“Deus deve estar no centro de todas as decisões”: a ascensão de De la Espriella ao poder desencadeia um debate sobre laicidade na Colômbia

Abelardo de la Espriella (Foto: Wikimedia Commons)

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05 Agosto 2026

O futuro presidente incorpora a fé em seus discursos e nomeia políticos ultrarreligiosos.

A reportagem é de Diego Stacey, publicado por El País, 05-08-2026.

De joelhos, Bíblia na mão. Assim apareceu Abelardo de la Espriella neste domingo, menos de uma semana antes de sua posse como presidente da Colômbia, em um retiro espiritual do qual participou com membros de seu futuro gabinete. O presidente eleito, seus ministros e outros futuros funcionários se reuniram para rezar, ouvir ensinamentos do Papa Leão XIV e assistir a passagens bíblicas animadas com inteligência artificial. "Para construir uma grande nação, devemos colocar Deus no centro de cada decisão", concluiu o político após o retiro. Diversas declarações recentes suas, nas quais afirma que a espiritualidade é essencial para governar, ou a escolha de funcionários ultrarreligiosos, reacenderam o debate sobre as garantias do laicismo no país.

A Colômbia é oficialmente um Estado laico há 35 anos, conforme estabelecido pela Constituição Política de 1991. Isso significa que o país não tem religião oficial e que o governo deve manter a neutralidade religiosa. Isso não significa que os presidentes não possam ter e praticar sua fé: todos os presidentes eleitos na Colômbia desde então, de Andrés Pastrana a Gustavo Petro, se identificam como católicos.

Mas De la Espriella integrou o simbolismo religioso em seus discursos de uma forma incomum, colocando a fé no centro do debate público. Durante a campanha eleitoral, ele frequentemente usou expressões como "guerra espiritual" e se referiu a si mesmo como "o Ciro de que a Colômbia precisa", aludindo a um rei persa que, segundo a Bíblia, apoiava os judeus. Uma de suas bases eleitorais mais importantes era a dos cristãos evangélicos, com muitos dos quais ele cultivou laços estreitos durante sua candidatura, junto a suas igrejas e pastores. Ele compartilha com eles uma agenda ultraconservadora de defesa da família tradicional e de oposição a direitos já conquistados pelas mulheres, como o acesso ao aborto.

As imagens do retiro espiritual deste fim de semana provocaram indignação em diversas figuras da esquerda, agora na oposição. O ministro do Trabalho cessante, Antonio Sanguino, classificou o encontro como "grotesco" e afirmou que o Estado laico não pode "acabar se tornando uma igreja". Carlos Carrillo, ex-diretor da Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres, declarou que "ignorar o fato de a Colômbia ser um Estado laico é uma afronta à Constituição e um retrocesso de séculos". E a congressista María Fernanda Carrascal, uma das figuras mais proeminentes do movimento Petro no Congresso, opinou que De la Espriella "viola" o laicismo "com seus comentários desrespeitosos contra religiões como o Islã e com sua afirmação de que governará com base na Bíblia".

Além das questões levantadas durante o fim de semana, a oposição e diversos especialistas e profissionais do direito questionaram a nomeação, por De la Espriella, de várias figuras ultrarreligiosas para o seu gabinete. Entre as mais controversas estão Viviane Morales e Paola Holguín, como Ministras da Educação e da Cultura, respectivamente. Ambas as políticas têm visões muito conservadoras e liderarão ministérios focados em temas que De la Espriella, ecoando a onda de extrema-direita que varre o continente, classificou como parte da "batalha cultural".

No vídeo em que o gabinete do futuro presidente anunciou Morales como ministra, foram destacadas sua "fé cristã e inabalável senso de serviço" no setor da educação. O objetivo de sua nomeação, segundo o vídeo, é "a reconstrução moral da nação". A advogada é cristã evangélica desde a juventude e, nos últimos anos, tornou-se defensora da família tradicional. Há uma década, ela se opôs veementemente à implementação de um programa de educação sexual nas escolas e também propagou a mentira de que uma educação "homossexualizante" teria sido acordada como parte do processo de paz.

Por sua vez, como senadora, Holguín fazia parte do chamado grupo "pró-vida", um grupo de congressistas que se opunham ao aborto. De la Espriella a escolheu para chefiar o Ministério da Cultura apesar de sua limitada experiência no setor e mesmo que, nos últimos dias, ela tenha celebrado o fervor religioso do novo governo. "É impossível governar o mundo corretamente sem Deus e sem a Bíblia", publicou a nova ministra em sua conta nas redes sociais, citando uma frase erroneamente atribuída a George Washington.

O novo gabinete também inclui o pastor Jaime Andrés Beltrán como ministro da Habitação. Enquanto prefeito de Bucaramanga, ele implementou a prática de realizar cultos mensais nos auditórios da cidade. Outra nomeação é a do ex-Procurador-Geral Alejandro Ordóñez como embaixador junto à OEA. Ele é um político ultraconservador que, ao longo de sua carreira, não escondeu que suas decisões são guiadas por um dos grupos mais extremistas da Igreja Católica, o lefebvrismo, recentemente excomungado pelo Papa Leão XIV.

Seriam essas nomeações e declarações uma afronta ao laicismo na Colômbia? Bibiana Ortega, especialista em religião e política e professora de Ciência Política na Universidade Javeriana, diz que não, com algumas nuances. "O Estado laico na Colômbia não se desenvolveu da mesma forma que em outros países, como a França, porque a tradição cristã está muito enraizada na cultura. As barreiras são muito permeáveis, e um exemplo simples, mas claro, são todos os feriados religiosos", explica ela em uma conversa telefônica.

Ainda assim, a especialista expressa preocupação com a possibilidade de um retorno forçado da religião a espaços onde ela já não está presente, pois isso poderia afetar a liberdade de crença. "Há um projeto cultural em curso na direita que se desenrola em áreas como a educação e a cultura, que são percebidas como territórios onde a esquerda estava ganhando terreno. Eles acreditam que precisam lutar por essas posições, e é por isso que há uma onda de certa reafirmação dos valores cristãos", destaca.

As declarações de De la Espriella e membros de seu governo não escondem a intenção de revitalizar os valores cristãos em todas as áreas da sociedade por meio do que chamam de "guerra cultural", que se resume à eliminação da diversidade e do que denominam "woke" nos contextos sociais e culturais. Essa campanha já ganhou força em diversos países, como os Estados Unidos com o movimento MAGA de Trump ou a Argentina com Javier Milei.

Para Ortega, a ascensão de De la Espriella ao poder, com sua retórica ultrarreligiosa, representa um desafio significativo para as instituições colombianas. "Agora é a hora de o Congresso demonstrar sua capacidade de exercer fiscalização política, e se o novo presidente fizer algo inconstitucional contra o laicismo, o Tribunal estará lá para intervir. O funcionamento do equilíbrio de poder é fundamental", afirma ela.

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