improvisando macas com portas e tábuas — era típica de toda a costa nas primeiras horas. E também era a cena nos dois bairros mais atingidos de Caracas, onde várias torres desabaram.
A ONU estima que mais de 50 mil pessoas estejam desaparecidas após os terremotos na Venezuela, e o número de mortos passa de 1,4 mil.
— GloboNews (@GloboNews) June 28, 2026
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciou que já são mais de 3,2 mil feridos. E 3 mil pessoas perderam suas casas ou não… pic.twitter.com/bW6MN0w9dy
Três dias após o duplo terremoto, Caracas vivencia um estranho retorno à normalidade. A capital apresenta muitos prédios danificados, mas os estragos se concentram em alguns bairros. La Guaira, por outro lado, é uma zona de desastre, como descreveu a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Entre as vítimas, estão mais de cem venezuelanos deportados dos Estados Unidos que haviam desembarcado naquela manhã e estavam hospedados em um hotel que desabou. Eles perderam a vida justamente no dia em que eram obrigados a retornar ao país do qual haviam fugido.
“Éramos 135 repatriados, e apenas 12 sobreviveram; todos os outros morreram”, relatou um dos sobreviventes em um vídeo que circula nas redes sociais. O centro esportivo da cidade está abrigando centenas de pessoas — e seus animais de estimação — que dormem no chão sob tendas militares. Há dezenas de crianças. Roupas doadas estão empilhadas no campo de futebol, que começa a ficar molhado por causa da garoa, enquanto cidadãos comuns chegam em vans para distribuir comida. Ninguém parece estar coordenando a ação.
Na mesma sexta-feira em que o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, pediu à população que não descesse até La Guaira para não atrapalhar os esforços de resgate — um apelo repetido por sua irmã, Delcy — a única rodovia que liga Caracas ao litoral estava repleta de milhares de motocicletas, carros e caminhões. Retroescavadeiras, água, comida, geradores, sapatos, colchões, medicamentos, policiais, socorristas e embaixadores foram mobilizados. Como em muitos desastres, a ajuda popular chegou antes da ajuda do governo. Mas não havia ninguém para coordená-la, e a onda de solidariedade acabou congestionando as estradas. Os policiais dirigiam o trânsito de forma confusa. Em alguns momentos, eles próprios o obstruíam. Em meio ao caos, as ambulâncias não conseguiam passar.
Havia pontos de coleta, mas ninguém obrigava as pessoas a deixarem seus suprimentos lá, então a maioria decidiu levar a ajuda até a costa por conta própria. O mesmo aparato chavista capaz de rastrear até a última mensagem de WhatsApp contra Nicolás Maduro — antes de os americanos a interceptarem em 3 de janeiro — falhou em garantir um atendimento rápido para emergências durante a crise. Quando o caos já havia se instaurado, o Ministro do Interior, Diosdado Cabello, anunciou o fechamento do acesso: La Guaira, declarada zona militarizada, só seria aberta a pessoal autorizado a partir daquele momento.
Na manhã deste sábado, a entrada daquela estrada estava absurdamente congestionada novamente. Peritos forenses, policiais, médicos, ambulâncias, máquinas pesadas… todos bloqueados.
John e seus amigos tiveram dificuldades para mover William. No hospital, ele foi tratado no chão — não havia macas — e depois em uma mesa para uma cirurgia de emergência no braço. O desabamento da parede o esmagou, interrompendo a circulação sanguínea. Ele também tinha um traumatismo craniano e um grave trauma abdominal. "O hospital não tinha recursos para tratá-lo; tivemos que levá-lo para outro lugar", conta um amigo. Eles acabaram pagando cerca de 500 dólares por uma ambulância que antes era pública, mas que agora estava nas mãos de alguém que a aluga para o maior lance. Quando chegaram a uma clínica particular — apesar do apelo do governo por ajuda na emergência — disseram-lhes que não seriam atendidos a menos que pagassem. Na clínica, informaram-lhes que o braço dele teria que ser amputado. De lá, o levaram para um hospital militar.
