03 Julho 2026
"O Rei." Esse é o apelido que Gustavo Petro deu a Donald Trump. O presidente colombiano afirma que existe a possibilidade de toda a América Latina acabar "sob o controle" dos Estados Unidos, como declarou ao jornal italiano Corriere della Sera esta semana, durante sua visita ao Vaticano. Em pouco mais de um mês, a Colômbia deixará de ser uma "problemática" aos olhos de Washington e estará novamente sob sua proteção, como tem acontecido há décadas. Isso ocorrerá sob a liderança de Abelardo de la Espriella, que tomará posse como presidente em 7 de agosto e demonstrou total alinhamento com Trump em questões de segurança, economia e imigração.
A informação é de Diego Stacey, publicado por El País, 03-07-2026.
A imprensa internacional está repercutindo esse cenário, que agora inclui a Colômbia. A revista The Economist o chama de "trumpificação" da América Latina, uma tese semelhante à do The Guardian: "O trumpismo se internacionalizou". O ocupante da Casa Branca havia conquistado vitórias significativas para aliados na região, como Honduras e Chile, mas um desafio maior persistia: recuperar sua influência na Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína e onde, quatro anos atrás, a esquerda havia vencido pela primeira vez neste século.
De la Espriella venceu o segundo turno das eleições em 21 de junho por uma margem estreita (menos de um ponto percentual) sobre seu rival, o senador de esquerda e aliado de Petro, Iván Cepeda. Trump reivindicou a vitória com exageros — alegando que o colombiano estava em décimo lugar quando, na realidade, sempre liderou as pesquisas — e ganhou um parceiro leal. O candidato de extrema-direita propõe uma abordagem linha-dura contra criminosos, a pulverização aérea de plantações de coca e a cooperação militar, visando, em última instância, conter a produção e a exportação de drogas.
Essas iniciativas estão alinhadas com a Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, apresentada em dezembro. O plano de Washington tem sido reviver a antiga Doutrina Monroe, "América para os americanos", em seu sentido dos anos 1970, quando o presidente Richard Nixon inaugurou uma nova era de interferência dos EUA na América Latina, seu chamado "quintal". Com a chamada Doutrina Donroe, a Casa Branca busca conter a migração, "neutralizar" os cartéis de drogas e reduzir a influência chinesa na região. O primeiro passo nessa direção foi a criação do Escudo das Américas, uma coalizão de países ideologicamente alinhados para combater o narcotráfico.
Uma das promessas de De la Espriella é aderir a essa aliança internacional no primeiro dia de seu mandato. A aliança já inclui países como Argentina, El Salvador, Equador e Chile, todos com governos de direita ou extrema-direita.
Elizabeth Dickinson, pesquisadora do International Crisis Group, indica que a mudança não será uma transformação completa. "Ao contrário da crença popular, a cooperação em segurança permaneceu praticamente a mesma sob o governo Petro. A novidade reside no foco de Washington em restaurar sua hegemonia no hemisfério e, portanto, haverá novas prioridades para as quais a Colômbia será necessária", observa. Entre elas, a necessidade urgente de lançar ataques contra organizações criminosas e a aceleração das extradições de seus líderes.
Na reta final de seu mandato, Petro tentou restabelecer as relações com os Estados Unidos, que estavam bastante tensas nos âmbitos político e diplomático. Em uma das medidas que revelam essa mudança, o presidente cessante anunciou esta semana que permitiria a extradição de Chiquito Malo, líder do Clã do Golfo, o grupo criminoso mais poderoso da Colômbia, com quem negociações estavam em andamento. Petro também enfatizou recentemente o progresso de seu governo no combate ao cultivo de coca.
Se isso acontece com o presidente cessante, o presidente eleito se vangloria de sua política de linha dura, que se alinha à visão de Trump. Em um discurso recente, De la Espriella deu às gangues criminosas 30 dias para se entregarem à justiça antes de persegui-las com toda a força do Estado. "Em meu governo, não haverá ofertas generosas nem concessões inaceitáveis como as recebidas do regime que agora está chegando ao fim", enfatizou, encerrando efetivamente a política de paz total.
Para essas operações prometidas, o líder da extrema-direita espera contar com o apoio militar e o fornecimento de armamentos dos EUA. Segundo a especialista Dickinson, é improvável que os EUA forneçam um pacote financeiro substancial na mesma escala do Plano Colômbia, lançado no início do século. Em vez disso, tudo indica uma colaboração mais direcionada, como as que Washington já realizou com o Equador e, mais recentemente, com a Venezuela, para assassinar o líder da gangue Tren de Aragua. "Essas ações podem ser positivas taticamente, mas também podem apresentar riscos se o bem-estar dos civis que vivem em áreas com forte presença desses grupos não for levado em consideração", explica ela.
Outro ponto crucial na agenda do Escudo das Américas é a migração. O governo Trump lançou uma intensa cruzada contra imigrantes nos EUA, e voos de deportação tornaram-se comuns. Assim, milhares de deportados chegam à Colômbia todos os anos, apesar das tentativas de Petro de conter a situação. Trump pressionou a Colômbia com tarifas e venceu, e espera-se que, sob o governo de De la Espriella, esse ritmo continue ou até mesmo aumente. O senador de Ohio, Bernie Moreno, de origem colombiana, indicou que, em uma reunião com o presidente eleito, ficou acordado que "qualquer colombiano que solicitar asilo deverá retornar à Colômbia".
A questão mais controversa provavelmente será a redução da influência chinesa. Pequim tornou-se um parceiro comercial fundamental para a Colômbia nos últimos anos, a ponto de aderir à Iniciativa Cinturão e Rota e garantir diversos contratos importantes de infraestrutura com o gigante asiático, como o metrô de Bogotá. A equipe de De la Espriella afirmou que manterá o relacionamento com "uma dose de pragmatismo", sem ainda especificar como isso se traduzirá em medidas comerciais ou políticas.
O "rei" a quem Petro se refere tem apenas dois anos restantes em seu mandato, e pela frente estão as eleições de meio de mandato, que podem diminuir seu poder no Congresso e, consequentemente, sua influência internacional. Por ora, ele tem jogado suas cartas para garantir uma série de vitórias na região que o ajudarão a implementar sua visão neoimperialista na América Latina.
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