Venezuela abalada por um duplo evento sísmico: um século de energia liberada em uma hora

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25 Junho 2026

Venezuela abalada por um duplo evento sísmico: um século de energia liberada em uma hora

Gina Paola Villalobos relata que uma falha geológica vinha acumulando a energia liberada nesta quarta-feira há mais de 100 anos.

A informação é de Carlos S. Maldonado, publicada por El País, 25-06-2026

A terra não deu trégua. Em pouco mais de sessenta minutos, o norte da Venezuela vivenciou um fenômeno que desafia a intuição popular, mas está gravado no registro geológico: um duplo tremor sísmico. Dois grandes tremores — um de magnitude 7,2 e o outro de 7,5, segundo dados preliminares do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) — romperam a aparente calma tectônica de uma região que não registrava um evento de tal magnitude há mais de um século. Um evento que atraiu a atenção dos cientistas.

A profundidade da ruptura, que variava entre 10 e 20 quilômetros abaixo da superfície, multiplicou o pânico em centros urbanos densamente povoados como Caracas, onde os cidadãos foram lembrados da fragilidade de se viver em uma fronteira de placas tectônicas.

A engenheira civil e sismóloga Gina Paola Villalobos Escobar, pesquisadora da Universidade Autônoma de Tamaulipas, analisa o comportamento desses terremotos. Segundo a especialista, o evento não pode ser considerado anômalo, mas sim estritamente "esperado" dentro do ciclo natural da Terra. O principal problema, aponta ela, não está no subsolo, mas na superfície: nos códigos de construção obsoletos e frágeis das cidades latino-americanas.

A noção popular de que a Terra é um organismo vivo que acumula pressão insuportável até explodir tem uma base científica precisa. Villalobos explica isso despojando a sismologia de jargões técnicos áridos e recorrendo a um princípio físico básico. "Gosto muito de explicar isso em sala de aula com um exemplo simples: imagine que você pega um pedaço de macarrão, um fio de espaguete cru, e começa a dobrá-lo aos poucos", explica o cientista. "O macarrão se deforma, mas não se rompe imediatamente. A tensão continua a se acumular até que, de repente, inesperadamente, você ouve um estalo seco e o macarrão se rompe. Isso, em essência, é um terremoto."

No norte da Venezuela, as placas tectônicas da América do Sul e do Caribe se chocam há milhões de anos em um atrito silencioso e invisível. As propriedades mecânicas do terreno agem como esse espaguete cru, resistindo a tensões colossais até ultrapassarem seu próprio limite de ruptura. Quando o material cede, a energia acumulada ao longo de gerações é liberada repentinamente na forma de ondas elásticas.

A escala de tempo humana muitas vezes dificulta os esforços de prevenção. Os 126 anos que se passaram desde o último grande cataclismo na região — ocorrido em 1900 — são um piscar de olhos em termos geológicos. “Não podemos medir escalas de tempo geológicas em termos antropológicos”, alerta Villalobos. “Cada falha tem suas próprias taxas de recorrência. Enquanto grandes terremotos ocorrem a cada 15, 20 ou 30 anos na costa do Pacífico mexicano, outros sistemas geológicos são muito mais lentos em acumular essa energia.”

O que tornou este dia particularmente perturbador para a população venezuelana foi a duplicação do desastre. Um primeiro terremoto severo foi seguido, pouco mais de uma hora depois, por um tremor secundário que superou em magnitude o evento inicial. Cientificamente, isso é chamado de "duplo sísmico". "Não há uma única explicação física ou preditiva para isso. Às vezes, a liberação de energia ocorre em um único ponto, e outras vezes ocorre em dois", destaca o sismólogo.

Para ilustrar isso, Villalobos usa outra analogia do dia a dia: “É como quando você cai e torce o tornozelo; às vezes apenas um osso fratura, mas outras vezes o impacto é tão grande que ele quebra em dois lugares diferentes, um mais acima e outro mais abaixo. A mesma coisa acontece com as falhas geológicas: um terremoto inicial extremamente violento sacode e desestabiliza outros segmentos da mesma falha ou de falhas adjacentes que já estavam no seu limite. Digamos que o primeiro tremor terminou de desestabilizar o que já estava prestes a se romper.”

A ocorrência de tremores duplos, embora menos frequente do que o padrão clássico de um grande terremoto seguido por réplicas menores e decrescentes, tem precedentes claros na região. O norte da Venezuela já se encontrava em um estado de iminente maturidade sísmica; a primeira ruptura serviu de gatilho para a segunda.

À medida que o solo busca um novo equilíbrio após a deformação permanente de suas camadas profundas, os tremores secundários continuarão a ocorrer nos próximos dias, semanas e até meses. Esse reajuste geológico representa um desafio colossal para as autoridades de gestão de riscos em áreas metropolitanas. “Terremotos não matam pessoas. Se você for atingido por um terremoto de magnitude 7,5 no meio de um campo de futebol ou em um terreno baldio, a vibração o derrubará, mas o risco de perder a vida é mínimo. O verdadeiro perigo reside nas estruturas civis; são os edifícios que não atendem aos requisitos de engenharia sísmica que desabam e causam tragédias humanas”, lembra o especialista.

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