This earthquake video from Venezuela is absolutely insane and sad. pic.twitter.com/faw6fwhHSj
— Ed Krassenstein (@EdKrassen) June 29, 2026
“Eles não estavam preparados para isso. Meu amigo estava sangrando muito, me contando tudo da maca”, lembra Jhon. William, com o rosto inchado, descreveu ao amigo a cena na cozinha, o incidente com o cachorrinho e como se sentia culpado porque, se tivessem ficado na praia, nada teria acontecido, mas ele tinha sido “o idiota” que quis voltar para buscar o animal. Da maca, ele enviou mensagens de voz para a irmã, grávida de sete meses, e para a mãe. Na primeira, com a voz ainda forte, pediu que ela ficasse onde estava, que se cuidasse e que não se preocupasse com ele. Disse que seu “corpo estava quebrado”, mas que era um viking e que sobreviveria. Na segunda, disse à mãe que queria vê-la novamente. “Já estou no hospital e eles vão me mimar”, disse ele.
A Venezuela enfrenta essa catástrofe em meio a uma crise humanitária, política e social que se arrasta há anos. Mais de um quarto de século de regime chavista devastou as instituições — o país tem a terceira pior pontuação do mundo no Índice de Percepção da Corrupção, à frente apenas da Somália e do Sudão do Sul — e deixou os serviços públicos em ruínas. Nos hospitais, mesmo antes do terremoto, apenas quatro em cada dez salas de cirurgia estavam funcionando, e em nove em cada dez centros, os pacientes precisavam levar seus próprios materiais para a cirurgia, de acordo com o Levantamento Nacional de Hospitais realizado pela organização Médicos pela Saúde.
O país também está sob tutela dos EUA desde a prisão de Maduro em janeiro. Washington não apenas condiciona as decisões soberanas dos venezuelanos, como também controla seu dinheiro. Em meio a essa emergência, Caracas ainda não pode acessar livremente seus bilhões de dólares em receitas petrolíferas. A Casa Branca suspendeu uma sanção temporária que autorizava transferências e apoio logístico para o esforço de resgate, incluindo fundos de terceiros países, mas ainda não liberou o restante. Enquanto mais de vinte equipes internacionais chegam à Venezuela, "os Estados Unidos continuam a manter o país sob seu controle, deixando-o sem recursos para programas sociais ou para lidar com uma crise como esta", afirma um observador estrangeiro sob condição de anonimato.
Nos dias de hoje, a frase "só o povo pode salvar o povo" ressurgiu. É a mesma frase que foi entoada durante o terremoto no México em 2017 e que ecoou pela Espanha em outubro de 2014, quando uma enchente repentina cobriu Valência de lama e voluntários chegaram às vítimas antes dos militares e da ajuda estatal. Aqui, os militares estão presentes. Eles são visíveis. Montaram hospitais de campanha. Mas é surpreendente que, em um país tão militarizado quanto a Venezuela, onde sempre se disse que a estabilidade dependia dos quartéis, os soldados no comando não sejam vistos, nem mesmo com as mangas arregaçadas como seria de se esperar. Em um dos bairros mais atingidos de Caracas, um major coordenava o fluxo de voluntários enquanto um grupo de jovens soldados pouco fazia. Eram civis que removiam os escombros.
Corpos enfileirados aguardam identificação na Venezuela após terremotos.#DWNoticias pic.twitter.com/64px0vVg2C
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Em 1999, recém-empossado, Hugo Chávez mobilizou o exército para evacuar dezenas de milhares de vítimas do deslizamento de terra de Vargas — a mesma área agora novamente em ruínas — e projetou uma imagem de comando militar e controle absoluto dos quartéis. Vinte e sete anos depois, o presidente novamente colocou um general no comando, mas não é a presença militar que domina a cena. Não está claro quem está no comando. Em meio aos escombros, são principalmente os moradores locais que estão escavando.
Na funerária de Caracas, a mãe de William sentava-se serena na calçada nesta sexta-feira, aguardando pacientemente. Dezenas de pessoas esperavam há horas para poderem levar seus entes queridos para casa. Vizinhos se aproximavam, oferecendo-lhes sanduíches. A mulher não parecia ter forças para falar, mas convidou Jhon a contar a história de seu filho, cujo corpo ainda aguardava na manhã de sábado. William resistiu por horas como um viking, mas finalmente sucumbiu.
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